Segunda-feira, 19 de março
de 2004
Essa vai para os ex-alunos do Ciro – se alguém achava demais “sociologia da era
virtual”, o que então dizer da disciplina de seu colega francoforteano Manfred
Faßler, “imageticidade/visualidade/visibilidade – vôos cegos, ou: de olhos abertos
pelos mundos imagéticos das culturas pós-modernas” (Bildlichkeit/Visualität/Sichtbarkeit.
Blindflüge, oder: Mit offenen Augen durch die Bilderwelten der postmodernen Kulturen)?
Sim, depois de dois meses de férias estou de volta às salas lotadas da universidade
de Frankfurt. Se alguém espera um balanço desse período anormal de improdutividade,
grandes canecas de chá com leite e mel, livros babados e roupa jogada no chão,
que espere uma próxima oportunidade. A última semana passou-me um borrão em todos
os momentos de ócio, compactou, incinerou, enterrou o que eventualmente tenha
aprendido deitado na cama virando págimas. Daquele resto de espreguiçar, nem um
suspiro, nem um dedão do pé estendido (procure no Google “espreguiço”, veja a
quantidade de blogs e imagine quanto tempo já foi dedicado a nada nesse mundo).
Eu estudando tanto? Nem... Depois de oito meses gastando em euros, com direito
a boi ralado e suco genérico com água de torneira, chegou a hora de pagar minhas
contas. Procurei já olhar para a janela esperando que algumas moedas caíssem,
mas nenhuma se deu o trabalho – todas continuam brilhantes no firmamento. Cheguei
à conclusão de que o dinheiro só caía do céu quando ninguém o olhava, e, como
tudo o que cai, deveria permanecer no chão. Portanto, lá fui eu olhar pelas ruas,
calçadas e gramados francoforteanos procurar as moedinhas bem de manhã, logo depois
do fim do orvalho pecuniário. Também não ajudou – trata-se da cidade dos grandes
bancos, e logo de madrugada os garis recolhem-nas e as levam para aqueles grandes
cofres de paredes espelhadas. Com as sobras já se ocupavam profissionalmente os
sem-tetos francoforteanos – os únicos para quem os céus daqui se abrem e jogam
umas gotinhas de dinheiro em copos de papelão como se fossem a última chacoalhada
no mictório. Demorou que a Sue me chamasse e eu me desse conta: tenho que trabalhar.
O quê? Abräumen, em outraspalavras (outraspalavras poderia ser uma língua),
retirar as coisas da mesa (o que implica em levá-las à cozinha e trazê-las limpas).
Onde? Aeroporto de Frankfurt, terminal 1, saguão A. Quando? Oito horas por dia,
diariamente entre os dias 5 e 12 e três vezes por semana daí por diante. Por quê?
Porque eu quero ganhar dinheiro. Poderia dizer que “Arbeit macht frei” ou que
valeria a experiência. Mentira. Em outraspalavras, “Arbeit macht frei”
significa “Geld macht frei” – o dinheiro liberta. Como? Acordar. Tomar
banho. Comer. Passar camisa e colete. Condução. Pegar bonde. Pegar trem metropolitano
– horário excepcional devido a reformas na linha. Trem lotado. Passageiros mal-humorados.
Aeroporto de Frankfurt. Casais de gringo branquelo com tailandesa, homens de negócio
japoneses, halterofilistas, adolescentes americanos barulhentos e sua reprodução
de filmes escolares. Bizarrices transladam-se, o pequeno circo de horrores é produto
para exportação. Entrada de serviço, cozinha, trabalho. Trabalho – quatro
horas. Uma pequena pausa – meia hora. Trabalho – quatro horas. Trem
atrasado em vinte minutos. Horário excepcional. Passageiro falando sozinho em
árabe. Trem lotado. Lento. Estação central. Bonde acaba de passar. Esperar mais
20 minutos na plataforma. Drogados pedem esmola. Bonde. Moradia estudantil. Elevador.
Banheiro com luz queimada. Quarto. Tirar a roupa. Lavar a camisa e deixar
secar para o dia seguinte. Dormir. Agora, selecione os últimos oito parágrafos,
dê um control-C control-V oito vezes. E mais três vezes por semana. O trabalho
liberta do peso da liberdade. No final do dia, onze horas da noite, com uma cerveja
na mão, sozinho, esperando que o bonde número 16 em direção a Ginnheim passe,
ficar aliviado por não ter escolhas – carregar bandejas, apertar botões. Tem café?
