Terca-feira, 18 de novembro de 2003

Vou dar uma navegada pela internet, e o que é que sou obrigado a ler? "Real é a moeda mais instável do mundo". Ou algo deve estar acontecendo de terrível nas financas brasileiras que eu ainda nao estava sabendo (resultado das novas negociacoes de uma "Alca light"? ou dos novos diálogos com a uniao européia? ou da incapacidade de comunicacao do governo Lula em relacao ao novo já velho pacote do FMI?) ou o jornalismo brasileiro acaba de dar mais uma demonstracao de seu talento para cozinhar notícias. Ou melhor, descongelar. Tive que me dar o trabalho de ler a matéria. Gente, o que foi isso? A Folha Online virou um microondas jornalístico? Nada de novo tem acontecido nas financas brasileiras para que se colocasse algo de decente on line? Quais serao os novos títulos do Folha Online? "Natal aquece compras no varejo"? "Brasil exige abertura para agropecuários"? "A Terra é redonda"?
Bom, nao vou ficar dando uma de ombudsman, que nao tenho moral para isso. Quero apenas aproveitar a cozinha jornalística brasileira para entrar na cozinha do estado de bem-estar social alemao, que anda dando uns gritos de sufoco por aqui. Primeiro, explico o que é que a cozinha tem a ver com isso.
Roland Koch, ministro-presidente conservador do Estado de Hessen, onde fica Frankfurt, preparou uma receita para corte de gastos sociais (qualquer semelhanca com o Brasil é pura coincidencia, caras Universidades Federais). Koch, em alemao, significa cozinheiro. Além disso, é a raíz do verbo kochen, que significa cozinhar. Dela vem palavras como Kuchen (bolo) e Küche (cozinha). Pois bem, Koch, ou cozinheiro, preparou essa receita economica, e, como já disse em outros dias, os estudantes revidaram com uma greve "al dente".
Na receita, o aumento da carga-horária de funcionários públicos (de 40 para 42 horas semanais), diminuicao do 13° salário para 60% dos ativos e 50% dos inativos e cobranca de taxas para estudantes universitários, que deverao aumentar segundo o tempo de estudo estao inclusos.
Hoje, estudantes, policiais (!!!), bombeiros e demais funcionários públicos foram a Wiesbaden, capital do Estado de Hessen, protestar pelas suas fatias do bolo. Como nao poderia deixar de ser, fui dar uma espionada para tirar umas fotos e contribuir para os números da manifestacao.
O trem de Offenbach Ost para Wiesbaden estava quinze minutos atrasado. Só poderia ser por causa do protesto. Quando entrei, ainda dava para sentar. Quase todos os passageiros estavam indo ao trabalho, com a excecao de uns estudantes que perguntavam uns aos outros se iam ao protesto. Nenhum ia. Que merda de demonstracao seria essa, ora pois? até que o trem chegou na Konstablerwache, centro comercial e estacao onde se faz a baldeacao para o metro que vai ao campus Bockenheimer Warte. Quase todos os passageiros sairam, e o trem foi tomado por estudantes. Chegando na Hauptbahnhof (estacao central) de Frankfurt, a plataforma de embarque estava lotada, no nível da Sé em hora de rush, de pessoas com apitos e placas onde se liam "pare" e "onde Koch aprendeu a calcular?". Os estudantes se espremeram, se espremeram, mas chegou um momento em que nao havia mais espaco para ninguém. Os outros que ficaram e os que ainda vinham tiveram que esperar o próximo trem.
Às vezes o "esquenta" de um protesto é melhor que a coisa em si. Dá para ver a espectativa das pessoas e, pelas conversas, risadinhas e brincadeiras, imaginar o quanto da mobilizacao é séria, ideológica, e o quanto segue os impulsos do fígado e dos testículos. Mas, aqui na Alemanha, as coisas sao um pouco diferentes. Claro que é impossível imaginar que um monte de estudantes politizados presos dentro de uma lata de sardinha fizesse um silencio de monastério, mas ficaram bastante a desejar (eis as minhas expectiativas, malditas expectativas?). Uma patricinha, sentada no colo de uma amiga, exaltava-se no celular diante das expectativas do maior evento social de sua vida. Um com cara de come quieto dormia confortavelmente com a cabeca apoiada na janela. Como nao poderia deixar de ser, um casal de namorados, sentados frente a frente, trocavam carinhos tímidos com as maos, davam um sorrisinho "eu sei no que voce tá pensando" e estalavam um beijinho de casados, com olhos de apaixonados. Atrás, deles, uma loirinha estava tentando se conformar com seu placar descolado do pedaco de pau que o segurava - ah, achei uma fita-crepe, acho que vai dar pra colar... nao, nao deu, merda... E ela ia desajeitadamente se virando, nunca resolvendo seu problema. Pelo menos tentava, o que deveria ser uma contribuicao suficiente para a derrubada dos planos do senior Koch.
