Segunda-feira, 24 de novembro de 2003
A Folha Online teve a coragem de comprar da EFE e colocar na página inicial do UOL a matéria sobre a morte do único gorila albino do mundo. „'Floco de Neve', nome com o qual foi batizado pelos americanos e que os espanhóis conservaram, tinha cerca de 40 anos, media 1,63 metro e pesava 180 quilos“. Aparentemente, nada de interessante está acontecendo no mundo, fora a morte do pequeno „Floco de Neve“ e a deposicao do ex-presidente da Geórgia. Esse caso (nao o do georgiano, mas o do gorila) me fez lembrar da minha cadela Trilha, que morreu sacrificada na semana passada.
Falar da cadela morta nao é coisa nova; na verdade, é amuleta de cronista que nao tem muito mais o que escrever. Ou melhor, que tem o que escrever, mas, como escrever parece ser o exercício de fazer montes do nada – e nada mais nada do que a morte de uma cachorra velha –, quanto mais de nada houver para falar, mais se poderá escrever. Há aqueles complicadíssimos filósofos que escrevem sobre o nada, os cronistas, que escrevem sobre nada e os contistas e romancistas, que escrevem do nada. A Trilha virou nada e sobre ela que vou escrever.
Em 1995 morreu aos 13 anos Mila, a cadela do Carlos Heitor Cony. Enquanto agonizava do cancer, dava inspiracao para seu dono voltar à literatura com „Quase Memória“. Leitores enviaram suas centenas de cartas para o cronista, tanto para dar seus pesames pela morte da cadela quanto para elogiar seu texto melancólico de reencontro do Cony-pai, Cony-filho. Mila tinha um amor simples e desinteressado por Cony; um amor „tao devotado e incondicional“ que ele diz nunca tinha visto em olhos humanos.
Nao sei quantos anos a Tilha tinha quando morreu; talvez uns 14, mas vou supor que também fossem 13, só para fazer o paralelo. Um desinteresse devotado e incondicional em seu latido ardido e um mal-humor pungente de velha rabugenta. Gostava da minha mae, que lhe dava comida, e do meu pai, que a levava para passear. Também da minha irma, tenho que admitir, pois foi quem lhe ajudou a parir onze filhotes no dia 01 de fevereiro de 1993. Mas de mim? Sua filha, a Yukari, talvez sim, mas porque gostava de todos que dessem um mínimo de atencao, cachorra aparecida e carente. Mas a Trilha me ignorava e a culpa era minha. Algumas vezes, dei banho nela, o que nao me dava muito de seu apreco. Outras, limpei seu coco no quintal, mas isso também nao lhe trazia maiores gratidoes.
Devo admitir que já procurei provocá-la, tirando-lhe a comida, jogando-lhe água na cara, fazendo barulho com a corrente só para dar-lhe vontade de passear (e, claro, frustrar suas expectativas). Nao era por menos que ela nao me adorava.
Eu também nao tinha muito amor por ela. Quantas vezes fui acordado no meio da noite pelos seus latidos. Eu fazia um loooongo „shhhhh“, desses que de tao fortes deixam a gente tonto, mas nao adiantava; entao eu gritava seu nome seguido de um „cala a boca e vai pro quintal!“, mas nao adiantava. Entao tapava os ouvidos com o travesseiro e, com raiva, tentava dormir. Nao conseguia, até que a cachorra parasse de latir. Bastava cair no sono de novo, e de novo ela latia. Receita perfeita para uma um mal-humor até a hora do almoco.
E ela morreu. Quando recebi a notícia, foi como se lesse nos jornais „o presidente da Geórgia é deposto“. Nao deixei de gastar alguns minutinhos pensando no que isso significava, mas logo cheguei à conclusao de que nao muito e fui de volta à cozinha fazer meu chá preto com mel e leite.
Pelo que minha mae me disse, a Yukari, a filha, sentiu um pouco a falta da mae no início, mas logo percebeu ter virado a dona do quintal e ficou é muito da feliz. Até engordou, pois nao tinha mais a tirana da Trilha para roubar-lhe comida.
Trilha. Nao tao importante quanto o gorila albino que morreu em Barcelona nem tao amada quanto Mila, a cachorra do Cony. Entrou no veterinário viva e saiu nada. Quao valorosa é a vida de alguns.
Ah, já ia me esquecendo...
Demorei, mas assisti, finalmente, ao „Laranja Mecanica“. Adorei. De longe, o melhor filme do Kubrik. Na noite seguinte sonhei com um país comunista cujo apoio popular estava em decadencia pela repressao do uso de drogas. Em contraposicao, narcotraficantes, apoiados pelos meios de comunicacao, fortaleciam-se diante de uma populacao viciada e reprimida. Quando estavam preparados para dar um Golpe de Estado e criar o que seria o primeiro Estado governado pelo narcotráfico, o governo liberou irrestritamente o uso, para a felicidade geral da nacao. O comércio de narcóticos ficou nas maos de multinacionais, sob a fiscalizacao do Estado. O narcotráfico transformou-se em simples mercado informal, que nao tinha competencia administrativa para se manter.
Nao dormi o suficiente para saber os desdobramentos da oposicao entre governo e traficantes, governo comunista e multinacionais capitalistas, traficantes e multinacionais. Também nao sei bem qual é a ligacao com o filme, mas deve ter alguma.
E onde é que foi parar a mídia?