Terca-feira, 30 de março de 2004
Por que eu fiquei tanto tempo sem atualizar o meu blog, mesmo estando em férias, mesmo tendo parado com as leituras agradáveis e empacado nas nem tanto? Por quê? POR QUÊ?
Porque, primeiro, o tempo lá fora está tão bonito que eu não me prenderia numa sala de computadores com luzes fluorescentes. Mas, segundo, e principalmente, porque... tcharam...

Magnum opus Thomae Alexandris Mayeri Napoleoni et Mauricius Hortae Miyauchorum promptus est!

PHOTOSPHERE
fotografia, língua estrangeira
phtography as foreign language
photographie langue étrangere
Fotografie als Fremdsprache


Depois de uma decisiva reunião em Frankfurt, regada a Apfelwein azedo e vinho de €1,99, meu colega ecano/pucano/sciences-poeano/paris-oiteano Napoleão decidimos fazer um pequeno site fotográfico amador. Apesar de certas dificuldades, conseguimos pô-lo no ar (aqui em Frankfurt não sou detentor de meios de produção - i.e. não tenho computador próprio, quanto menos scanner - mas sim um parasitário dos recursos sociais do estado de bem estar alemão e da boa vontade de meus pais, que se deram o trabalho de revelar e escanear as fotos que lhes enviei pelo correio).

As fotografias são postadas em pequenos ensaios com tema definido e brevemente apresentado em textos de no máximo três parágrafos. O Photosphere (ou Photosphère, ou Fotosphäre, ou Fotosfera, como quiserem) tem como premissa que Estado-Nação é um conceito ultrapassado, e que identidades culturais devem ser construídas portanto independentemente das barreiras de nacionalidade. Por isso publicamos os textos em inglês, francês, alemão e, claro, português (não há tradução espanhola por pura ignorância dos organizadores, hehe). É também por isso que as fotografias trazem um certo olhar estrangeiro (ou de estranhamento).

Dêem uma olhada, e deixem seus comentários!

e voltando à (quase) realidade...
Os ânimos exaltados da primavera vão passando assim que o sol deixa de ser novidade. Não é poesia, é fato. Se nos primeiros dias em que foi possível sentar no gramado para sentir um calor de luz na pele embranquecida pelo inverno os francoforteanos desamarraram as carrancas osotrogodas para dar sorrisos que, de tão leves, faziam-me crer realmente felizes, o costume lhes fechou de novo. Aqui na sala de computador, as pessoas fazem fila de espera; os rostos trazem traços de violência reprimida contra os que impendem a satisfação de suas necessidades virtuais. E atrás desses rostos distorcidos, um sentimento de injustiça dos que não compreendem a urgência e importância de seus afazeres. Todos querem sentar-se diante do computador para desaguar a verborréia que não aliviam interpessoalmente; todos dependem da formalidade técnica que fornece as condições necessárias para que se troquem palavras. Num clic, um chat. Sentados solitários diante da interface que os contecta a milhões, sentem-se felizes na boa companhia de pixels cintilantes – 480 mil pixels brilham somente para eles, enquanto que no metrô lotado nenhum olhar é trocado. Que feliz é o mundo de bites e bytes que sintetiza somente o elevado do homem – suas palavras -, livrando-o da carne – saco de merda e fluidos corpóreos. Livrando da carne que, em plena primavera, contorce-se em carranca ostrogoda de Oliver Kahn.

Na cozinha, minha co-locatária deu um grito indignado cheio de ódio, “blöder Schwein”. “Porco idiota” não traduz exatamente o que ela quis dizer. Fora da culinária, dos salsichões e dos caldeirões de Eisbein, o porco é a Maria Madalena masculina dos alemães – o puto, o imbecil, o viado, o filho da puta; enfim, é o alvo das pedras. E quando se xinga alguém de “Schwein”, você quer que essa pessoa seja o alvo. Principalmente se acompanhado pelo “blöd”.

Eu estava no meu quarto, deitado no meu colchão (não posso dizer cama pois só tenho colchão), lendo alguma coisa que não conseguia compreender - como de costume. Ouvi o grito da moça seguido de alguma reclamação a que não me dei o trabalho de entender bem. Ela chegara de uma viagem havia meia hora e seu humor não condizia com o de quem volta ao lar. Algo devia ter acontecido. Fui à cozinha e encarei aquela figura pequena. “O que foi?”, perguntei com o jeito de quem calça Havaianas; de cara de nada, respondeu, indiferente, “nada”. E foi para seu quarto.

