Terca-feira, 30 de junho de 2004
Ah, meu mundo voltou a se encher de palavras - e junto com o verão, que já havia se mostrado pela primavera enquanto eu trabalhava fechado dentro de um restaurante, mas que agora se intimida, espalhando o sol até as dez da noite de modo a nenhuma hora do dia ser nem privilegiada nem desprivilegiada, sempre satisfeita ou conformada com a quota de luz que lhe cabe. Se os dias são de calma - no mais, de um chuvisco em céu claro que, de tão rápido, deixa os francoforteanos frustrados sem um arco-iris – eu, por outro lado, ando nas minhas revoluções internas, nas minhas oscilações pulsantes entre devorar textos em línguas bárbaras e querer derreter na cama, deixando que meu corpo escorra através dos poros do colchão. Ando homem dialético, talvez por contingência (o neo-gramsciano Robert Cox anda roubando algumas horas da minha vida – que meu avô se sinta orgulhoso disso, e que o Napoleão grite no meu ouvido “Cox é coisa do passado”), talvez por necessidade.

Hoje fui dormir ontem (?) às quatro da tarde, crendo que uma soneca acabaria com uma dor de cabeça que me acompanhava desde manhã, quando apresentei um seminário em grupo de bárbaros. Acordei às sete da noite pelo suor do sol que havia entrado agressivamente no meu quarto. Peguei alguns textos sobre os conflitos em Israel, deitei na cama, joguei o edredon de lado e fiquei nu tomando sol. Assim que fui lendo, meus olhos se fechavam, meus músculos se descontraíam até que eu sentisse que não valeria o sacrifício segurar as xerox e levantar o olhar do rodapé até a primeira linha da próxima página. Resignado, soltei o peso restante da cabeça, meio perfil esfregado no travesseiro e boca aberta (que até fechá-la seria cansaço desnecessário); larguei as cópias logo de frente e fiquei olhando para o número da página (79) até não perceber não estar mais olhando.

Meia noite e eu e minha irmã havíamos descido de bicicleta as ladeiras mais íngremes dos montes desmatados e barrentos da Serra da Mantiqueira, mostrando o parque de diversões natural joseense ao caro senhor visitante sem nome, do país do outro lado lá, falante da língua descompreendida, que pedalava sua bicicleta do jeito do que não sabe pedalar. Postos da Sabesp, terrenos demarcados com arame farpado, criança suja e barriguda correndo descalça atrás de galinha, áreas de reflorestamento com magros eucaliptos dispostos em plano cartesiano, e muito barro além do bairro do Limoeiro, do Urbanova, de Jacareí. Era meia-noite e já era tarde demais para não querer mais dormir.

No barro pisado do acampamento dos manifestantes festa virava protesto, voltava arte, terminava fila de espera pelo trem. Mistura de Woodstock e Fórum Social Mundial, alguma clareira no Vale descampado do Paraíba recebeu o mundo, o mundo bebeu, fumou, cheirou e agora se impacientava pelo atraso da deutsche Bahn (!). Desculpando-se por uma falha técnica no trecho entre Fitzwillian e Moorthorpe (em Yorkshire, norte da Inglaterra), a companhia alemã enviou um trem dos anos setenta com velhinhas idênticas, de cabelo lavado com blue rinse, sentadas em todas as janelinhas, reclamando da falta de educação desses jovens que não se dão o trabalho de respeitar as senhoras de idade. Baldeação, estação de nome genérico “Avenida Paulista”. Personagens bebidos, fumados e cheirados do acampamento saíram do trem e ficaram esperando. Dançando, bebendo, fumando, cheirando. Uma jovem deitou-se no trilho sentido oeste e começou a dormir. Uma mulher já de seus trinta anos, moradora de rua, mãe de duas crianças de menos de cinco anos, deitou-se no outro trilho, sentido leste. Nenhuma previsão de os trens chegarem. Atraso, problemas técnicos. Também dorme, respirando pesado um bafo espesso de cachaça. No autofalante, “auf Gleis eins fährt S8 nach Wiesbaden ein”. Desespero. “Levanta, mulher! Levanta!” Não adianta e passa correndo o trem sobre ela. Sem ruídos estranhos nem sangue espirrando por canto algum. O acidente parecia só existir na reação das outras pessoas. Imediatamente, chegou um outro trem, bastante pequeno, no meio da plataforma (???) com funcionários fortões da deutsche Bahn (e suas boinas vermelhas) gritando “saiam, saiam, acidente envolvendo pessoa”.

Acordei às quatro, o céu estava voltando a clarear. Mas quantro da manhã era horário em que eu acordava quando tinha que trabalhar em período diurno. Prometera para mim mesmo que nunca acordaria mais às quatro. Em respeito ao compromisso comigo mesmo, dormi de novo até que já fossem sete horas da manhã. Fora a impressão de que eu havia derretido e escoado pelos poros do colchão, não me passava nada pela cabeça. Parecia que o mundo era injusto demais por continuar rodando enquanto eu ficava preso na minha leseira. Tinha a impressão de que poderia dormir pelo resto da minha vida. Tinha outro seminário para apresentar no dia seguinte, mas e daí – que diferença faria para esse mundo estranho a mim se eu participasse ou não dele? Não sei quais são os efeitos no organismo do homem quando ele dorme quinze horas seguinas – queda grave de serotonina? De adrenalina? Sentia um conforto de quase morte, como se não sobrassem forças para levantar e me repor do sono. Tinha que continuar a dormir.

Um moralismo me deu uma pancada e me forçou a aceitar que dormir seria só antecipar um pouco da morte, que seria errado desperdiçar o investimento de meus pais para desviver num lugar com preços em euros (antes desviver no Brasil, onde o aluguel é mais barato). Tinha que acordar. A dor de cabeça continuou até que eu percebesse que o dia não me esperaria. E então voltei a me encher de palavras.