Quinta-feira, 27 de novembro de 2003
Exatamente terceiro mes de Alemanha. Acho que vou comemorar hoje indo à festa da Medicina, que, diga-se de passagem, nao tem a mesma fama que no Brasil.
Só para constar. Tinha que fazer muitas coisas. Digo, muuuitas coisas, mas como nao posso deixar o meu blog órfão, aqui vou eu fazer mais um post. Na verdade, como sempre, não tenho grandes notícias. Minha colega de apartamento já deixou de ser novidade; portanto, não rende mais suítes. Isso não quer dizer, claro, que não valha fazer um comentário ou outro, mas, no momento, o tudo o que tenho em mãos é ela ter participado ontem de um encontro de sadomasoquismo num restaurante perto da faculdade. No entanto, ela não foi montada; segundo ela, foi só para ver as pessoas "dos velhos tempos". Como disse, nada que seja digno de nota.
Terça-feira aconteceu algo que deixei de contar. A greve dos alunos (que greve?) continua, apesar de em momento algum as aulas terem parado (e aí, senhor Meyer Napoleão, eis um paradoxo ou não?). Bom, de alguma forma essa paralização virtual teria que se manifestar em classe de aula. Foi o que aconteceu nessa terça. Algo há de estranho nas terças. Para começar, seria, competindo só com a quinta-feira, o dia mais normal da semana. Não tem o sofrimento da segunda nem a euforia da sexta. Tem a quarta, claro, que parece também não ter nada de mais… mas basta lembrar que ela é o ponto médio da semana, antes da qual fazemos contagem progressiva da semana e depois da qual, regressiva para seu final, que podemos atribuir um valor, digamos, referencial para esse dia. Mas… terça-feira… terça não tem nem caderno semanal na Folha, ao contrário da sua concorrente quinta, que conta com o Folha Equilíbrio e Fovest (não que haja mérito algum para os dois…).
Se na terça da semana passada ocorreu o grande protesto de Wiesbaden, na desta semana a minha aula de História dos Estudos de Relações Internacionais foi transferida do prédio de auditórios para a estação subterrânea Hauptwache, entroncamento de linhas de metrô e de trem metropolitano localizada num dos maiores centros de compras da Alemanha. Foi o que a classe escolheu como forma de protesto sem ter que abrir mão das aulas – e o que se poderia chamar de peleguisse ativista, o típico jeitinho alemão.
Acordei com o ânimo de outono, tão cinzento quanto o dia lá fora. Já não me agradava muito a idéia de ir à facu; assistir aula em pé numa estação de trem, menos ainda. Queria entrar na tal da “comunhão com a natureza”, isto é, continuar deitado dormindo no colchão e só levantar quando o sol também o fizesse (isto é, na primavera, talvez); meu ânimo de árvore desfolhada não me permitia deixar aquele quarto enquanto tudo na minha cabeca ainda fosse neblina. Discutir direito natural e guerra justa em alemão numa estação de metrô barulhenta não me ajudaria a entender muito mais do pouco que aprendo confortavelmente sentado num auditório para cem pessoas, muito menos faria Roland Koch, o vilão das receitas de cortes sociais, mudar seus planos de cobrar taxas para o ensino superior.
Mas eu fui, guerreiro das ruas sujas e cinza de Offenbach, o grande chutador de folhas de plátano sobre as calçadas frankfurteanas e imbatível vencedor de joguinhos de celular em suas heróicas esperas pelos trens S1, S8 ou S9 Wiesbaden über Frankfurt Höchst und Mainz. Valorizando cada minuto que ainda restou em casa, cada minuto que ainda restou esperando o trem, cada minuto que ainda restou para que esse trem chegasse na estação Hauptwache, eu fui. Vestindo a minha superjaqueta-bege-cheirando-ao-jantar-do-dia-anterior e minha calça jeans preferida, com seus joelhos e bolsos rasgados pelo tempo, com barba de duas semanas e cabelo de quatro meses, eu fui, Peri nas gélidas e arianas terras do joelho de porco e da cerveja de trigo.
