Quarta-feira, 17 de dezembro de 2003


Pequenas consideracoes sobre a captura de Saddam Hussein
Em novembro de 1990 eu tinha nove anos e gostava de brincar de jornal, principalmente nos domingos, quando havia propagandas da Casa Centro nos cadernos de Política e Economia da Folha de São Paulo. Ficava fascinado em comparar o preço do aspirador de pó Prosdócimo numa semana com o do domingo anterior. Foi nessa época que, entre os desejabilíssimos aparelhos de tocar CD Gradiente e videocassetes de 4 cabeças Panasonic, surgiram uns mapas muito interessantes, com desenhos de aeronaves e torres de extração de petróleo. Depois do programa de TV da Casa Centro, via no telejornal umas imagens noturnas com foguetes esverdiados cruzando os céus. Não me parecia tão interessante quanto os maxiultramegamodernos compartimentos das geladeiras importadas GE, que faziam gelo sem ter que colocar água na forminha. Mas, mesmo assim, me chamavam a atenção, pois não conseguia entender muito bem por que no Brasil, ou pelo menos em São José dos Campos, não havia um céu desses.

Em pouco tempo, um nome comecou a ser repetido. Sadão, Sudão, Sodoma, Saddam, Satã, algo assim. Mesmo que nunca tivesse feito catecismo e desde sempre me apresentasse como ateu, presumia que tivesse algo a ver com pecado. Passei a ver freqüentemente (e com interesse) seu rosto nas páginas jogadas no chão da minha sala. Primeiro achava que ele parecia com os bonequinhos dos Comandos em Ação que meus amigos tinham e minha mãe se recusava a me comprar (principalmente porque eu mesmo não tinha interesse). Tinha aquela coisa de exército, de uniforme, sabe? Tudo muito emocionante, mas, como sempre fui uma crianca bundona, o emocionante não me emocionava.

Nao faltou muito para o Saddam ser reportado como um Satã. Foi quando ouvi falar que ele usava criancinhas como escudo contra bombardeios ocidentais. Achei meio estranho, pois, na minha cabeça, somente a "tia" da escola tinha o poder de controlar grupos de crianças. Muito estranho que um boneco dos Comandos em Ação pudesse fazer isso conosco, crianças. Imginava o Saddam no lugar da "tia" Bebel, batendo palma e chamando os alunos para a sala de aula, reclamando que não sabíamos formar fila direito, dando bronca em mim por eu tentar asfixiar o meu coleguinha João Pedro e falando que, se eu não parasse, iria me mandar para a "tia" Verinha, na coordenadoria educacional (qualquer semelhança com o exército é...).

Mas o tal do Saddam aparecia tantas, mas tantas vezes na televisão, e era um personagem tão, mas tão interessante que eu e meu primo Tiego decidimos usar seu nome como apelido para meu tio Luis Carlos. É verdade que meu tio tinha o cabelo, o bigode, os olhos e o nariz do Saddam (hoje em dia ele não conseguiria entrar nos EUA sem ser revistado e posto em quarentena pela CIA), mas era tão engraçada sua reação quando o chamávamos assim que, mesmo se fosse careca de olhos azuis, daríamos a ele o mesmo apelido.

Doze anos se passaram. Eu estava no meu quarto, em Offenbach, quando a Romy, minha colega de apartamento, me chamou e disse "O Rusin foi pego".
"Como assim?"
"Rusin!"
"O que é Rusin??? Uma cor? Uma fruta exótica? Uma banda pop russa???"
"Não, o RRRRRRusiiiiiiiiiiiin!!! Do Iraque! Pow, pow, boooom, armas atômicas, criancinhas mortas, terroristas. Verstehst du?!"
"Ah, Hussein! O Saddam!"

Dessa vez, o garotão do bigode já era outro. Alám de um comedor de criancinhas, envenenador de curdos e exterminador de iranianos e de cunhados inconvenientes, ele era a bola da vez do cowboy texano na cruzada estadunidense em busca do óleo sagrado e da divina segurança nacional - God save America, durante a corrida "re-eleitoral" no país dos comedores de frango frito em baldes, compradores de ab-shapers e espectadores do ABCNews.

Fui ao quarto da Romy, onde tem televisão, e pedi para assistir às notícias. Por uns dez minutos fiz aquela tradicional zappeada pelos telejornais, tomando cuidado para não vomitar cada vez que eu via a cara calculadamente emocionada de bunda do Paul Bremmer em seu "we got him".

