Segunda-feira, 22 de junho de 2004
Fim do trabalho
(e já antes vou pedindo: desculpem-me os erros de português...)
Eram 23 horas da véspera da Páscoa quando desatei pela primeira vez um nó de gravata depois de um dia de trabalho. Latinha de cerveja numa mão, eu sentado na parada de bonde diante da estação central de Frankfurt, ainda vestindo meu uniforme de garçom. Pressionava a bolha nascida num dedo do pé contra o outro, incitando a dor até não evitar uma leve contraída nos lábios – e sentia prazer dessa marca do trabalho em meus sentidos. E logo o álcool destensionava os músculos até deixar que o peso do meu corpo acomodásse-o no banco. Sentia o pequeno orgulho proletário de dever cumprido, de dizer “eita, lá se foi mais um dia”. Começava a fantasiar meu caminho para uma Public House fictícia onde encontraria meus companheiros fictícios das minas fictícias de carvão de um vilarejo fictício de Yorkshire.
À minha volta, os bêbados e drogados da estação, uns arrastando seus grunhidos junto aos passos, outros protegendo seus rostos do mundo atrás dos ombros arcados, tremelicando freneticamente em suas voltas ao redor de si. Aonde iam? Rondavam pelo lugar como os ratos da estação, que os trabalhadores – tailandeses, turcos, poloneses e outros passageiros dos trens e bondes noturnos – olhavam entretidos. A pele melada do suor de um dia purificava moralmente nosso espírito e a oposição aos ratos humanos nos dava carapaça de marfim. Éramos pequenos heróis anônimos da história cotidiana, satisfeitos com nossa insignificância.
Bastou que chegasse o segundo dia de trabalho para que eu acabasse com meu deslumbramento. A noite eu tinha dormido inteira; acordei para passar o uniforme, tomar o café da manhã, e logo já estava esperando o trem. O dia se repetiu no restaurante – o mesmo mau humor dos clientes, dos colegas, a pressão da supervisora, a confusão com os idiomas, e o entra-e-sai da cozinha, carregando quilos de pratos sujos durante oito horas, com meia hora de pausa. Praticamente todos os colegas de trabalho também são estrangeiros, parte imigrantes que vieram para a Alemanha fazer a vida ou casar-se, parte estudantes do leste europeu que, ao contrário dos alemães, não recebem nem bolsa do governo nem mesada dos pais em euro para poderem se dedicar somente aos estudos. Independentemente de ser cantor lírico ou exilado político, todos se nivelam por baixo na mediocridade de suas tarefas – simples manuseio de máquinas que não permitem fazer nada além daquilo para que está programanda -, na limitação de se comunicar num idioma estrangeiro e na monetarização de suas relações.
Alguns chegavam no trabalho com trajes civis – a calça que custou um dia de trabalho, a jaqueta que custou outro, com sua tonalidade de novas e aura de coolness. Mostravam seus músculos esculpidos em academias uma hora atrás (mensalidade = um dia de trabalho), trocavam potes de Megamass, recomendando-os com suas palavras de especialistas em aminoácidos. Preenchiam o vazio de suas pausas trocando mensagens escritas em celulares com visores coloridos e câmera fotográfica embutida (dois dias de trabalho), dizendo que horas saíam do trabalho, como fora o dia na academia, como se amavam e o quão boa havia sido a noite anterior, o quanto odiava seu chefe e os clientes para quem trabalhavam, e como estavam ansiosos para quando chegassem as férias e viajassem para Mallorca (afinal das contas, já era tão barato viajar nos dias de hoje).
Outros já íam vestindo seu uniforme, poupando o tempo necessário para se fazer de cidadão em trabalhador. Carregavam um livro da faculdade, que tinham que ler durante o percurso do trem ou quando não havia nenhum cliente para atender. O sentido das frases se interrompia com a abertura das portas do trem, com o fim da escada rolante, com um “me vê uma Coca Cola, por favor” ou com um “onde é que ficam os toaletes”. Durante o trabalho, calculavam o número mínimos de dias para poder pagar o aluguel, o seguro de saúde, a alimentação e fazer alguma economia de forma a ainda sobrar algum tempo para os estudos.