Chegando lá, vi o professor sozinho, com seu casaco de esqui e maletinha de acadêmico, provando para quem o quisesse que, como um engajado docente em uma aula peripatética para alunos revolucionários, não se preocupava lá muito com sua imagem. Ninguém estava por perto. Fiz que não vi, dei uma volta, esperei uns dez minutos andando pela Zeil (o calçadão de Frankfurt) e voltei quando já havia mais gente em volta do professor. Aula começada, descobri que teríamos que fazer um trabalho em grupo.
Não, pensei. É no mínimo torturante fazer algo em grupo numa língua que não se conhece bem, quando os outros são falantes nativos. Sente-se pequeno, burro, um verdadeiro bom selvagem em meio à civilização, que o olha com curiosidade antropológica e desejos científicos, pronto para realizar uma análise antropométrica que comprove o quão realmente humano o serzinho à sua frente é. Fiquei calado – e ainda me senti um aproveitador, desses que se infiltram nos melhores grupos para roubar-lhes o mérito. Péssimo.
Os usuários do metrô olhavam os estudantes com pequena curiosidade, como se fizéssemos uma palestra pública a que não queriam mesmo assistir. Estudantes de arquitetura foram abordados por policiais por obstruirem a passagem de pedestres. O jornal não veio reportar o protesto. Não houve um final da aula, pois, assim que os trabalhos iam sendo feitos, os alunos pegavam o trem de volta para casa. No meio dia, só havia alguns grupos de estudantes com seus infernais xerox nas mãos. Terça-feira. A comida estava ruim no bandeijão; melhor teria sido cozinhar em casa.
Na volta, tinha um jovem mulato ouvindo seu walkman no metrô. Uma velha alemã sentada ao seu lado parecia não ter gostado do volume. Tapou os dois ouvidos com as duas mãos pressionadas pelos dois braços que, de tão arcados, quase davam cotoveladas na cabeça do rapaz. Ele nem percebeu, continuou olhando para o infinito, curtindo sua música – algo que passava numa rádio popular por aqui. O rosto da velha começou a se contorcer, os lábios inferiores se engrossando, formando um bico; os olhos viravam de um lado para o outro, talvez buscando cumplicidade, algum olhar de apoio contra o terrível ouvinte de música. Então sua cabeça, e junto as mãos e braços, passaram a balançar, enquanto balbuciava “zu laut, zu laut!”. O rapaz não piscava, tamanho era seu prazer em ouvir aquile aquele acho que hip hop. Começei a olhar para a senhora com bastante insistência, como se tal cumplicidade fosse minha. Acho que olhou para mim, mas mesmo assim continuou girando sua cabeça, como se o som do fone de ouvido do seu colega de assento ensurdecesse-a. Chegando na minha estação, sai do trem e fiquei diante da janela da senhora. Tive vontade de fazer o sinal de louco para ela, mas não sabia se o gesto era internacional. E o trem foi erbora.
A Romy perguntou por que eu estava tão triste na terça, se era por causa da morte da cadela. Disse que não, mas ela deve ter mesmo assim achado que sim. Não importa, desde que ela tenha se satisfeito com sua justificativa. Mas as coisas melhoraram nos outros dias. A noite de ontem, por exemplo, foi muito boa. Peguei o jornal local de Offenbach para analisar, deixei o rádio ligado e li a noite inteira os classificados pessoais. Boa diversão quando não se quer gastar dinheiro com o cinema.
Terca-feira, 25 de novembro de 2003
Nao, nao tenho nada de novo para escrever. Só tenho o prazer de informar a todos que me dei o trabalho de descobrir como se coloca um link para comentários. Oh, glorioso HaloScan.
Na verdade, sou meio contra isso, pois só leva a comentários rápidos, do tipo "legal, gostei", meio que típico da minha colega de apartamento. Mas tudo bem, tenho que abaixar a crista e me submeter à destrucao da língua gracas à tecnologia. Oh, céus, oh, vida...
Portanto, a partir de agora deixem seus recados para mim, pois serao bem vindos. Como voces já sabem, basta clicar logo abaixo!