Quinta-feira, 25 de março de 2004
Atualizei minhs fotos. Clique no botao de imagens acima e navegue pelo menu para dar uma olhada. O que hßa de novo está em "Bélgica", "Alemanha", "Frankfurt" e "República Tcheca".
Segunda-feira, 22 de março de 2004
Existem certas coisas que comprovam a falta de ocupação de uma pessoa (uma pessoa= eu, Maurício Horta). Surfando um pouco pela internet, dei uma olhada no blog interessantíssimo da Gigi K, amiga do meu caro amigo Napoleão, que pouco mais conheço que de vista. Ela propunha o seguinte exercício de composição de poemas: a partir de uma lista de mais ou menos 90 palavras que poderiam repetir-se em um limite determinado, deveria escrever-se um poema de métrica e rima livres. Passei mais de uma hora para resolver o quebra-cabeças que resultou num dos textos mais desprezíveis que já escrevi. O pior foi ter que usar palavras como “rosa, lírio, demente, brilho, ardente”. A única solução que achei foram a pornografia e o chauvinismo. Mas, de qualquer forma, o exercício é bom.
A lista é a seguinte:
| a (9) | encerra | pena |
| alva (2) | enquanto | pintam |
| amante | és (4) | poeta |
| amar | eu (2) | predileta |
| anjo | face | prende |
| arcanjos | fios
| qualquer |
| arde | fosses | que (2) |
| ardente | fria | quem |
| assim | gelo | refletindo
|
| boca | graça | rosa (3) |
| bonita | imita | sabe |
| breve | leve | sabes |
| brilho | licença | se (2) |
| cabelo | lírio (2) | sempre |
| clara (8) | mais (3) | sequer |
| comigo | mas (5) | seu |
| cor (6) | me | sorriso (2) |
| dá | mesmo | talvez (2) |
| da (8) | meu | tanto |
| de (2) | mimosa | te (2) |
| delírio (2) | morena (5) | tem |
| demente | mulher (2) | teria |
| dia | nada (2) | terra |
| digo | não (2) | teu (3) |
| do (4) | nem (2) | tu |
| dos | neve (2) | tua |
| é (10) | no | um |
| em | nos | vês |
| encantos | o(3) | vou |
Os números em parênteses é o limite de vezes que se pode repetir uma palavra. As que não têm parênteses não podem ser repetidas. Não se pode usar nada fora da lista, mas também não é necessário usar todas essas palavras.
E o filhote, meu patinho feio, segue horrivelmente abaixo:
no delírio demente
encerra ardente meu lírio
em tua rosa de neve
(rosa de gelo,
nem brilho nem graca
meu sorriso é de pena
é licenca, nao é nada)
comigo és tu a que dá,
que arde tanto enquanto
na boca o lírio prende
encantos nao te pintam
nem o brilho da alva cor
mas me sabes teu amante,
sempre a rosa predileta
Há poucas coisas que me interessam menos do que poesia, e me irrita bastante quando alguém diz que tenho alguma veia poética. Não leio (quase) nada que não tenha pontuação; gosto de um mundo com vírgulas, dois-pontos e pontos finais. Métrica são amarras e rima, busca desnecessária de coincidências. Mesmo asim, até que foi divertido o joguinho acima.
Detalhes bestas da vida francoforteana na primavera
-Hoje havia um moço lavando os pés na pia do banheiro da faculdade.
-Estão reformando as sacadas do prédio onde ainda moro. Resultado, trabalhadores passando pela janela às sete da manhã, enquanto eu durmo sem roupa. Minha colega de apartamento se irritou mais do que eu com as obras.
-Estou num momento de incondicional paixão por pimentões, legumes que até então não me interessavam. Com eles tenho cozinhado devotadamente meu refogadão estudantil diário.
-“Interesting Times” andam confundindo a minha cabeça.
