Sexta-feira, 19 de março de 2004
Ótimas notícias: vou mudar de apartamento. Depois de meu semestre offenbachiano na August-Hecht-Straße – rua morta e pixada – invadirei a “Todesturm” – em outras palavras, a “Torre da Morte”. Ginheimer-Landstraße, 42 – 60487, Frankfurt am Main. O mais alto prédio de estudantes de Frankfurt, com 17 andares, 445 quartos de aproximadamente 10 m², 17 cozinhas comunitárias, 18 particulares para 18 repúblicas de 4 quartos cada, um porão de festas com bar, onde fizemos a “brasilianische Party, die Letze, die Beste”, e uma lavanderia. Um grande monstro de concreto cinzento, construído em 1974 por algum arquiteto inspirado nos caixotões comunistas brotados como paredão na paisagem da periferia das cidades leste-européias. Um lar com charme de presídio e “Gemütlichkeit” de Cohab, em cujos elevadores sujos estudantes trocam seu “hallo” e “tschüss” com automatismo fordista. E o “hallo” e o “tschüss” de linha de produção são trocados até mesmo antes de subir no terraço do 18° andar para, num salto de 90 metros, resolver uma falha irreversível nos exames.
Straßenbahn, take me home, to the place I belong, Studentenwohnheim, Ginheimer, take me home Straßenbahn, como diria meu caro colega Pepicko, o fortalezense. Morar num Studentenwohnheim é mais do que ter um teto; é aproveitar a vida estudantil ao máximo, com festas de cozinha regadas a vinho barato e cerveja morna toda a semana; é reclamar que alguém roubou o queijo que você deixou na pia na noite anterior, acordar para tomar café da manhã enquanto que seus outros colegas já lavam a louça do almoço, encarar o banheiro sujo de vômito roxo de vinho da sexta à noite até a segunda de manhã, ir e voltar ritualmente de Straßenbahn todo dia para a Universidade, até que a paisagem do lado de fora do bonde não se separe mais do “nächste Halstelle, Uni-Campus Bockenheim; Umsteig zu...”. Realmente, ich freue mich darauf.
música do palco, música na pista
Recapitulando meus saudosismos musicais, voltei essa semana ao Jazzkeller, que já elegi como meu refúgio noturno das quarta-feira. Dessa vez, a música não foi brasileira. Três grupos se formaram enquanto estive lá; o melhor foi encabeçado por um pianista absolutamente maluco que rendeu a platéia com um Miles Daves (So What?) tocado num tempo aceleradíssimo. O moço incorporou o que há de mais interessante no uso brasileiro do piano, que é a exploração de seu caráter percursivo (extremamente “jungle”, instintivo, agressivo, sexual) com uma harmonização complexa, debussiana. Uma brutalidade sofisticada que satisfaça nosso instinto de morte com licensa poética tem um efeito de purificação muito maior do que a delicadeza afetada do improviseiro lacrimoso de arpeggios aveludados. Delicadeza para mim, só Debussy, que é, antes de qualquer outra coisa, um grande transgressor. Sua delicadeza é a do estranhamento de escalas de tons inteiros, de pausas, e de um trabalho infinito de qualidade de som, e não de melodias convencionais que procuram comover como se fossem versos de amor. Versos de amor por si só são “pointless”; se existe o amor, ele deve ser uma constante tal que não se deixe tornar um objeto em si, mas permear em tudo e, dessa forma, dissolver-se, deixar de existir objetivamete. Assim, dissolvendo a melodia na harmonia, Debussy faz desse tal amor (que prefiro dizer que não existe) imagens difusas ofuscadas por uma chuva (ou neblina) musical, essa, sim, objeto direto de sua obra. Sim, eu gosto de Debussy.
Ontem, para continuar minha jornada musical, fui à tradicional Jam Session do Club Voltaire, que acontece toda terceira quinta-feira do mês. “«Je ne suis pas d'accord avec ce que vous dites, mais je défendrai jusqu'au bout votre droit à le dire» (Voltaire). Esse é o lema do bar, inaugurado em 1962 por um grupo de jovens de esquerda que queriam abrir um espaço para uma cultura de discussão em Frankfurt, cidade conhecida pelos dois pólos opostos das sedes de grandes bancos, de um lado, e da Escola de Frankfurt, do outro. Eram tempos preto-ou-branco da Guerra Fria; daí que se escolheu como patrono do bar Voltaire, defensor da tolerância como base para a convivência racional em sociedade.
A abertura para diferentes visões não se limita à conversa que acontece em volta das mesas de madeira velha desse bar escondido na kleinen Hochstraße; nas noites de música, o palco é aberto para quem tiver o que mostrar. E ontem, diferente do que aconteceu quando meu caro colega Napoleão veio para cá, não poderia ter passado coisa melhor por aquele palco. Na verdade, não se trata de um palco; não há limites físicos entre o espaço dos músicos e o da platéia, principalmente porque os músicos são a platéia também. Se você tiver trazido um instrumento de sopro indígena da amazônia, haverá todo espaço para dar suas assopradas enquanto um baterista carismático hipnotiza os gaiteiros, trombonistas, pianistas, guitarristas, baixistas e MCs. E nesse ambiente espontâneo o gênio da improvisação surge naturalmente com precisão matemática. “Oh, baby, I feel so lonely now” vindo da garganta blueseira de um mestiço oriental é respondida com um “Oh, yeah, he fells so, so, so lonely now. What should he do, what should he do?” hip-hoppish de alguém escondido sob um boné e camisa xadrez e calça jeans larguíssimas.
Música no palco ou música na pista, tudo anda deixando-me muito feliz. Parece ser tanto para ouvir que o máximo da minha respiração não consegue tomar todo o ar que quero. Acabei a leitura de romances (menos a Montanha Mágica, que vai perseguir-me até o final do meu intercâmbio), e agora parti para não-ficções. No momento, leio “Why do people hate America”, de Ziauddin Sardar e Merryl Wyn Davies, “Interesting Times”, de Eric Hobsbawm, e vou começar “Hitler – eine Biographie” de Joachim Fest (mas esse vai demorar para terminar...). O primeiro é pura diversão. Nada de realmente novo, muito senso comum e alguns pontos meio furados; mas vale ler mesmo assim, pois poucas coisas dão tanto prazer quanto encontrar escrito um espelho (mesmo que um pouco distorcido) da própria opinião. Mais prazer ainda, só mesmo discordar, o que, no entanto, traz o risco de se ver sem razão, e nada mais penoso do que reconhecer o erro.