Sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004
Despedidas. Já me cansei de despedidas. Uma semana e foi o Bernardo. Outra, o Mauro e o Leonardo. E esta, a última, arre, tantas que nem cabe aqui listar. Três festas de despedida para as polonesas e para o pessoal da Porthstrasse-studentenwohnheim, ida ao aeroporto, à estação de trem, moça chorando, e o tal “ah, se eu ficasse mais um semestre como você”. Resumindo, esse semestre de intercâmbio aqui na Alemanha foi para todos tão bom que ninguém quer realmente voltar para casa. Como já indiquei, assistam ao “Albergue Espanhol” para ter uma idéia de como é bom intercambiar durante a universidade (mas façam, por favor, a regra de três, pois Frankfurt não é Barcelona).
O mais estranho talvez seja mesmo ficar depois de os mais próximos terem ido embora. Minha sorte é ainda estar com a Sue aqui, que já virou sem que quisesse minha irmãzinha – principalmente no que se refere ao pior de sermos imãos, hehe. Eu e ela somos algum tipo de dupla dinâmica em trapalhadas, um mais avoado e disfuncional que o outro. Temos idéias relativamente próximas, mas temos que reforçar a intransponível distância entre nossas mínimas diferenças, uma vez que tais miudezas são resultado de desdobramentos de lógicas distintas em direção a um mesmo assunto e, em decorrência da similaridade das condições (ou melhor dizer ambiente?) em que nos encontramos, a uma delimitação de opiniões cabíveis. Digamos que fôssemos fazer um estrogonofe econômico – pois por aqui tudo tem que ser econômico. Enquanto estou acostumado a refogar a cebola com o azeite, acrescentar o frango cru (filé mignon é caro demais para estudantes latinoamericanos) e os cogumelos frescos, deixar uns dez minutos cozinhando tanto para ficar frito quanto para dar gosto no refogado todo, jogar o molho de tomate, ferver tudo por um bom tempo para apurar e, finalmente, acrescentar o creme de leite, a Sue, por hipoteticamente poder encarar o frango como algo que deva ser frito, e não cozinhado, privilegiando a textura desses cubinhos em detrimento do sabor geral do molho, e o molho de tomate como o que determinaria posteriormente a vermelhidão do estrogonofe, e não o creme de leite como o que determinaria sua palidez, impossibilitando o reforço do sabor do molho de tomate e conferindo ao prato uma coloração mais roseada do que acastanhada, refogaria as cebolas, acrescentaria o creme de leite, ferveria um pouco e, lentamente, adicionaria o molho de tomate para, finalmente, fritar separadamente os cubinhos de frango em um pouco de azeite e, junto aos champignons em conserva (que blasfêmia culinária!), mergulhá-los no molho roseado. No prato, poucos poderiam notar grande diferença, mas o orgulho culinário de um manchar-se-ia no caso da execução do método concorrente.
E eis que terminei um período numa estrutura quase alemã. Mas isso não vem ao caso.
sol fá# sol fá# sol lá sol, do do do do si do ré...
É carnaval, e, sem frevo, sem marchinha, os bárbaros ostrogodos se fantasiam de coelhos cor-de-rosa, saco de supermercado e joaninha, vão às ruas de Colônia e Mainz tomar cerveja, são acertados por quilos de docinhos jogados do alto dos carros alegóricos tripulados por homens de corte com suas perucas clássicas brancas, e terminam seu dia dentro do trem para casa, bêbados, explorando em urros bélicos todo seu cancioneiro.
Mas antes de começar esse período de exceção, que não é tão excepcional por aqui como no Brasil, chegou neste assentamento bárbaro meu mui nhambiquara colega tupinambá Napoleão, já atingido pelo processo civilizatório no Quartier Latin, junto com a ainda selvagem Cunhã das terras de Piratininga, Luiza Petroll, a Czarina. Tempos divertidíssimos, tempos ecanos.