-Detalhe, Eric Hobsbawn deveria chamar-se Eric Obstbaum (Érico Árvore Frutífera); no entanto, um cartório inglês adicionou um inexplicável “H” no nome do pai (portanto Hobsbaum) além de suprimir o “t”. Em Alexandria, quando chegou a vez do pequeno Eric ser registrado, um egípcio não sentiu muita simpatia com a letra “u” e a transformou em “w” (portanto, Hobsbawn). Fico imaginando por que eu me chamo Horta.
-Depois do jogo poético e da troca de nomes, pensei o que poderia acontecer com o Horta se cartórios fossem menos generosos em São Paulo. Horta. Corta, Morta, Porta, Torta, Otta, Bota, Cota, Jota, Nota, Quota, Rota, Vota, Xota, e variantes. Ótimas para escrever notícias jornalísticas:
"Horta mata Marta, Rota mata Horta"
Horta vota Marta; Marta volta torta, volta pata, volta rata, volta chata. Horta corta Marta, cata Marta, bota Marta morta. Farta, Rota mata Horta. Corta.
-Mas nada aconteceu pois o nome é simples. O que dizer, no entanto, de Miyauchi, com esse “iy” impronunciável? O mais comum é o tradicional “Miânchi”, seguido de “Miayuchi”, “Michauchi”, “Mi...mi...mi... Horta”. Mas o melhor foi a incapacidade da minha irmã de escrever seu próprio sobrenome: “Mixauaxi”. São os custos do multiculturalismo. Mas isso já não tem nada a ver com a primavera.
-Moradores de rua aproveitaram o início da primavera para estenderem seus colchões diante das vitrines do calçadão francoforteano. Eram quatro horas da tarde. Um moço deitado sob suas cobertas deixava o braço estendido segurando um copo do Starbuck’s Café em direção aos pedestres. Quarto dia de tempo agradável. Para meu estranhamento, as pessoas sorriam. Talvez estivessem também mais generosas. Um casal deixou uma moeda no copo do moço. Ele o inclinou um pouco, sem se dar o extenuante trabalho de flexionar o cotovelo, viu quanto devia ter ganhado, e o pôs de novo na vertical.
-No calçadão sempre há um grupo de punks. Não exatamente simpáticos, mas também longe de anti-sociais (na verdade, o grupo parece ser unido pelo mais sincero amor fraternal), continuavam com suas garrafas de cerveja e urros ostrogodos. Mas, dessa vez, estavam com um aparelho de som tocando Rhapsody. Muito estranho, pois era a primeira vez que via punks ouvindo heavy melódico (ou qualquer que seja a definição do som dessa banda). Para mim, Rhapsody era o som que jovens brasileiros de classe-média com certo talento (ou persistência) musical ouviam até se darem conta de que Jazz, Blues ou música clássica têm muito mais espaço para improvisação, feeling e virtuosismo do que fórmulas repetidas e repetitivas de orquestradores de música cinematográfica e estupradores vocais e instrumentais.
-Desde a última vez que fui ao Aeroporto de Frankfurt, isto é, quando eu e a Sue despedimo-nos do feano Felipe, um arcodeonista tem tocado na linha de trem que pego para sair do fim-de-mundo offenbachiano em direção a Frankfurt. Música ao vivo na cidade é um dos pontos altos de se morar por aqui. E, na verdade, não precisa ser Frankfurt, nem Munique, nem Paris, nem Praga, nem Londres; flaneurs portenhos têm trilhas sonoras bachianas ou milongueiras para suas caminhadas, assim como os domingos paulistanos na Praça da Sé também têm seus espertíssimos repentistas. Mas, sejamos realistas, as ruas centrais de São Paulo são tomadas mais por auto-faltantes estridentes tocando CDs sertanejos ou anunciando descontos dos conjuntos de armário de cozinha do que por música ao vivo – e, nesse ponto, fico com Frankfurt.