Depois de uma viagem de quase uma hora, chegamos em Wiesbaden. Muita gente. Muita gente, mesmo - principalmente se considerando que Hessen nao tem uma populacao enorme como Sao Paulo. Talvez a impressao tenha sido maior do que os fatos, pois a cidade é pequena, nao sendo tao difícil assim ocupar quilometros de ruas.
Primeiro houve uma concentracao em frente à igreja católica, onde vi uma bateria batucando muito bem (o nome era Bateria Infernal), muito brasileiro. Só nao sabia se tinha algum brasileiro lá - nao perguntei. Tirei as minhas fotos, mas nao achei nada de especial. Fiquei de saco cheio e fui comer umas batatas fritas com Curry-Katchup, que era o que havia de mais barato por lá.
Andando pelas ruas de Wiesbaden, que é bem bonita, por sinal, vi um fluxo de gente. Muito estranho, muito estranho, pois alguns carregavam umas cruzes vestidas de uniforme de policial (sim, como se a cruz fosse um cabide - que, certamente, é uma funcao muito mais satisfatória do que enfeite de igreja). Segui até encontrar uma passeata de policiais em protesto contra a receita do Cozinheiro - ou Herr Koch, se assim for melhor dizer. Polícia do outro lado do protesto! Essa é nova. Só consegui me lembrar de quando a polícia se nao me engano soteropolitana entrou em greve, e a mídia e o mundo, em panico.
É preciso antes fazer umas consideracoes sobre a polícia alema. Sim, os alemaes tem problemas com autoridades, principalmente com as que usam legitimadamente a forca. Nao precisamos voltar sessenta anos para tentar entende-lo. Pois bem, pode-se imaginar que os alemae procurem de toda forma negar simbolicamente seu passado - principalmente na polícia. Ao contrário do que acontece em qualquer lugar normal do mundo, os policiais aqui nao poderiam usar uniformes pretos, muuuuito menos marrom. Azul? Também nao, e nao me pergunte por que. Vermelho? A Alemanha Oriental já está bem enterrada pelos investimentos para sua reconstrucao; a "lestalgia" pode ser resumir na saudade de pepinos em conserva comunistas ou de pasta de avela socialista. Sobrou o verde (que combina bastante com o ecochatismo politicamente correto tao caro aos alemaes). Alguém imagina que algo de violento pode vir de um senhor bonachao vestido com um macacao verde, saindo de um furgao igualmente verde, com um Teddy Bear vestido i-den-ti-ca-men-te de verde sobre o painel?
Pois bem, os policiais sairam em protesto. E o mesmo fizeram bombeiros e guardas florestais, com suas trompas e simpáticos cachorrinhos. Uma putaria só. Numa praca, diante de outra igreja, esta evangélica, todos esses funcionários públicos diante de um palco, onde protestos se intercalavam com shows de reggae. Mais tarde, lá foram os estudantes e seus apitos infernais. Como teoricamente os universitários alemaes tem mais dinheiro do que os brasileiros, eles podem comprar mais apitos e outros instrumentozinhos de fazer barulho durante protestos, sem contar com suas plaquetas, faixas e similares. E assim foi indo, e indo a manifestacao. Muita gente, muita gente mesmo. Alunos da Universidade Técnica de Frankfurt, da J.W.Goethe Universität Frankfurt, da Universität Giessen, e assim por diante.
Mas tive que ir embora. Como um bom pelego, fui para uma reuniao do meu grupo da matéria "British Press and the Conflict in Iraq" E deixei o protesto para terminar sem mim?