Sexta-feira, 23 de janeiro de 2004
Depois de duas semanas sem me manifestar, é de se esperar que venha com novidades aos montes. Bom, novidades eu tenho, mas tempo para contá-las, não; portanto, não será possível escrever dentro das próximas três ou quatro semanas nada lá muito aprofundado. Mesmo assim, lá vou eu passar um resumão para minha mãe não ficar preocupada pensando “oh, o que esse menino anda fazendo”. As a matter of fact, tenho me alimentado bem, não passo frio e o risco de entrar para as páginas policiais do Bild Zeitung como Maurício H., 21 anos, drogado e prostituído continuam razoavelmente baixas. Talvez ainda continue no alerta verde dentro do esquema de cinco cores utilizado pelo governo americano para medir o risco de ataques terroristas. Mas, detalhe, valesse o esquema antes do 11 de setembro, o atentado teria ocorrido num dia de alerta verde.
Aqui vai uma listinha essencial do que aconteceu e que será relatado logo abaixo com maior profundidade. Eis uma tecnicazinha para ver se os convenço a ler o post até o final. Como um bom rebelde contra as normas jornalísticas, não seguirei numa lógica de pirâmide invertida.
-Kaiser falava em francês com gatos porque só cavalos entendiam alemão;
-“Presidente” Bush invade sonhos em luta contra terrorismo;
-La Bamba norueguesa precede roubo em bairro da luz vermelha;
-defuntos fazem sucesso em galeria de arte;
-na cozinha, dançando com a colher de pau;
mais reclamações diversas – e eternas – sobre a língua alemã
A capacidade de ler em alemão tem se desenvolvido em progressão aritimética, enquanto que as leituras obrigatórias, em geométrica. Eis o neomaltusianismo acadêmico na versão intercambista. Bom, versão intercambista, atualização germâmica (imagino que meu caro colega Napoleão deva encontrar, nesse sentido, barreiras diferentes em Paris).
Muito estranho; tamanha é a minha lendidão para ler que, no final, sinto que meu cérebro diminui. Esse é um fenômeno comentado por não poucos intercambistas brasileiros. A primeira pessoa a dizê-lo foi a Harumi, irmã da Sue. Ainda no início do meu intercâmbio, quando era verão e eu ainda procurava um apartamento, depois de ela ficar um semestre em Zaragoza e um tempinho em Toulouse, deu uma passada em Frankfurt para ver a irmã. Comentou que sentia seu cérebro diminuindo em uma de nossas conversas de cozinha (imaginem uma cozinha do tamanho de um corredor, com cartões de prostitutas londrinas pendurados na entrada, num apartamento bem antigo próximo à ferroviária central, região de bordéis e tráfico de drogas, onde junkies recebem seringas descartáveis a serem utilizadas nas escadarias do metrô). Há uma semana, o Felipe (feano que mora na mesma rua lá do Sumarezinho, quase Vila Madalena) disse o mesmo. Comparando à vida louca que temos em São Paulo, a Alemanha têm sido férias prolongadas. Gostaria até de sentir um pouco mais de pressão, pois nessa calmaria acabo sentindo-me um tanto improdutivo. Mas não dá. A carga de leitura daqui não seria tão assustadora assim, mas a língua não ajuda. Ler mais de cinco páginas de texto não muito complexo por hora já é impossível (exceção aos romances, que já leio quase tão rápido quanto em inglês). Quando cae em minhas mãos Kant, então, só sobra uma saída. Dizer “dane-se” e dormir.
seguranças turcos e presidente americano numas noites de inverno
E meus sonhos continuam estranhos. O incidente na discoteca em que fui barrado não poderia deixar de ser processado nas minhas noites de inverno offenbachianas. Imaginem.
Eu era um jovem preso num castelo medieaval onde sempre era inverno, lá na República Tcheca, onde todos falam uma língua do Diabo. Ia todos os dias para um muro em ruínas, único lugar em que dava para ver o abismo que separava minha prisão da liberdade, a Alemanha, terra do chão de pedras molhado. Certo dia, não pude voltar para casa; portanto, tive que dormir na estação de trem do castelo. Nessas horas, o lugar era só um banheiro labiríntico de azulejos amarelados. Não havia mais nada – para que plataformas, halls, trilhos, se os trens só chegariam de manhãzinha? Eu poderia nadar nas piscinas do Cepê, mas, oras, não tinha dinheiro para usar o armário onde guardaria minhas roupas. Só poderia usar o banheiro.
