Terca-feira, 23 de setembro de 2003

Sabe quando a gente "vai seco"? Pois bem, nunca fui seco tantas vezes na minha vida como aqui na Alemanha. Tudo na verdade gira entorno na minha novela já mensal de sem-teto - eis que surge aqui e agora mais uma idéia que poderei vender para o compadre Benedito Rui Barbosa. Creio que ficará mais interessante do que aquela tal de Luana Berdinazzi sem-terra. Imaginem só. O cliché do tema social ainda estará lá, mas num ambiente urbano, o que larga para trás essa mania de brasileiro reconstruir um ambiente arcaico que, para mim, já está lá prá trás da lavoura. E o sem-teto casa-se com uma alema rica, que, no entanto, é árqui-rival (???) de sua mae desconhecida. Tudo, naturalmente, acabaria com as duas ursas, quero dizer, alemas, felizes, compartilhando o mesmo salsichao numa bela tarde estival nas ruas da cosmopolita Frankfurt.
Pois bem. E de novo pois bem. Na última sexta-feira surgiu-me um apartamento maravilhoso para alugar. Daria um pouco menos do que ?300,00 por mes. 34m² com uma sacada enorme. Fiquei de assinar o contrato no dia seguinte com o agente imobiliário. Senti perder todo o peso nas costas que as horas diárias de procura por apartamento estavam me pressionando. Eu e a Sue já estávamos discutindo como imobiliaríamos o lugar - naturalmente com restos de lixo de mudanca que encontramos quase todo dia nas calcadas frankfurteanas - até que nos encontramos com o senhor imobiliário. Qual seria entao a notícia? O proprietário disse que nao alugaria o apartamento por menos de tres anos. Parecia que o mundo de repente caíra sobre nossos ombros. Sinceramente, devemos já ter telefonado para uns cem apartamentos em um período de vinte e cinco dias para nao conseguirmos achar nada. Nao, meus caros, isso nao é nem um pouco divertido, principalmente quando tudo deve ser negociado em alemao, essa língua de bárbaros.
Tenho muito para escrever, mas nao tenho muito tempo (fico sempre ocupado em procurar apartamentos). Vou dar algumas impressoes do que é Frankfurt. Estou hospedado por enquanto na regiao da Hauptbahnhof - a estacao central frankfurteana, uma das maiores da Europa. Saindo por uma de suas escadas rolantes desativadas (cobertas por uma quantidade pouco saudável de bitucas de cigarro), encontramos um grupo de pessoas jogadas na escada ao lado. Uma parece ser prostituta, pela naturalidade com que cruza as escadas com suas pernas peladas. O resto, uns junkies. Quando passamos por eles, vemos sua euforia - ou desespero - enquanto prepara seu cachimbinho de crack. Do lado de fora, outros grupos de junkies. Muito bem. Vamos dar uma olhada naquilo que dá fama a Frankfurt: os bancos. Atravessamos a Kaiserstraße, passando por uma série de mega-sex-shops, bordéis bem comportados e lojinhas de sorvete italiano até chegar na sede do Banco Central Europeu. Na frente dele, e se estendendo por quase um quilometro ao longo dos prédios pós-modernos de metros às centenas, está um parque bonito, onde estátuas de Goethe e Schiller dao de primeiro plano para os Commerz Bank da vida. Que felicidade caminhar no meio de tanto dinheiro escondido pelos espelhos dos prédios - que, num dia de céu limpo desaparecem numa virtualidade quase financeira. Que felicidade sentar nos banquinhos de madeira em frente a mesas que servem de tabuleiro de xadrez e notar que no chao montinhos de embalagens de seringa descartável se misturam a saches de vitamina C e às folhas caídas de outono. Que idílico prazer encontrar atrás da estátua duma mulher deitada uma colher meio suja com os restos de heroína preparada na noite anterior.
Bom, vou ficando por enquanto por aqui, pois tenho que correr, que já já acaba o meu crédito aqui.