Sexta-feira, 21 de novembro de 2003

Hoje tive mais uma aula sobre psicanálise e a obra-de-arte. Nao entendi nada, nem no texto, nem na palestra. Nao vou escrever mais falando mal da língua; digo apenas que, toda vez que tenho que enfrentar um texto em alemao, deito e durmo, tentando acreditar no método zen do nosso guru Nelson Lin.
Ontem foi um desses dias. Às sete da noite comecei a ler o „der Wahn und die Träume in W. Jensens Gradiva“ deitado no meu colchao (desde que entrei na faculdade nao sei mais o que significa dormir a mais que dois palmos do chao). Abri a minha última caixinha de pé-de-moleque, fiz o meu chá preto com mel e leite, desisti do dicionário e atravessei umas dez páginas. Acordei às onze da noite, correndo ao banheiro para descontar meu chá. No espelho, todos os amassados da blusa que uso de travesseiro estavam estampados na minha cara – nao, já foi uma proeza comprar um colchao; travesseiro já seria extravagancia, objeto inútil que serve apenas para substituir um/a parceiro/a, no caso dos solteiros, ou, como muro de penas, para manter uma distancia física e simbólica do/a parceiro/a, no caso dos (mal) acompanhados... Besteira, prefiro economizar meus euros para gastar em comida – chocolatinhos belgas, sorvete de melao, batata-frita (as belgische Pommes, nao as french-fries) com molho de Curry-catchup, salsichao com mostarda, e, claro, Donner-Kebab ou Falafel (só para demonstrar solidariedade com o povo árabe, hehe).
Fiz mais um chá e tentei dormir. Nao conseguia. Pensava em música, em relacionamentos, na ocupacao do Iraque, na minha carreira (que carreira?), na turma do CJE, que nao vai ser a mesma quando eu voltar ao Brasil, nos trabalhos da facu alema, que nao tenho a menor vontade de escrever... O lencol. Que estranho esse lencol, que se recusa a esticar pelo colchao, como se tivesse uma tendencia natural de se retorcer em um montinho logo abaixo dos meus pés, deixando-me deitado direto no tecido áspero do colchao. E como odeio esse saco de dormir vermelho hemorrágico aberto e seu barulho de tecido sintético, que me dá vontade de sair no meio da noite para roubar uma loja de macios edredons de pena de ganso, com capa de algodao bruto e etiqueta „ecologically friendly“. Cada vez que eu me viro, o saco de dormir parece comecar num lugar diferente e tenho que chutá-lo até encontrar a posicao mais adequada – com um zipper rocando em meu pescoco.
Tento ler o tal do texto para cair no sono, mas acabo ficando mais ansioso ainda. Desligo a luz, rolo, brinco com o aquecedor, que fica logo ao meu lado, para compensar a ineficiencia do saco de dormir. Duas da manha e já nao devo mais estar acordado.
Sonhei. Havia tres pianos num apartamento grande e claro e eu improvisava alguma coisa. Um four-beats-jazzinho bobo, com tonica, dominante, subdominante e só. Nao lembro bem quem (na verdade eu me lembro muito bem, mas nao vou entregar cartas tao facilmente) estava lá também, e também tocava piano. Convidei para improvisar junto comigo, mas pareciamos nao ter o mesmo gosto musical – o resultado foi um desencontro rítmico e harmonico. Gostei do piano. Sentia-me em casa sentado nele. Sentia-me simples. Do silencio deixar um mi bemol rolar num mi natural, transformando um dó menor em maior, deixava aquele apartamento em cores. Tao minimalisticamente simples. E estava sozinho, brincando feito uma crianca com blue-notes desconexas, só pincelando, só chapiscando. E descia uma escala de tons inteiros e a sala parecia chuviscar, até, no estouro dos bordoes, trovejar. Acordei com o lencol novamente embolado no pé, e o céu estava cinza claro. Nao chovia, nao ventava, nada parecia acontecer naquele cinza parado de fim de outono. Chá preto com mel e leite. Torradas com mel. Escorre o mel no prato; limpo com o dedo e o lambo em seguida.