Fui então ao mictório, desabotoei a calça. Antes que conseguisse urinar, os seguranças turcos que não me permitiram entrar na discoteca vieram em minha direção com canivetes. Segurei-os pela lâminas, cortando minha mão. Fugi para uma cabine. Imediatamente estava no muro em ruínas com minha mão dentro dos olhos dos seguranças. Primeiro o tecido não cedia a pressão dos meus dedos, mas em pouco tempo estourei seus globos oculares. Um líquido morno descia pela minha mão enquanto eu revirava os dedos dentro de uma fossa óssea cheia de tecidos dilacerados. Não via nada senão a vermelhidão de carnes que meus dedos viriam ao descarnar o interior da cabeça dos seguranças. Joguei-os no abismo. E rolavam, e rolavam na neve, deixando manchas de sangue.
Precisava fugir, pois as sirenes da polícia de Frankfurt já soavam. Policiais unformizados de verde passavam de motocicleta por mim sem que me notassem – afinal, como poderiam me enxergar se eu andava agachado? Quando percebi, eu havia atravessado um portal de pedras, e chão já era molhado. Estava na Alemanha e podia andar livremente. Enquanto andava pelas ruas curitibanas (???) encontrei com uma menina.
“Sabe, eu sou muito perigoso. Fugi do castelo e matei vários seguranças”, cochichei tranqüilo.
“Eu também matei muitas pessoas”, respondeu com uma voz “as a matter of fact”.
Mas tudo fazia sentido – o castelo de Loket, na República Tcheca, onde vi pela primeira vez um gato preto lambendo as feridas de um rato morimbundo, o dia em que tive que dormir no chão da estação de trem de Munique (depois da Oktoberfest), o banheiro da estação Konstablerwache, cujo mictório é dividido por bêbados e homossexuais à espera de um alívio anônimo, as sirenes insuportáveis da Alemanha, os paralelepípedos do bairro Sachsenhausen, e, claro, o episódio em que fui barrado no baile. Tudo normal para um sonho. Até que tive um outro.
Estávamos numa mesa comprida de madeira. Éramos vários jovens quase que não mais adolescentes esperando por alguém que se atrasava para chegar. E chegou. O “presidente” (aspas de Michael Moore – “Stupid White Man”) George “keep walking” Bush.
Aqui tem que entrar um parênteses. Que homem é esse cuja burrice (ou suposta burrice) é assunto de editorial de jornal “sério” e revista de crédito? Coloque o nome “Bush” no Google e você verá “George W. Bush or Chimpanzee”, “Recall the Mad Cowboy”, “Bush Lies”, “Boycott Bush”, e assim vai. Esse homem é um homem ou um macaco? Pois bem, segundo o meu sonho, ao contrário de um alcoólatra (cuja primeira tarefa diária seria checar se teria acordado na Casa Branca), drogado, what ever, seria um homem articulado, de fala mansa e argumentação apurada. Assustador, não? Pois é, e assim foi o pesadelo em que me encontrava nessa reunião de jovens cidadãos americanos (eu inclusive) com o presidente, que dava uma aula de relações internacionais, explicando a importância do controle sobre o Iraque como forma não apenas de dar segurança ao abastecimento futuro de petróleo aos EUA como também de estabelecer no protetorado a dependência de empresas americanas de telecomunicação, transporte e energia. A partir dele haveria uma expansão democrática através de intervenções em países em crise política como o Irã, e o mesmo modelo de reconstrução seria implantado. Não haveria dúvida de que a democracia daria às gentes do Oriente Médio uma vida melhor, pois, se implicaria, por um lado, na dependência econômica, por outro, a liberdade individual e o desenvolviemento se concretizariam.
