Quinta-feira, 29 de outubro de 2003

(me perdoem se houver alguns erros crassos de português, mas o corretor ortográfico está em italiano, o que tem transformado os meus « entantos » em « intantos ») Aqui vai a continuação do post de ontem. Bom, o tempo aqui não está mais dos melhores, como era de se esperar. Embora Frankfurt seja uma cidade bastante quente para os padrões alemães, não chega a ter um clima mediterrâneo, muito menos tropical. O outono tem sido uma estação bonita, com o céu geralmente limpo e um frio suportável - em poucos dias chegamos a ter temperaturas abaixo de zero. No entanto, de vez em quando vem uma chuva fina chata, que me faz lembrar bastante a Inglaterra. Realmente desagradável. Mas, mesmo assim, não tem sido muito ruim, uma vez que os dias ainda estão relativamente longos.
Conforme eu havia dito a alguns, eu estava procurando um emprego. Já havia achado uma vaga como lavador de pratos num buffet, que umas amigas polonesas me indicaram. Perfeito, fui atrás de toda a burocracia necessária - e como vocês podem imaginar, não é pouca aqui na Alemanha - o que incluía seguro social pago, comprovante médico (para afirmar que eu não portava cólera ou outras doenças transmissíveis) também pago, entre outras chatices. O mais importante, no entanto, era que eu obtivesse um prolongamento do meu visto de permanência. Como a sorte nunca está completamente do meu lado, pelo fato de ter mudado para Offenbach e a minha papelada ainda estar em Frankfurt, o escritório para estrangeiros de Offenbach negou o prolongamento de um ano com permissão de trabalho e só me deu uma autorização de três meses. Basicamente, não posso começar a minha vida de proletário.
Fiquei muito puto, principalmente por ter gasto uma grana considerável para providenciar toda a papelada, mas tive que procurar algum lado positivo - além de não ter mais que passar quatro horas por semana lavando pratos. E encontrei. Vou poder freqüentar umas matérias bastante legais que aconteceriam no horário do meu trabalho. Estou mais pobre, mas talvez eu aprenda mais.
?e um pouco de cinema
Ontem assisti ao filme Dogville. Embora eu compartilhe, sim, um tanto do antiamericanismo de Lars von Trier, ainda não consigo julgar bem o filme. Não me pareceu que o filme parta de uma tese para comprová-la, mas, sim, que seja um protesto antiamericano em diversos pontos, entre eles a ditadura técnica (o que não é um debate novo, principalmente dentro da obra do diretor, um dos fundadores do Dogma 95, mas que sempre é conveniente discutido, interessantemente se comparando com o outro filme que assisti recentemente aqui, o Kill Bill, do Tarantino, puro onanismo de edição), o puritanismo (da sociedade que, na verdade, é a maior produtora e consumidora de mercadoria sexual) e o ?imperialismo?/xenofobia (no caso, o primeiro choque com a alteridade e sua rejeição, e, diante da dependência do outro, seu abuso até o extremo - algo como a mão de obra barata e desqualificada de imigrantes ou o pagamento de dívidas externas).
Até então, concordei com o filme, mesmo que, de tão tenso com o sofrimento caricato quase que católico da personagem estrangeira de Nicole Kidman, eu tenha saído da sala de projeção com dor de cabeça. No intanto (e quem não assistiu ainda ao filme, que não leia o que vou dizer, pois diz respeito ao seu final), não consegui me contentar com sua resolução. Simplesmente o americano, esse ser provinciano e usurpador, não tem solução. Precisa ser eliminado. Não há esperança, não há correção, pois o mundo já o perdoou demais, e cada perdão representou o fortalecimento do americano e de seus valores (a lógica é, se eu digo algo contra você e você se desculpa, o que eu disse está certo, mesmo que sua desculpa se dê com constrangimento pela violência potencial que eu posso). Mas, da mesma forma, o exterminador do americano é um exterminador sem um ideal que o mova senão seu próprio interesse - a máfia, o crime organizado. A questão não é não haver o certo nem o errado, mas sim não haver o certo, mas só o errado. Não há solução. Como já disse, não me pareceu que o filme parta de uma tese para comprová-la, mas sim de uma crítica ácida e pouco construtiva.
Movendo-me apenas pelo meu figado, adorei o filme, adorei ver, nessa microparábola, o oprimido exterminar seu (meu) opressor. Houve identidade, é inegável, principalmente quando é assassinado com especial cuidado o intelectual/político que usa o oprimido para polir seu orgulho e concretizar seu poder sobre ele (basicamente foder a Nicole Kidman). Mas no final da chacina do opressor, o oprimido torna-se automaticamente o opressor, sem a polidez hipócrita de moradores de um vilarejo americano durante a depressao dos anos 30. Ganha o crime organizado e seu terror.
Está bem, acho que entendo. O filme realmente não é uma tese. É uma descrição.