Quinta-feira, 18 de dezembro de 2003

E a greve continua
A greve da Johann Wolfgang Goethe Universität continua – e agora ela está cada vez menos virtual, contrariando qualquer tendência de greves prolongadas. Pela primeira vez, as aulas foram barradas no prédio de palestras da universidade. Durante tres dias. Foi necessário arrancar todos os galhos dos plátanos carecas em frente do DCE para bloquear as entradas do campus. Naturalmente, os não-grevistas simplesmente passaram por cima. No entanto, todas as portas do prédio citado foram trancadas (nem as cantineiras puderam trabalhar) e todos os vidros cobertos com jornal. Na porta de entrada do prédio anexo foi posta uma mesa em que um palestrante se sentava, falando no microfone. Ninguém era proibido de entrar, mas mesmo quem tivesse coragem de quebrar essa barreira simbólica teria dificuldade de assistir às aulas, devido à pregação estudantil do lado de fora. Até que enfim, greve de verdade. É verdade que a paralização não foi nem total – em outros prédios, tudo prosseguia como sempre, com listas de presença repletas – nem durou muito, apenas esses três dias.

Contudo, os estudantes pareceram ganhar alguma força. Sábado à tarde houve uma manifestação moderada em frente à estação ferroviária central de Frankfurt. Nada de especial. Aliás, tão sem sal que decidiram sair de lá e andar pela cidade. Eu e a Sue chegamos tarde demais e já não havia ninguém no lugar. Desanimamos e, como perfeitos estudantes engajados de meia-tigela, fomos ao “Weihnachtsmarkt” (mercado de Natal) passear. Tudo muito bonito, muito alemão, muito turístico, muito perfeito. Cansamos e saímos em direção à estação de metrô para voltar à casa da Sue, onde faríamos uns doces para uma festa.
Koch muss weg, Koch muss weg”, ouvi de longe, vindo da Zeil, calçadão de Frankfurt onde as pessoas têm atualmente se amontoado para fazer as compras de natal. Em pouco tempo, ouvi também uma batucada. Mais um tanto, uns dez estudantes com um faixas já conhecidas contra os planos do ministro-presidente do estado de Hessen de cobrar taxas para a universidade pública.
Pois não era que o protesto tinha saído espontaneamente pela cidade? Eu e a Sue fomos em direção à Zeil. Mais grupinhos de estudantes. Outros amontoadinhos, e outros, e outros. Quando chegamos próximo à Kaufhof Gallerie, tivemos uma idéia da magnitude do protesto. Os estudantes simplesmente bloquearam a Zeil e se dirigiam ao Weihnachtsmarkt. Imaginem o que significa em termos de muvuca uma manifestação estudantil na região mais movimentada da cidade, durante a época do ano em que todos saem de casa para tomar Gluhwein e fazer compras, e todos, mas todos os turistas japoneses tiram suas câmeras infernais do armário para tirar fotos das criancinhas nos carrosséis e das pessoas comendo Lebkuchen. Como se pode imaginar, somente com uma quantidade ignorante de policiais poderia haver algum controle.

Encontramos com umas estudantes francesas de sociologia e prosseguimos na caminhada. Já havia um cordão policial impedindo que chegássemos no Weihnachtsmarkt. O que aconteceu? A passeata seguiu em outra direção e tomou as ruas da cidade. Estranhamente, o número de manifestantes aumentava com o passar do tempo. Turistas japoneses tiravam fotos, um guitarrista entrou no meio da passeata e fez a trilha sonora da manifestação. Passamos por todos os pontos principais da cidade gritando “Koch muss weg”, isto é, “fora, (o ministro-presidente Roland) Koch” e “gegen Koch ist auch die Polizei”, ou, “a polícia também é contra Koch”, referindo-se à posição da polícia contra os planos do ministro-presidente de aumentar a carga-horária e diminuir o décimo terceiro salário do funcionalismo público.

Apesar disso, a polícia continuou controlando o protesto. Quando já era tarde e todos queriam ir para casa, foi a massa amorfa de protestante decidiu não se sabe como fazer um grande final: todos em direção ao Banco Central Europeu. Não, não houve ocupação do banco, pois não tinha nada a ver diretamente com o protesto. O que acontece é que há um teatro ao lado dele. Sim. Os estudantes correram em direção ao teatro e o ocuparam. Quando a polícia alcançou as entradas, já havia uns cinqüenta estudantes pulando de felicidade dentro do prédio de vidro, ao lado de famílias que jantavam no restaurante do teatro. Em cartaz, Pinocchio. Os pais levavam os filhos para ver aquele monte de gente fazendo um barulhão lá fora. As crianças faziam “tchau” e os estudantes (principalmente as garotas que adoravam criancinhas) respondiam.

Lembrem-se que estávamos ao lado do Banco Central Europeu. Digamos que a polícia de nenhum país gosta da idéia de manifestantes na porta de sede de bancos. Agora, imaginem estudantes fedidos, anarquistas ou comunistas, desses, argh, que freqüentam essas aulas de, Deusmelivre, Sociologia e afins. Na porta de um banco central. Europeu. Em pouco tempo, mais de vinte viaturas da polícia chegaram para fazer um cordão e bloquear a manifestação. Parecia ter mais polícia do que estudante. A festa acabou. Ficamos sitiados por mais de meia hora até que fossemos encaminhados à estação ferroviária central de Frankfurt. Uau, hein?