O “presidente” tinha uma argumentação tão lúcida e lógica, tão livre de afirmações morais e retórica barata, que eu não conseguia replicá-lo. Uma guerra justa se justificaria apenas com a ameaça da própria segurança nacional; nesse sentido, ela não o era – não se inventavam mentiras como armas de destruição em massa nem ligações improváveis com organizações “terroristas” que poderiam ameaçar a segurança americana. Então por que interviria? Por que o “presidente” assumia já de antemão que sua postura era imperialista, sim, e que, sendo realista, esse imperialismo seria melhor para o desenvolvimento dos dois lados.
Toda tentativa minha era desfeita como insustentável balela baseada antes num antiamericanismo emocional do que na análise da intervenção dos EUA. Senti-me uma criança birrenta. Sentia que eu tinha razão, mas não conseguia demonstrar por quê. Foi muito ruim. Um pesadelo de verdade. Eu olhava pela janela e começava a tentar me preocupar com qualquer outra coisa – os galhos carecas das árvores, as esquadrias de madeira, sei lá. Mas não adiantava. Naquela situação, eu representava a oposição aos EUA e precisava ser, diante dos outros jovens, todos admiradores do presidente, desarmado. Falando sério, o homem sabia mesmo lidar com a situação. Toda sua atenção era voltada de forma didática a mim, ao invés de eu ser ignorado ou expulso da reunião. Pesadelo, realmente pesadelo.
É claro que a distância entre esse presidente do pesadelo e o “presidente” Bush é enorme. O livro lançado recentemente “The Price of Loyalty” , escrito pelo jornalista Ron Suskind a partir de documentação fornecida pelo antigo secretário do tesouro americano Paul O’Neill, “revela” (como revelar o que já se sabe?) o caubói da Casa Branca como um presidente desinteressado, nada inteligente e manipulado por “forças maiores”, que “conduzia as reuniões de gabinete como um homem cego em uma sala cheia de pessoas surdas” e que se preocupava mais com hambúrgueres do que com discussões.
Hamburgo, a cidade da putaria
Os intercambistas (creio que sem exceção) reclamam até a morte de como Frankfurt é uma cidade sem graça, morta. Depois da viagem a Berlim tive o alívio de saber que isso não é regra aqui na Alemanha. Minha co-locatária vive reclamando daqui e acaba sonhando com sua nova vida em Hamburgo, onde tudo deve ser tão maravilhoso. Tive que ver para crer.
Sete e cinco da manhã do sábado deveríamos nos encontrar os brasileiros e um tcheco, o Lukáš, na estação central de trem de Frankfurt para começarmos uma viagem de final de semana pelo noroeste alemão, a caminho de Hamburgo. Fazer uma viagem de final de semana significa comprar um ”schönes Wochenende-Ticket, que dá direito a até cinco pessoas viajarem um dia inteiro por todos os trens regionais (RE, RB, ME), metropolitanos (S-Bahn) e subterrâneos (U-Bahn) do sistema de transportes da Alemanha. Parece (e é) um ótimo negócio; há, no entanto, um porém: não se podem usar os trens inter-city nem os de alta velocidade. Resultado, a viagem demora muitas, mas muitas horas, com uma série de baldeações. Baldeação não é tão mau negócio, pois dá chance de conhecer as cidades do caminho. No entanto, é, sim, cansativo. É preciso acordar cedo e ter muita disposição. Acontece que...
Bom, noite anterior, coloquei o celular para despertar às seis da manhã do sábado. Deitei e fui ler alguma coisa até que conseguisse dormir – duas da manhã. Acordo com o celular tocando: sete e quinze, a Sue ansiosa, “Horta, onde é que você está? O trem está saindo!”, “Puta merda, não sei, acabei de acordar. Ai, ai, ai, Sue, perdi o trem. Ai, ai. Desencana, já era!”
Muito bem. Perdi a viagem. Cinco minutos, quando eu ainda estava estragado do sono, a Sue telefonou de novo, “Horta, se arruma e vem pra estação; os meninos já foram, a gente dá um jeito de pegar o trem das nove.” Alívio. Corri e encontrei com ela no McDonald’s, onde um grupo de jovens turistas americanos gritavam e peidavam para entreter os comensais.
