Nada para fazer na quarta à tarde e nenhuma vontade de ler os textos do Ciro. Algo de estranho deve ter no ar - ou na água. Aqui no apartamento a Claudinha parece ter sido picada pela mosca do sono; pelo jeito, eu vou no mesmo caminho. Improdutivo, a cama (ou melhor, minha colchonete no chão) me chama. Dormir, dormir, o resto que me espere - e a merda é que não espera. Minha nerdice me moi a consciência, mas a preguiça me diz "come on... you know you can't be arsed, just say bollocks...". Ainda me sinto chique pela preguiça me falar em inglês, mas eu mesmo tenho preguiça demais para entender o que ela me fala.
Ai, passar o dia inteiro coçando o pé, estourando plástico-bolha... uma garrafa de suco ao meu lado e a janela aberta, com esse solzinho morno nas costas. De vez em quando me dando o trabalho de me levantar e ver as janelas dos vizinhos. Longe demais, não dá para ver se eles estão assistindo à televisão, ou se simplesmente se esticam no chão, como eu. Whatever, eles que fiquem com a vida deles, pois eu estou bem demais aqui, coçando as feridas de carrapato. Piedade.
E eu fico tentando estalar, ou estralar, o pescoço, quase sempre em vão, pensando o tempo todo no paquerinha. Que merda, isso não vai dar em nada. Frustração. Estalo, ou estralo, os meus dedos. Coço atrás da orelha. Olho para a garrafa de suco, mas a minha preguiça é demais para pegá-la. Suspiro...
Pensar-pulsar. Não penso
o pulsar; o pulsar é dinâmico demais, as cintilações ciréticas me saturam.
Prefiro o calor constante do solzinho. Linearidade. Calor linear. Vagalinear, e
não pensar-pulsar. Bocejar-continuar. Coçar-morgar. Morgar-coçar. Coçar o
morgar. Acareciar as morgações. Ir a fundo na preguiça da fricções, do
bocejar, da estática contínua desta sociedade vagabunda, que não se dá a
porra do trabalho de se impor na merda desse século. O outro? O este? Nevermind,
I can't be bothered.
Mas o solzinho se foi e o calor agora me dá frio. O corre-corre dos carros pulsam, pulsam. Não dá mais para bocejar-continuar. Tenho que sair da minha vagalinearidade e começar a pensar-pulsar.
Porra. E eu fico então na minha infelicidade virtual aqui, pensando-teclando, sentindo-calando, com o pé já frio do vento de 11° andar e um leve suor nas axilas, do resto daquele solzinho que já não dá mais as caras. O teclar-tectectar é o único som aqui - a Claudinha continua vagalineando, roncacochilando. E eu teclo para fugir de pensar-pulsar. O livro está pulsando do meu lado. As cores fluidas entre o rosa e o roxo de seu título fazem ploc-ploc na minha cabeça, que já virou a aquarela virtual em background da capa do livro.
Pois é...