De volta às discussões cejoteanas sobre crise no jornalismo
E a crise no jornalismo vai se mostrando por onde quer que se passe. No mundo. Não imaginaria que, longe da ECA, em outro país, estudando outro curso, encontraria as velhas questões da queda de verbas publicitárias e do número de leitores. Bom, normal que aqui na Europa, que também está numa lentidão econômica, os jornais não vão tão bem, mas o que vi na semana passada foi realmente inédito.

Estava em mais uma festa numa cozinha do conjunto habitacional estudantil onde os brasileiros moram (a Todes Turm, ou "torre da morte"), tomando um "Gluhwein" (uma espécie de vinho quente, só que tomado na época do Natal, ao invés da Festa Junina) e fazendo um socialzinho. Foi quando conheci um tal de Phillip Schlaeger, um cara altão, filho de turca com alemão. Quando eu disse estudar Jornalismo, entusiasmou-se: ele mesmo era jornalista do Frankfurter Rundschau, creio que o quarto jornal mais lido na Alemanha (perdendo para die Zeit, Sueddeutsche Zeitung, Frankfurter Allgemeine Zeitung, Die Welt), com mais de 180 mil leitores, mais que a metade da Folha de S.Paulo. Como não poderia deixar de ser, comentei problemas que enfrenta o jornalismo no Brasil. O Phillip me pediu licença e foi pegar alguma coisa. Enquanto isso fiquei conversando com um estudante da Mongólia (quando lhe falei ser a primeira vez que conhecia alguém da Mongólia, ele disse não ser a primeira vez que alguém lhe dizia isso). Então o Phillip voltou com um caderno do Rundschau.

Impressionante. Logo na primeira página, uns quinze centímetros de coluna em branco na dobra inferior. Embaixo estava escrito "Protest". Ao lado, uma nota de protesto em nome da redação. Aumento de carga horária, endividamento. O diabo. Segunda página, mais espaco em branco. Terceira, idem. Todas as páginas estavam com espaços consideráveis em branco.
Não sei se isso aconteceria num Frankfurter Allgemeine Zeitung, jornal alemão de maior influência internacional, e, digamos, politicamente bem mais "centrado" do sócio-liberal Frankfurter Rundschau. Nem ao menos sei qual tem sido a ação daquele e dos outros jornais alemães diante da crise, mas o exemplo do Rundschau foi incrível se comparado ao que (não) se vê nas páginas escritas pelas redações sistematicamente enxugadas no Brasil.

Mais um sonho estranho
Estudar a imprensa britânica tem-me feito mal. Muito mal. Hoje sonhei com uma velhinha bem caduquinha, que morava num quarto em Bayswater (bairro georgeano onde me hospedei em Londres, numa viagem durante meu intercâmbio na Inglaterra). Já estava absolutamente sem noção nem medida do mundo, ora agarrada em seus lençóis sujos, rolando na cama de viúva, ora folheando os livros enfileirados com perfeição milimétrica numa prateleira solitária pregada na parede coberta de papel com motivos florais.

"Oh, eu vou morrer, eu vou morrer." – e andava de um lado para o outro carregando um livro que não conseguia mais ler. Em pouco tempo, tomava um susto perguntando-se o que ele fazia em suas mãos. Corria para a estante e, esquecendo o que fazia lá, punha-se a arrumar os volumes, calma, calma. Milimetricamente. Até que tivesse uma idéia, corresse para a cama, esquecesse de que tivera uma idéia e começasse a rolar, rolar, mecanicamente, sem saber por que o fazia.

Não se sabia o que fazer com ela. Seus parentes deveriam ter desaparecido há anos; só alguns conhecidos que já não a reconheciam mais davam-se o trabalho de garantir que, além de rolar na cama e arrumar seus livros, não tivesse a idéia de abrir a veneziana e, da sacada do terceiro andar daquela linda construção georgeana, pular em direção ao parque à sua frente.

A senhora estava tão, mas tão maluquinha que seus conhecidos decidiram contratar uma enfermeira. Não me lembro como era, mas, pelo papel no sonho, deveria ser alguém como a Whoopy Goldberg em "Ghost" (oh, my love, my darling).
"É homem. A velha precisa de homem".

Como todos já estavam é muito preocupados com a senhora, e como aquilo foi um sonho, lá foram seus preocupadíssimos conhecidos providenciar-lhe homens. Ligaram para os bombeiros e, em pouco tempo, chegou um daqueles caminhões enormes, com a sirene rasgando os tímpanos de todos. O barulho atraiu a senhora mais do que um carteiro a uma cadela.

"Oh, meus rapazes!", derreteu-se a senhora, instantaneamente vestida com sua saída de banho, fantasiando ser um vestido de gala nos anos 40, com todo o chique de seus bobes de plástico e pantufas de pelúcia.

Os bombeiros seguravam seus capacetes, impacientes, querendo saber onde é que estava o fogo para extingüir, quando surgiu a senhora da sacada, magra e pequena, com uns oito canecos de cerveja apoiados entre os braços e a barriga. "Ah, meus rapazes!" Os bombeiros não sabiam bem como reagir – talvez voltar para o quartel? Não conseguiam imaginar o que passava na cabeça daquela velha de roupão, carregando canecos – como supor que, em uma breve saída da escuridão animalesca do mal de Alzheimer, ela se reencontraria nos seus anos de moça nos salões de dança, rodeada de rapazes?

A senhora jogou os canecos para os bombeiros, que perceberam "ih, a vovó aí é louca", contraíram os ombros e se dirigiram para o caminhão. A partir daí não me lembro mais nada do sonho – acho que foi bem quando acordei.

Ah, não esqueçam de ler o post abaixo, que postei ainda ontem mesmo. Ah, e não esqueçam de colocar seus comentários