Acabamos todos nos encontrando na cidade de Hanover, que, assim como Frankfurt, foi quase completamente destruída na Segunda Guerra Mundial e, depois, reconstruída por arquitetos especializados em monstruosas galerias e estacionamentos. É preciso andar muito para fugir das lojas de departamentos Kaufhof e Karlstadt e encontrar algo cuja visita valha a pena. Quando se encontra, dá a hora de pegar o trem. Oh, vida...
Pois bem, chegamos em Hamburgo. Passando pelo cais já tínhamos certeza de que valeu a pena. Muito bonito. Não é possível. Brasileiro tem algo com portos, seja por contaminarnos pela cultura de mar dos portugueses, seja por nós termos nossa própria – uma dos que ficam na saudade dos que vão, outra dos que esperam o que vem do além-mar. Meio besteira para quem morou sempre em São José dos Campos (o Paraíba do Sul é mais um esgoto do que uma hidrovia de nostalgia e esperança). Anyway, sowieso, muito bonito.
Fomos na Reeperbahnstraße procurar um albergue, pois o que havíamos visto antes não permitia a entrada entre as duas e as seis da madrugada. Por que essa rua? A rua Reeperbahn é o coração da vida noturna de Hamburgo, algo que eu só conseguiria comparar com bairros como o Soho de Londres. Nem mesmo em Kreuzberg, em Berlim, vi algo tão agitado. Agitado por agitado, seria muito normal. Ela e suas cercanias fazem também o bairro da luz vermelha de Hamburgo, com uma quantidade assustadora de sex-shops, bordéis, bares de table-dance e até uma imitação do bairro da luz vermelha de Amsterdã, com prostitutas expostas em vitrines com luz negra (imaginem, mulheres, o tédio de ficarem sentadas numa cadeira, semi-nuas, todas na pose, com vários homens passando na frente de vocês, medindo-as).
Quando entramos na rua, pensei logo na Augusta, em São Paulo. De fato há lá suas semelhanças – comida barata, leões de chácara em porta de bordel chamando os homens que passam pela rua para conhecer as meninas, todo aquele ritmo louco de decadência. Mas Reeperbahn é muito maior. É incrivelmente enorme, com ruazinhas transversais que dão prosseguimento à ininterrupta seqüência de clube para cinqüentões, bares com boa música, casas de show de travestis, boteco com bebidas por 99 centavos e lojas de fantasias. Fiquei imaginando como é que em uma cidade de pouco mais de um milhão de habitantes haveria tanto adeptos da “vida desregrada”. Lembrei, no entanto, de que Hamburgo era o segundo maior porto da Europa – e onde há porto, há marinheiros. Já está aí um começo.
Como nós éramos apenas um grupo de estudantes bem regrados, vimos só de longe essa loucura toda e acabamos mesmo passando a noite num irish pub, com bom rock ao vivo. Certo momento, numa pausa, o vocalista e guitarrista veio ao nosso grupo e perguntou de onde éramos. “Brasilien”. “Brasilien? Na ja.. ‘para bailar la bamba...’”. Sim, poderíamos ter terminado a noite sem essa. Perguntamos de onde ele era – Noruega. Espero que não seja uma idéia disseminada em toda esse país que no Brasil as pessoas morem com macacos em sequóias, andem de cipó e dancem “la Bamba” em nossos rituais místicos regados ao chá do Santo Daime. Pois bem, o norueguês voltou para o palco, soltou seu repertório desde “a Hard Day’s Night” até “Country Road, Take me Home”, trocou duas vezes a corda de seu violão, até que, comentou “vejam só, temos gente de todo o mundo aqui... o pessoal da França, da República Tcheca, até do Brasil!”. E começou um meddley. Pois bem, não poderia ser diferente: subiu aquele “ré, mi, fá#, sol” e “la Bamba” já tomou conta da boca de todos. E lá estávamos nós, brasileiros, assumindo como mexicanos nós éramos, cantando a letra toda em espanhol (afinal das contas, espanhol é nossa língua oficial, não é? assim como Buenos Aires é nossa capital, oh, o horror, o horror...). A situação era muito estranha. Num pub irlandês de Hamburgo, um grupo de brasileiros e tchecos ouvindo um vocalista norueguês cantando uma música de uma banda mexicana. Digamos tudo contra a globalização, mas que um momento desses vale, ah, isso vale!