Como não poderia deixar de ser com três ecanos perdidos em solo bárbaro, em quatro dias atualizamos nossas fofocas sobre a classe, especulamos sobre nosso futuro no Jornal do Campus, que faremos com a turma dos nossos ex-bixos, planejamos projetos secretíssimos através dos quais esperamos conquistar o mundo, esvaziamos nosso repertório de filmes atuais, de críticas francoforteanas, e acabamos, se não me engano, com oito garrafas de vinho – deveras modesto para três ecanos em quatro dias, não se tivesse que se incluirem cerveja, vinho quente e o francofortemente típico Apfelwein, que tomamos numa concorridíssima jam session num porão próximo à antiga ópera de Frankfurt. Anyway, minha garrafa de absinto comprada em Praga ainda permanece intocada, esperando que eu volte ao Brasil para servi-la a minha cara mamãe.
Mas, como já disse, também viajou para cá a Czarina Luíza Petroll, a cara senhora feudal feana pecuarista. Em meio a esses estranhíssimos seres ecanos, que fazem questão de perder tempo diante de um quadro de Monet para criar em cima dele uma narrativa anticapitalista absolutamente nonsense, uma feana feudal pecuarista utilitarista era a companhia mais inusitada. E foi ela que deu o maior tempero irônico desses tempos engraçados, com sua postura individualista pró-capital de feana estagiária no Citibank diante de três que cantariam “um outro mundo é possível”. Pois bem, esse foi seu lado feano; além dele, havia ainda o pecuarista latifundiário, que me ensinou, enquanto eu vegetarianamente comia um macarrão com molho de amendoim, a diferença entre o gado europeu e o zebu, o primeiro de gordura entremeada, e o segundo, de gordura localizada. Aí estava a explicação por que a carne brasileira era mais dura. Eis que estava diante de uma revelação.
Anyway, sei que estou divagando. Voltando ao que, de acordo com o subtítulo, deveria escrever. No sábado, fomos eu, a Sue, o Napoleão e a Luíza a Colônia, cidade onde acontece o maior carnaval da Alemanha. Chegamos cedo e tivemos que ir embora antes que começassem os desfiles. Não faz mal, deu assim mesmo para nos divertimos com a apresentação das mal-acabadas cheers leader do time de futebol da cidade, que tinham corpo de Letícia Spiller, a paquita, e rosto de Rogéria, a travesti. O clima de carnaval tomou conta dos três (menos de mim) de tal forma que tiveram que comprar chapeuzinhos de bobo da corte, um jeito improvisado para se misturarem entre os outros foliões vestidos das fantasias mais engraçadas possível.
Sábado passou com mais uma festa de despedida de intercambistas; domingo logo já estava ao fim e, quando já sentia que os dois moravam há tempos em Frankfurt, tiveram que pegar o ônibus de volta a Paris. Mais despedidas.
E mais novidades. Consegui um apartamento na moradia estudantil; logo no 1° de abril já mudarei. Novo semestre, novos colegas, nova moradia. Mais uma moradia. Quantas moradias! Dos 17 aos 21 anos já morei num alojamento em Winchester, numa casa em West Yorkshire, na casa dos meus pais em São José dos Campos, numa república em São Paulo, em outra república em São Paulo, num apartamento próximo à estação central de Frankfurt, num outro em Offenbach e, agora, na versão francoforteana do Crusp. Às vezes sinto uma tremenda falta de raízes, outras, acho que, fora a dor de cabeça com burocracias e os custos de mudança, poucas são as desvantagens de ser um ermitão. Quando voltar a São Paulo, chegarei na minha república já bastante alterada; uma colega se mudou e um novo membro deverá chegar. Voltarei a dividir um quarto de menos de 9 metros quadrados com minha colega Virgínia; voltarei a dormir numa colchonete, a ter meu próprio computador, a dividir um banheiro com mais quatro pessoas, a ter com quem conversar sobre ética na publicidade até as três horas da manhã. É uma loucura pensar como a vida muda ao mudar de apartamento.
E as novidades não acabam. A adorabilíssima empresa aviária KLM preparou uma surpresa surpreendentemente surpreendente: todos os lugares em vôos para São Paulo na minha categoria até dia 21 de agosto estão esgotados, o que significa que eu, ao invés do último dia de Julho, voltarei para casa lá pelo dia não-sei-qual. O que, por sua vez, significa que perderei três semanas de aula. Bom, o que fazer? Ficar puto? De que adianta? Só me resta viajar, hehe.

Ah, novas fotos em http://frankfurt.archigroup.cz/foto/set3/index.htm. Chequem. Ah, sim. Esses somos os brasileiros pelados na neve na República Tcheca. Repito, chequem.