Quarta-feira, 19 de novembro de 2003
Que maravilha é o mundo com cafeína. Hoje acordei péssimo, com vontade de dormir o resto do dia - culpa do outono, diria. Pois bem, fiz o meu meio litro de chá preto turbinado, comi os meus croissants, e cá já estou eu, na faculdade, a mil, pronto para contar mais dos meus feitos na Alemanha.
Cafeína, cafeína.. Para que precisa o mundo de drogas se nós temos a cafeína. Se estivesse procurando dinheiro - e se tivesse disposicao - abriria uma clínica de recuperacao de drogados (sim, estou influenciado pelo Trainspotting, que assisti pela 16a vez) onde cocaína, heroína, anfetamina, metadona, crack e outros seriam substituídos por doses cavalares de cafeína. Café, chá, coca-cola, cafe-aspirina, tudo que tiver cafeína. Aí que ia lentamente substituindo por café descafeinado, e assim por diante, até todos estarem limpos. Claro que, depois de ler algumas tirinhas do Dilbbert, eu voltaria de uma vez para produtos cafeinados, só para me divertir com as pessoas absolutamente alucinadas.
...e os brasileiros ocupam a Alemanha
Entao, ontem contei da greve; hoje, vou me ocupar com coisas menos politicas. Anteontem estava voltando para o apartamento, quando ouvi uma voz brasileira. É estranho, parece que nao é necessário nem notar a língua em que se fala; basta sentir um ritmo e já se pode ter certeza de que a pessoa é brasileira. Era uma mulher branca, de cabelo castanho, com seu filho, de uns quatro anos. "Com licenca, voce é brasileira?", "sim, nós somos."
Aí conversamos aquelas generalidades de sempre quando se conhece alguém do mesmo país no exterior. Era a segunda vez que morava na Alemanha. Há um ano e meio ainda estava em Maringá, onde seus pais moram, até que virou mae solteira, a situacao financeira apertou, e decidiu voltar para o Velho Mundo, onde poderia criar melhor seu filho.
Falava sem articular bem os rr, como se, ao invés de vibrar, sua língua desse uma volta entre os dentes. Parecia ser pelo frio, que também deixava seus olhos mareados, que fazia seus gestos inseguros e repentinos, a garganta molhada, a voz tremula. Se sentia saudades do Brasil, só dos pais - tinha irmaos na Espanha, com quem, tendo oportunidade, se encontrava. Gostava da Alemanha, tinha um emprego, estava para atualizar a carteira de motorista, seu filho estava no Kindergarten, enfim, já tinha uma vida aqui. Mas nao consegui ver nenhuma grande felicidade nela. Ao contrário, parecia ser extremamente sozinha, pelo valor que dava a conversar com um completo estranho na rua, pelo calor que havia em seu "vem meu filho, nao fica parado, nao; corre pra mamae; sim, meu filho, tem Yakult em casa, voce vai tomar Yakult quando chegar em casa, meu filho."
E me convidou para uma festa brasileira organizada por um cara do consulado, que acontecerá num barco no rio Meno, com direito a feijoada. E me deu seu endereco, e me deu seu telefone, e me deu dicas de onde eu poderia trabalhar sem documentos, e me convidou para sair quando quisesse. E, quando chegamos em frente a minha casa, despedimo-nos e foi embora. "Quando quiser, me liga ou bate lá no Körnerstraße, 25, Soriano".
Quem era o pai da crianca? Por que essa mulher mudou para a Alemanha (nao, falar que foi por dificuldades financeiras nao me convence)? Tantas perguntas surgiram que deu até vontade de escrever um perfil dela. Deu até vontade de ser jornalista!