Final da noite, todos quebrados. Chegamos no hotel, um labirinto de corredores. Aquela coisa de pega carteira, confere senha... O diabo, quando tudo o que se quer é deitar na cama e dormir até ser verão. O Felipe estava já na frente. Quando o encontro no corredor, volta meio transtornado. “Roubaram o quarto!”
Fodeu. Éramos seis, cada dois num quarto. O Felipe estava hospedado com o Lukáš no quarto de porta aberta. Dentro, só um guia turístico da Alemanha e uma sacola de loja de departamentos com queijo. O Lukáš chega logo depois. “Scheiß!” Chequei o meu quarto, que dividia com a Sue. Tudo em ordem. O quarto dos outros brasileiros, também tudo ok. O Felipe perdeu passaporte, todos os documentos brasileiros, cartões de crédito, dinheiro e uma câmera digital. O Lukáš, dinheiro, uma câmera digital, o canivete que ganhara da namorada (o melhor presente que já ganhou) e um tripé de seu avô.
Começou a busca. Chamaram a polícia, mas ela não veio (só viria se “alguma coisa houvesse acontecido”). Tensão; os garotos faziam a lista de o que se perdeu para depois repassar para a agência de seguros; assim que o papel ia se preenchendo, mais claro ficava o tamanho da merda. Acharam no fosso do prédio as duas mochilas dos garotos, provavelmente jogadas de uma janela aberta com luz acesa em um dos últimos andares. Objetos recuperados? Desodorante, cueca, um pulôver, um potinho de plástico, os cartões de crédito... Nada de mais. Passaporte, que era importante, já foi.
Talvez o ladrão ainda estivesse no quarto dessa janela suspeita. Fomos o balconista, o Mauro e eu procurá-lo. Bate na porta. Ninguém respondeu. O balconista digitou uma senha, a porta se abriu e ele entrou. Eu estava do lado de fora e a fresta aberta só me permitia ver as paredes azuladas da luz da televisão. E ouvi uma voz lenta e arrastada, sem vida, quase demente, saido do quarto:
“O que aconteceu? ... ... ... eu fiz alguma coisa errada? ... ... ... não paguei o hotel? ... ... ...”
O balconista saiu meio sem graça, olhou para o Mauro com uma cara de resignado e fez um gesto de aplicar injeção. “Uma junkie, ela não fez nada”. O Mauro, que chegou a ver dentro do quarto, contou que era uma mulher só de camiseta, sentada na cama, se expressão, sem reação. Heroína? Não sei...
Fomos ao andar superior. Dois jovens estavam parados no corredor. De repente tudo era suspeito. Se visse uma loira de cabelos muito compridos e roupas mais justas, deveria ser uma das prostitutas expostas nas vitrines da rua da luz vermelha; se fosse muito magro e andasse mal ritimado, um junkie; se fossem jovens com roupas estranhas falando baxo entre si, com gestos rápidos e olhares suspeitos à sua volta, vendedores de drogas – ou ladrões de hotel. O balconista chamou os dois, pediu para mostrarem o comprovante de que eram hóspedes. Eram. Inocentes. Chegando na tal da janela aberta com luz acesa, era o banheiro. Tudo estava absolutamente normal.
Resignados, fomos dormir. No dia seguinte, o grupo teria que se dividir entre os que iriam à delegacia e os que fariam turismo. E assim foi.
agenda mórbida
Sábado que vem sacrificarei uma viagem ao lago de Constança, sul da Alemanha, para ler uns textos que já me cansaram. Compensando a perda, vou me entreter (!!!) com uma revigorante faxina que deixará o apartamento em condições dignas para a recepção, no domingo, de amigos de minha co-locatária.
À noite, irei à exposição ”Körperwelten” (Mundos do Corpo), creio que a mesma que causou um enorme fusuê em Nova York há alguns anos e que acabou sendo proibida pelo então prefeito Rudolph Giuliani. Dizem os organizadores ser, em termos de visitantes (mais de 13 milhões), a exposição de maior sucesso de todos os tempos. O que há de tão interessante e polêmico? Corpos embalsamados como em uma aula de anatomia. Assim como (deturpadamente, claro) mostrado no filme Anatomia (com Franka Potente), as peças foram preparadas através do processo de plastinação, desenvolvido pelo professor Gunther von Hagens, da Universidade de Heidelberg. O método consiste na substituição de fluidos e gordura por polímeros, permitindo que as peças conservem a aparência e o relevo.