Sim – o senhor quer capuccino, café normal, expresso...? Um latte-macchiato. Não
temos, senhor. Então um capuccino, por favor. Seu cartão, por favor. Passa cartão,
tecla “1”, tecla “capucc”, tecla “esc/bes.”, devolve o cartão pega uma xícara,
aperta o botão da máquina, coloca a xicara no pires com os papeizinhos de açúcar
e uma colherinha. Xícara para o cliente, por favor, obrigado, de nada. O maior
problema de trabalhar não está em trabalhar em si, mas sim no fato de ter que
me atrasar para as jam sessions no Jazzkeller. Enquanto saio necessariamente
atrasado do trabalho às 22h30, pego o trem necessaiamente atrasado em direção
à estação central às 23h e faço necessariamente atrasado a baldiação no metrô
em direção à alte Oper às 23h30, a jam session começa às 21h e o
melhor pianista do lugar toca às 22h. Trabalhar significa tomar a sopa fria.
...mas os homens também dormem E depois de ter ficado tanto tempo sem me
manifestar e justo num ponto de virada do meu intercâmbio, estou com tantas novidades
que não dou conta de contá-las. Pois bem, mudei, sim, de casa, e já faz duas semanas
e dois dias. Melhor não poderia ser. Meus dois primeiros dias foram de festa –
festas deveras contidas, pois estava bastante cansado depois de fazer, com a ajuda
da Sue, a minha mudança. Isso significa transportar de bonde um colchão, arrastar
uma mala de mais de 30 quilos pelas ruas depois de ter perdido as rodinhas no
meio-fio, quebrar um vidro de azeite na entrada da moradia estudantil e carregar
minhas roupas em cabides pendurados no meu corpo. Mesmo assim, dias de festa.
A melhor coisa de morar no “Crusp” francoforteano é encontrar em cada porta um
pedaço do mundo. Saindo do que já virou normal (bolo polonês de ricota feito pelo
Tomek, biscoitos tchecos do namorado da Alena, uma bela macarronada feita pelas
sapequíssimas Virna, Camilla e Isabella além das bebidas – Becherovka, Slibovice
e outras cujos nomes não lembro), provei um dia desses, numa roda de franceses,
marroquinos, alemaes e poloneses, aquele fumo árabe que os tios Abdul e Ali fumavam
na novela O Clone. Isso mesmo, aquele que precisa de um cachimbo enorme com um
balão d’água parecido com um bong, chamado naguilé. Não, não se trata
de nenhuma droga ilegal. Existem três tipos de fumos para o naguilé; um (mu’essel)
é um composto baseado no melaço ou mel, outro (tumbâk), simplesmente tabaco,
e, o último (jurâk), uma mistura dos dois. Acho que o que experimentei
foi o mu’essel. Nele são adicionadas essências aromáticas. A mais comum
é de maçã, mas a que eu provei foi de hortelã. É muito bom, e o melhor é que é
compartilhado pela roda inteira. Soa coisa de maconheiro, e a idéia do “joint”
é basicamente a mesma; no entanto, não tem o lado narcótico, só o social. Estava
pensando em comprar um para levar de lembrança ao Brasil, mas, ao olhar os preços
na internet, decidi não colocar mais peso nas minhas malas. voltando às
teorias dos relacionamentos humanos
Não sei se eu lamento profundamente não ter estudado ciências exatas ou se estou
essa é a minha maior felicidade. Numa dessas festas de cozinha na moradia estudantil
conversei um pouco com uns colegas cariocas que fazem parte de seu doutorado em
física nuclear (ou o que for) aqui. Falei dos meus planos de, assim que eu dominar
o mundo, representar todos os relacionamentos humanos em planos cartesianos –
e agora num sistema de pontos, depois de ter assistido ao "in God we trust" (direção
do filho do diretor de “Caça Fantasmas”). A resposta? “Ah, você pode usar comportamento
de gases para tentar fazer isso”. ? A idéia não é nova – o personagem
Hari Seldon criado pelo escritor de ficção científica Isaac Asimov já descobrira
a psico-história, através da qual, basendo-se no comportamento de gases, poderiam
prever-se os caminhos da história. Poderiam cair então outras teorias no meu colo
– teoria de jogos, o diabo. E o que isso quer dizer? e o trabalho...
Fui convidado a ir mais uma vez a Praga, desta vez a uma festa de aniversário.
O problema é que virei um proletário de final de semana. Isso mesmo, enquanto
amigos tomarão absinto em caneca de cerveja na primavera de Praga, estarei no
aeroporto de Frankfurt vendendo ciabata velha a EUR4,50.