Nem todos os músicos de rua daqui são marcantes por seu talento. Há, no Natal, grupos de estudantes de música iniciantes que tocam no metrô Hauptwache para arrecadar dinheiro para instituiçoes de caridade. Fiz o mesmo quando estudava música na Inglaterra. A composição desses grupos dá-se puramente pelo acaso, isto é, depende de quantos estudantes de cada instrumento há numa classe. Daí as formações monstruosas de grupos com cinco violinos, dos trombones, uma trompa, uma tuba, dois clarinetes e um fagote. Acontece de os cinco violinistas serem tímidos e não conseguirem impor a linha melódica principal – leve-se em conta que, nervosos, não conseguem acertar nenhuma nota, e tentam resolver tudo forcando um tremulo que não existe -, o trompista acreditar sua parte ser a mais importante da peça (o que definitivamente não é), os trombonistas não acertarem a altura da vara, e assim por diante. Não é de se esperar que a partir disso se tenha a mais harmoniosa orquestração do mundo – principalmente pela desagradável reverberação do som da tuba dentro de uma estação de metrô. Mas é natal, são nossas crianças e é por uma boa causa. Deus os abençoe.
Há também, no calçadão francoforteano, a deficiente física que toca com uma vara presa à boca um tecladinho Cassio com acompanhamento automático. Geralmente as pessoas ficam mais espantadas do que sensibilizadas com o meio desesperado pelo qual essa senhora procura ganhar seus centavos de euro. Ela acaba recebendo menos moedinhas do que as crianças louras da estação.
Continuando com as desgraças pessoais ou sociais que rondam o mundo musical, há os grupos de canto e violão do Exército da Salvação, que conheci nas telas de cinema finlandês ainda em São Paulo e só fui encontrar pessoalmente na estação Hauptwache. Algo como a projeção para a terceira idade dos grupos musicais da Renovação Carismática. Dá para perceber uma honesta tentativa de tocar os passantes com sua causa. Com a música, não conseguem.
Há ainda alguns que não tocam por uma causa nem devido a sua invalidez; com algumas exceções, esses são músicos incríveis. O instrumento mais comum é o acordeon. Uma das peças mais tocadas é a Toccata e Fuga em Ré menor de J.S.Bach, mas o que realmente domina são peças folclóricas do Leste Europeu. Toda vez que vejo algum (algum bom, pois há aqueles que se limitam ao Tema de Lara, e não há nada nesse mundo que me faça ter simpatia pela trilha sonora de Doutor Jivago) fico imaginando que vida ele deve ter levado. O Leste Europeu preparou uma quantidade incrível de bons músicos; há aqueles muitos que emigraram e não encontraram as melhores condições de se desenvolverem musicalmente no país em que chegaram. Os pedestres da Europa podem agradecê-los.
Mas chega a hora daquele arcodeonista do trem entre Offenbach e Wiesbaden, que encontro pelo menos uma vez por semana. Não sei que estilo de música ele toca, só sei que é de três tempos, com aquela melodia triste em tonalidade menor que soa tão eslava que posso imaginar Nastenkas e Sashas dançando em pares com seus rostos rosados pela neve. Por ignorância, chamarei de valsinha. Pois o trem pára, o acordeonista entra junto com um homem mais jovem, toca essa valsinha melodiosa andando pelo vagão sem paixão alguma, como se rodasse um realejo, terminando com uma série de tercinas repetidas mecanicamente (fá mi ré fá mi ré fá mi ré, mi ré do mi ré do mi ré do, ré do si ré do si ré do si, do, ré, mi... e de novo). O jovem que o acompanha traz um copo de papelão como chocalho nos segundo e terceiro tempos, onde as pessoas deveriam depositar sua contribuição por ter colorido o dia com música. Assim que termina a breve valsa, o trem já está na estação seguinte. Ninguém deu nenhum centavo.
Todo dia, a mesma música, o mesmo “um dois três” valsante acompanhado pelo tcha-tcha das moedinhas. Todo dia, dois minutos de música sem paixão entre duas estações, em cada vagão de um trêm que se perde em metros. Até que, em vez de um jovem, vem uma jovem chacoalhar o copinho de moedas. Umas cinco contribuições. A mesma música, a mesma falta de vontade nas dedilhadas. Mas um sorriso de popstar seduz os mal-humorados usuários da S-Bahn.
Mas já era primavera.