Entre os sem futuro que repetiam seus dias para saciar sua fome de consumo e os de futuro incerto que freiavam seus estudos para poderem sobreviver havia pouca união que ultrapassasse a convivência forçada pela divisão de tarefas. Não havia por que haver companheirismo se surgisse a primeira oportunidade de lucrar às custas do próximo. Roubar o caixa de um, delatar o outro, usar o controle de caixa como forma de poder sobre os colegas ao ponto de fazer o próximo de empregado, nada era anormal. Se éramos todos explorados, éramos também exploradores uns dos outros.
Ontem acordei às 4h30 da manhã, depois de ter ido dormir à 0h30. Bonde às 5h15 para depois pegar às 5h30 o trem ao aeroporto de Frankfurt. Restaurante fechado, encontro meus colegas de trabalho como todo dia sentados nas mesas, separado em grupos nacionais, entre estudantes e imigrantes, ou se esforçando para acabar com o sono ou se rendendo à última cochilada, esperando o supervisor dividir as tarefas. Desinverti a pirâmide e termino contando a novidade – nesse dia eu me libertei do trabalho. Nada mais de alarme-bomba, de enfrentar cliente que reclama por esporte, de lutar contra as máquinas. Vou deixar o resto do tempo que ainda tenho aqui na Alemanha para viajar e preparar meus trabalhos finais de faculdade, que nem são tantos, mas já me bastam. E outras pessoas vão ocupar minha vaga no restaurante. Fico com o meu lugar na sombra, limitando meus gastos e sobrevivendo de mesada, enquanto que a mão-de-obra imigrante e estudantil continua sendo usada como alternativa contra trabalhadores organizados.
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Para comemorar, dormi doze horas seguidas, faltei na universidade e passei o dia inteiro na frente do computador.
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Tudo bem, tenho que ser sempre crítico no discurso – mas deixem que na prática também aproveite o pouco do tempo em que me vendi ao capital. Já sei operar uma verdadeira máquina de espresso, preparar um Latte Macchiatto com direito às suas três fases bem definidas (o segredo está na diferença da temperatura do leite e do café), sacar rolhas sem reticências, enrolar talheres em guardanapos e, o mais importante, servir uma Weizenbier.
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Ainda relacionado ao trabalho
E esse tempo longe dos computadores e dos livros me diminuiram a capacidade de pensar. Fui para o tutório da minha disciplina de Relações Internacionais e voltei a sentir aquela impotência de aluno medíocre capaz apenas de ler textos e responder a questionários de múltipla escolha. Cansei de me enganar que o problema fosse o idioma; já compreendo os textos que leio, mas mesmo assim não consigo desenvolver internamente seus desdobramentos – o que não depende tanto do idioma. Às vezes é necessário admitir nossas fraquezas.
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E a cereja do sorvete
E se trabalhei, fi-lo com um objetivo – financiar minhas viagens e comprar um notebook. Resultado – duas viagens para Paris, uma futura para a Rússia e, possivelmente, outras duas para a Irlanda e para a Polônia. Além disso, comprei o tal do notebook, que me permitiu escrever este post, ajudará a fazer meus trabalhos de faculdade e, finalmente, servirá como ferramenta de trabalho quando voltar ao Brasil.
Sou de uma geração de pessoas que nunca escreveram um trabalho de escola se não num computador. Se se diz que aqueles que não sabem lidar com computadores são novos analfabetos, posso dizer que eu, por minha vez, sou um analfabeto por não saber escrever sem um – ou sem suas possibilidades de edição. Sou dependente do control-C e control-V, e creio que isso não tem mais volta.