Tenho que admitir que meu interesse mesmo é o de aluno que ainda não teve aula de anatomia, e não estou muito preocupado ainda com discussões filosóficas sobre o ser diante do ser não sendo ou daquilo com que o ser é und so weiter. Grandes comentários talvez venham depois – discutindo se aquilo é arte, quais as barreiras éticas na exploração (?) financeira desses corpos (EUR 9,00 até EUR 24,00 pelo ingresso!!!). Quando fui a Londres perdi a oportunidade de assistir à exposição (bom, acredito que fosse a mesma); não é agora que vou perder de novo.
Depois de sacrifícios e defuntaria, vou a uma festa francesa. Nada de mais, pelo menos nada que se compare ao que vai ser, uma semana depois, a última da tradicionalíssima brasilianische Party, com direito a caipirinha e, espero eu, até Beth Carvalho. O grupo de três estudantes da Unifor e o feano voltarão nesse próximo mês para casa, deixando sós a Sue e eu. Para forrar o estômago, planejo fazer uma feijoada – preparar o fígado, sabe?
Saudosismo musical
Ontem, esse clima de final de semestre e de “vão mas não vou” deixou-me no desconforto e nem meu gulash com pão velho me satistez. Era a brasilianice conçando no pé. Acabei revirando os meus CDs para ouvir aqueles que tinha vergonha de tocar em casa. Infalível. Bateu aquela saudade e, quando percebi, estava fazendo de conta que sabia sambar ao som de Beth Carvalho, com direito a cavaquinho e um indecente:
“Iracema, eu sempre dizia,
Cuidado ao atravessar essas ruas,
Eu falava, mas você não escutava não.
Iracema você atravessou na contra mão.
E hoje ela vive la no céu,
E ela vive juntinho de nosso senhor
De lembrança guardo somente,Suas meias e seu sapato,
Iracema eu perdi o seu retrato.
IRACEMA, FALTAVA VINTE DIAS PARA O NOSSO CASAMENTO,
O CHOFER NÃO TEVE CULPA IRACEMA” (Adoniram Barbosa)
Não há desculpas para a decadência do ser de havaianas, ceroula e blusa de lã dançando na cozinha, repetindo para a colher de pau o refrão “chorei de dor porque, Iracema, meu grande amor foi você”.
Mas não achem que só com o brega pelo brega me satisfaço em meus momentos de saudosismo. Eis que, quando a coceira bate, procuro as raízes da música brasileira muito além da velha paulistana e, de Severino Ramos, na voz e sanfona de Luiz Gonzaga, canto e danço um forró:
Eu quero um ovo de codorna pra comer
O meu problema ele tem que resolver
Eu tô madurão, passei da flor da idade
Mas ainda tenho alguma mocidade,
Vou cuidar de mim pra não acontecer
Vou comprar ovo de codorna pra comer
Forró for all, baião para mim. Forró é só forró, e forró é difícil demais para mim; tem que estar junto e saber levar a moça na dança. Eu caio much ratherno baião, que é muito mais groovy, muito mais “tomjobinzável”. Continuando, claro, com o Luiz Gonzaga, que saído do sertão me parece mais paulistano do que o Adoniram. Luiz Gonzaga me faz sentir no centro, na praça da Sé ou perto da estação da Luz, cheirando a churrasquinho de gato vendido ao lado das barracas de garrafadas. Já o Adoniram, um passado que não vivi.
Aqui tenho que inserir um dos meus planos (não conto todos porque me fariam passar por louco). Vou mudar para o centro de São Paulo, morar numa kitchenette dos últimos andares do Copan, junto a cinco mil velhinhas aposentadas, atores, estudantes, mágicos, prostitutas e travestis. Acordar todo dia olhando São Paulo de cima e dormir ao som de culto evangélico. Pois então, talvez no meio dessa loucura de gentes sinta-me muito mais em São Paulo do que no Sumarezinho, que amo, vocês sabem, mas não de paixão. Lá consigo dormir, mas a calmaria é demais.