Já que eu estava na cozinha, fui fazer meu chá preto com leite e uma colher de mel, minha bebida oficial de inverno. Fiquei meio contrariado, pois a estação era outra e até os relógios já tiveram que ser reajustados para o horário de um distante verão. Mas para suco de frutas eu não tinha dinheiro, e chá de frutas só tomaria de noite, antes de dormir. Tive que aceitar minha falta de escolha – e botei a água para ferver. Caneca de meio litro, dois sachês de chá, uma colher de mel (“o mel está acabando, oh, céus...”) e... Cadê o leite? Não estava na geladeira, nem na pia. Abri o lixo, dei uma olhada nas embalagens usadas, cascas de banana, tudo coberto pelas cinzas de cigarro da moça (que já tem o indicador amarelado por fumar cigarros sem filtro feitos à mão). Nada. Mas no café da manhã eu tinha comido banana com cereais e leite. Terceira resignação do dia, aceitei o jogo dos Elementais e fiquei feliz por terem escondido meu leite, ao invés de coisas mais importantes como meu passaporte ou meu pacote de balas mastigáveis comprado numa máquina do metrô. Peguei um pacote novo de leite, pus a água na caneca, preenchi-a com os dois dedos de leite, busquei o livro que estava lendo e sentei à mesa. Em poucos minutos, minha co-locatária veio com meu leite. “Desculpa, pensei que você tivessse tomado o meu leite”. “Ok, kein Problem.” Desvendei a Elemental.

Uma passagem normal da história dos desentendimentos cotidianos, certo? Errado. Mil vezes errado. O problema central desse episódio foi o fato de ela ter gritado “blöder Schwein” numa altura suficiente para que eu ouvisse. De um co-locatário que procura ter o melhor relacionamento possível, que empresta sua câmera, suas camisetas e paga o aluguel adiantado em mais de uma semana para que ela satistaça sua fome consumista, transformei-me em alvo das pedras, em “porco idiota”. Não quero me vitimizar – em certo ponto talvez eu seja um “porco idiota”; além do mais, nunca nutri nenhum sentimento por ela senao que uma oscilação entre a indiferença e o desprezo - o que não faz de mim um cínico, pois nunca demonstrei o contrário. No entanto, nesse relacionamento superficial nunca houve espaço nem razão para demontrar essa indiferença e desprezo; por diplomacia, procurei ser simplesmente um bom co-locatário de agradável convivência. Nunca reclamei da música que ouvia, da decoração, do mal-humor. Mesmo assim, tornei-me um porco-idiota a quatro dias da minha mudança por ela ter achado que tomei seu leite – enquanto que o que aconteceu foi o contrário. Resumindo, tornei-me um porco-idiota por ela ter tomado meu leite. O mundo segue lógicas incompreensíveis. Acho que devo ser muito irracional mesmo.

O problema seguinte é que, num só dia, é necessário encarar um evento ridículo desses e a extenuante tarefa de dormir (e aqui fica um protesto contra o português, pois não quero dizer dormir como “schlafen”, mas sim como “einschlafen”, isto é, passar do estado de vigília para o de sono profundo). Sim, o leite de minha co-locatária – mais tarde revelado como meu – (sem livres interpretaçoes, por favor...) me levou à insônia. A indignação me fez criar um plano cartesiano dos sentimentos entre pessoas e tentar enquadrar nele pessoas e relacionamentos, criando padrões.

Imaginem se todo sentimento que se tem por uma pessoa pudesse ser encontrado em um plano, seguindo uma coordenada x de instinto de vida e de morte e outra y de racionalidade, onde modelos ou utopias se encontram. Em x positivo, segue-se infinitamente até chegar ao sexo, ao gozo; em x negativo, faz-se o mesmo até a morte. Trata-se de uma coordenada dionísica. Em y positivo, segue-se em direção ao céu (ao comunismo, no caso de marxistas, ou no mercado descancarado, no caso de liberais, ou a qualquer outra utopia); em y negativo, segue-se em direção ao inferno (ao capitalismo selvagem, imperialista, no caso de marxistas, ou no comunismo, no caso de liberais, ou qualquer outra “anti-utopia”). Trata-se de uma coordenada apolínea.

Peguemos uma sala de aula onde estudam Joãozinho, Pedrinho, Leninzinho, Jorginho (Andarilho Arbusto), Patricinha e Rosinha (Luxemburgo).

-Joãozinho tem tendências esquerdistas, aprecia o poder, mas não o tem. É melhor amigo de Pedrinho e namorado de Patricinha;
-Pedrinho é artista plástico, ator, músico, cata todas as garotas e tem uma motonete Caloi que atrai a admiração de todos.
-Leninzinho é comunista das antigas e faz de sua ideologia sua vida. É seguidor do partido; embora discuta muito de suas decisões, acata-as por acreditar na necessidade de seu apoio para a classe operária seja libertada das garras do capital. Enquanto perde sua vida em livros, não tem amigos, mas, em discussões em classe de aula, ele é a voz a ser ouvida. Para finalizar, apesar de seu “carisma intelectual”, não tem grande poder no grêmio escolar.
-Jorginho é filho de um político local, passa de ano sem ter que estudar pois a escola tem medo do poder de seu pai, já foi para as baladas em que só maiores de 21 conseguem entrar, comeu várias menininhas, é o bambam do grêmio estudantil e foi eleito o primeiro entre os 10 mais. Para finalizar, ele caga dinheiro.
-Patricinha é o que o nome diz.
-Rosinha é o contrário de Patricinha. Conhecida também como dorme-suja, é uma versão feminina de Leninzinho, com a diferença de que sua voz nunca é ouvida. Talvez seja por, além de comunista, ser uma feminista histérica que deixa os pêlos da perna crescerem.