Volto um pouco a criticar – trabalho para sustentar a minha dependência da técnica e, em última instância, para ter meios de trabalhar. Mas tenho que parar de reclamar da vida, senão a cereja do sorvete vai virar o chocolate de figo.
Paris II – e não é a Universidade
E voltei a Paris duas semanas depois da minha visita relâmpago a desconhecidos extravagantes. Desta vez, fui à casa do Napoleão, grande colega ecano cejotense e amigo etílico, estudante de Ciências Políticas na Paris VIII e habitante da casa do Ministério da Agricultura, na Cité Universitaire, que, ao fazer um pacto com o diabo roubando as hóstias de uma igreja e comendo-as de almoço, aceitou trocar qualquer resquício de noção por uma inteligência sem limites conhecidos.
Grande viagem, marcada por episódios inusitados e ativismo fisiológico com conseqüencias mortais, que fica marcada nos registros históricos da desimportância do cotidiano. Assiti a uma palestra do diretor europeu do FMI e do diretor da OIT sem que eu pudesse entender muito o que diziam senão o que aparecia no Power Point (de qualquer forma já estou acostumado com isso, a língua mudando de vez em quando e a incompreensão permanecendo). Na primeira noite, conheci o piquenique na Ponte das Artes acompanhado do Napoleão e estudantes estrangeiros da Sciences Po, assistimos a uma aula madrugueira de tango às margens do Sena, fomos abordados por um hippie caboverdeano com aura de orixá que durante mais de uma hora falou “Brasil... Samba... não é uma, não são duas, não são três, não são quatro, é mais de quatro... capoeira...” até que fugíssimos discretamente. E nada me faz deixar de crer que ele continue repetindo o número de vezes que a seleção brasileira já levou a copa.
Dia seguinte, depois de um passeio pelo cemitério, passeata anti-Bush até a Praça da República (francesa, claro) com participaçao dos maoístas curdos aos separatistas tchetchenos. Acompanhei tomando um litro de iogurte com pêra. Na noite do sábado, festa na casa de Mônaco, na cidade universitária. Eu e o Napô chegamos à conclusão de que, sem exceção, todos as monegascas são feias, todos os monegascos são pansexuais, nenhuma monegasca fica com monegascos (preferem os subsaarinos com tênis de corrida) e nenhum monegasco fica com ninguém, o que de pansexuais os transforma em assexuados. Sem grandes perpectivas para a noite e com várias cervejas a preços estudantis esperando sair de nossos corpos para encontrar a natureza, decidimos voltar para a casa do Ministério da Agricultura e dormir. E eis que no meio do caminho surgiu a casa dos Estados Unidos – monstro com detectores de metal na entrada, cercada por um fosso seco e povoada por estranhos que todo dia ouvem o CD “música”, lêem o livro “texto” e comem o prato “comida”. E eis que a janela do salão de festas estava aberta. E eis que, apesar das cervejinhas, o Napô e eu lembramos de nosso dever moral como cidadãos do mundo de prosseguir com a manifestação contra o imperialismo estadunidense. Privamos nossa urina de seu destino natural, isto é, as árvores da Cidade Universitária, e terminamos com um protesto fisiológico de caráter deveras pontual, mas com conseqüências (proporcionalmente) drásticas: em poucos dias, o Napoleão me notifica que nosso ato levou à morte de Reagan.
O domingo, dia D, foi dia de parque, de esticar as pernas e pensar no que é ser brasileiro. Morar no exterior é necessariamente um conflito de identidade, ora do vazio de sentir-se Estrangeiro, ora de ser cidadão do mundo. Não posso negar que a língua portuguesa me force a acreditá-la ser minha pátria, que a música brasileira me toque mais do que qualquer outra e que eu me sinta especialista na hora de falar de problemas de urbanização. Mas orgulho de ser brasileiro não há. Não sei se pode haver orgulho por algo que elimine a possibilidade de ser o outro, que, por outro lado, em si não seja necessariamente muito senão a circunscrição territorial do meu nascimento. Ser brasileiro não implica em agir bem nem mal, nem ser belo nem feio, nem ser racional ou irracional. Significa estar sob a soberania de um Estado apagado do cenário internacional, governado por um presidente incoerente (em que votei e continuaria votando, pelo menos diante dos outros candidatos disponíveis), com uma oposição mais incoerente ainda, falar numa língua pouco entendida no resto do mundo, ser reconhecido pela caipirinha e pelo futebol, e ter a bengala da não-soberania para se livrar de responsabilidades.
Mas olhando aquelas pessoas felizes andando com seus cachorros ou deitadas com suas barrigas voltadas ao sol, olhando para Paris morro abaixo não imaginei por que gostaria de ser francês, ou alemão, ou inglês, ou filipino (que geralmente as pessoas acreditam eu ser). Estava tão bem lá quanto estaria em São Paulo ou em Frankfurt ou em Londres – em qualquer metrópole do mundo onde eu pudesse sentir ser o que eu quisesse.
Segunda-feira às seis horas da manhã eu cheguei de volta em Frankfurt. Por mais que tenha gostado de Paris, cidade onde definitivamente terei que morar algum tempo, senti um certo alívio de chegar em casa quando ouvi as pessoas conversando em alemão ao sair do ônibus. Frankfurt estava com um ambiente de normalidade que nunca imaginei que teria. Não considero aqui meu lar (com a exceção do Jazzkeller e do meu quarto, que, de tamanha pocilga, nem pode ser chamado de lar), mas essa foi a impressão.
É verdade que, em menos de um dia, já estava sentindo-me devidamente estrangeiro.
E o tema não pode se esgotar
Antes achava que era só a Alemanha, mas agora bem sei: com o esquentar da primavera, a Europa tomou um banho de tropicalidade. Se já não era nova a moda de usar Havaianas (não necessariamente as legítimas), agora o velho-mundo se veste de verde e amarelo do tênis ao boné, carrega no peito a bandeira brasileira (naturalmente fora do padrão), e estampa em suas bolsas Adidas: Brazil. Pode ser Jamaica também, mas o Brasil anda levando vantagem. No elevador da moradia estudantil, encontrei com outro com uma camiseta escrito “São Paulo”. “Ei, brasileiro?”, “Was?”, “Entschuldigung. Warst du schon mal in São Paulo?”, “Ne, ne”…
A essa moda se soma a caipirinha em qualquer quiosque e a massiva campanha publicitária da loja sueca de roupas H&M, que estampa em outdoors onipresentes morenas queimadas nas areias de Ipanema, com suas caras de “eu sei como aproveitar a vida, du Arschloch; levanta essa bunda do trem e vem aqui do meu lado”. Tivesse eu alguma influência na Embratur, faria uma campanha maior ainda do que da H&M para trazer turistas para o Brasil – entrada certa de divisas e caixas cheios nas boates cariocas. E aproveitava rápido antes que a moda passe e o Lula deixe de ser visto pelas esquerdas européias como mais uma eterna esperança na América Latina. Ou já o teria?
Voltando para a comida
Durante meus dias de trabalho eu praticamente deixei de cozinhar. Só comia uma ração gordurosa de que já falei em outro post. Minha volta de Paris me trouxe, no entanto, uma nova mania. Agora faço todos dias crepes de queijo e presunto cru. Toma um pouco de tempo, mas nada que se compare ao que levaria para fazer um arroz com feijão. Além do mais, achei no armário da cozinha uma panela ideal, que, hovesse espaço nas malas, levaria comigo aonde quer que eu vá morar.
Sim, esqueci completamente meus problemas com colesterol e só vou dar-me o trabalho de lembrar ao voltar ao Brasil. Viva a irresponsabilidade!
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(Pequenos parênteses - título de matéria da Folha de 22/06: Lancamento [do livro Minha Vida, do ex-presidente Bill Clinton] deve rivalizar com Harry Potter.)