O sujeito do plano cartesiano é Joãozinho. Ao longo de sua amizade com Pedrinho, a projeção de uma linha do relacionamento sobre esse plano forma uma outra linha reta do zero até um ponto (5,5) (ou melhor, mais provavelmente f(x)=y/2, portanto (14,7), pois numa amizade geralmente mais se quer bem o amigo do que o admira ideologicamente). Num momento em que os dois montam uma barraca ao acampar em Itatiaia, tomando uma cervejinha e comentando a final da Libertadores, a amizade atingiria um ponto (20,7). Se um fosse corinthiano e outro, palmeirense, o ponto instantâneo se inverteria para o (20,-7); no entanto, os dois são são-paulinos, oras.

Já sua relação com o objeto Leninzinho pouco oscila além do ponto 0 do eixo x, enquanto no eixo y ele rapidamente atingiu um 10. No momento de uma discussão num seminário de história em que argumenta o combate ao sionismo fascista, atinge um (0,15).

Com Jorginho, a situação é bem diferente. Pedrinho o odeia, gostaria de matá-lo; beber a mesma cerveja que ele causaria náusea por razão de fluidos corpóreos. Sua voz irrita, desconcentra. Não há como ser indiferente diante de tamanho monte de merda. Ao mesmo tempo, ele é um anti-modelo, referente a tudo que é abominável no capitalismo e no provincianismo político brasileiro. No entanto, tem o poder que Joãozinho gostaria de ter – o que o deixa mais puto. Quando o conheceu, sabia de tudo isso, o que iniciou a linha já no ponto –20 do eixo y. Mesmo assim, não o conhecia e caiu levemente no carisma que geralmente os filhos-da-puta têm – logo, um 1 no eixo x. Em pouco tempo, de +1 sua antipatia chegou a –20 até lentamente estabilizar em –25. É incrível, mas o ódio que Joãozinho nutre por Jorginho Andarilho Arbusto Filho (x=-25) é maior do que a amizade por Pedrinho (max 20) (acho que o gráfico seria de uma função de segundo grau, coisa que já esqueci desde o vestibular, droga!). De qualquer forma, Joãozinho não deixa de admirá-lo, mesmo que o queira matar e que seja um anti-modelo; Joãozinho admira seu poder e seu poder de aproveitar do poder.

A situação mais complicada, no entanto, é a de sua namorada Patricinha. No eixo x, ela se encontra lá na frente, com uns 20, enquanto que, no y, ela está lá embaixo. Isto é, ela é católica, seguidora de Adam Smith e colecionadora de sapatos de bico fino. Não é exatamente fútil; muito inteligente, sabe seguir as linhas do liberalismo de forma a teoricamente construir com o princípio de livre mercado um mundo perfeito. No muito, dá uma esmolinha para os garotos de rua que a incomodam no Pirajá. E mesmo assim, Joãozinho a ama. Um relacionamento (15,-10) é possível.

E chega a Rosinha - outra que causa repulsa no nível dos fluidos corpóreos. Mas é uma figura fiel às suas idéias, e, apesar dos pêlos debaixo do braço e do bigodinho inaceitáveis para alguém com nome de flor, Joãozinho gostaria de ter a mesma capacidade de abstração, a mesma criatividade para propor hipóteses, a mesma voracidade de informação, o mesmo talento para escrever. Eis uma menina (-8, 12)

E passei o resto da noite, até quase quatro horas, procurando pôr em prática o modelo, tentando ver suas falhas e seus desdobramentos - e cheguei à estranha (falta de) conclusão de que ou tenho a forte tendência de gostar/admirar as pessoas com quem convivo ou só convivo com as pessoas de quem eu gosto ou que admiro. Mas a questão central era: a minha co-locatária. Onde ela estava e para onde ela foi depois do evento do “porco-idiota”.

Quando se está na multidão no metrô, há a tendência de todos estarem no ponto (0,0), pois todos somos indiferentes ao próximo. Não nutrimos nenhum afeto ou desafeto que possa situá-lo no eixo x, nem sabemos se é um modelo para encontrar seu y. Já a co-locatária, eu a conhecia há meses, mas nunca pude dizer que houvesse saído do ponto zero. Ela é uma variação do tema nada, que de zero se transforma em 1-1, em 3-4+1, em 8376-100*13+24-2³*10³, em filhote de mula, em pêlo de cobra. Nada, niente, nichts, rien, nheca de pitibiriba, ploft ploft. E mesmo depois do episódio do “porco-idiota”, não passei a desgostar mais dela – muito menos gostar.

E mesmo assim, o episódio incomodou. Muito. Acho que é um problema de identidade, por eu não acrediar ser um “porco-idiota” – mesmo que eu diga que de certa forma eu posso sê-lo.

Resumindo, estou feliz por sair daquele apartamento.