Mas não pude ver muito mais pois minha colega de apartamento se cansou desse papo de política internacional e começou com seu, "ai, olha que feio esse jornalista. Você vai querer ficar como ele, Maurrritsio hein? Vamos assistir a um filme? Não é melhor do que ver esse jornalista que parece que vai dormir? Você vai ficar como ele, né? Maurrrrrrítsio vai ficar como ele!".

Trocamos a cara duende do Dumbush por um filme alemão sobre maconheiros. Basicamente, dois amigos tem um disque-pizza. Detalhe, sob o salame que fica bem no meio da pizza vem um embrulhado de papel alumínio com maconha cultivada por eles mesmos. O primeiro conflito do filme é uma praga que ameaça a plantação. Os dois acabam conhecendo um policial disfarçado de maconheiro que se propõe a ajudá-los. Taí, já se pode imaginar o conflito.

Acredite, há quem compre o DVD desse filme.


Video image of captured former Iraqi leader Saddam Hussein displayed at a news conference in Baghdad – photo taken from the Guardian Website


No dia seguinte, todos os jornais estavam com a já clássica foto do Saddam barbudo. O Saddam Noel para a reeleição do Bush. (detalhe, ao meu lado sentou um cara muito gordo que não deve tomar banho há algumas semanas...)

Aí o Saddam não era mais Saddam, e não faria mais sentido chamar assim o meu tio Luis Carlos. Digo, agora, um bêbado drogado de boca aberta e olhos perdidos jogado nas escadarias da estação ferroviaria central de Frankfurt pode ser chamado de Saddam, mas não meu tio, com seu bigode bem feito e cara de malvado. Já posso até imaginar criancinhas saindo da escola apontando para um mendigo e gritanto ”olha só o Saddam!”.


Um gordo Natal e um bêbado Ano Novo
Estava pensando. Mais um Natal fora de casa. Não que essa data signifique muito para mim, ateu e desiludido por natureza. Mas as pessoas falam tanto do quão terrível é passar o Natal longe de casa que eu começo até a acreditar que possa ser ruim mesmo – tão ruim quanto foi na Inglaterra, quando tive que ouvir as baixarias do parente bêbado do vizinho, o choro das criancas, a briga das mulheres, e, finalmente, o cantar dos pneus do carro que fugia para nunca mais encarar os familiares. Tudo isso enquanto eu tentava dormir na sala de jantar, sobre um colchonete desconfortável (o meu host-fahter privara-me do meu quarto para hospedar um amigo mal-cheiroso com dentes podres).

Mas, como tudo aqui na Alemanha tem sido quase perfeito (fora o meu período de sem-teto e a greve da J. W. Goethe Universität), algo de muito bom aconteceu. Uma colega tcheca, a Alena, convidou os brasileiros à ceia de Natal na casa de seus avós, numa cidade próxima à fronteira alemã.

Isso em si já seria bom. Mas não bastou. O pai dela é algo como presidente de uma acho-que cervejaria importantíssima na terra da cerveja. Isso quer dizer: preparou um barril de cerveja Pilsen só para receber os brasileiros. Tem mais. A mãe da Alena comecou há semana a cozinhar para a ceia. Como se não bastasse, foi providenciado só para nós o apartamento ao lado do de seus avós. Mais um detalhe, haverá carpa no jantar. Mas não simples carpas. Carpas que, segundo uma tradição tcheca, nadarão por um dia na banheira da casa, para que as crianças (leiam-se os brasileiros) possam brincar. Mas isso não poderia ser tudo. Alem do tcheco, o pai dela falar inglês, alemão, russo, francês, e outras línguas; a mãe, francês e alemão, e a irmã, inglês e espanhol. Isso significa que grandes problemas de comunicação não haverá. Terminando, outros convidados internacionais virão dos EUA, o que garantirá bastante assunto para resolver em tempos de guerra contra o "terror".

Depois desse programa familiar, pegaremos um trem para Praga, onde poderei cortar meu cabelo por muito menos do que os EUR15,00 cobrados nos lugares mais baratos de Frankfurt.
Dizem muitos que a capital da República Tcheca é a cidade mais bonita da Europa. Até o momento, no meu ranking se encontra Edimburgo. Se Praga batê-la, já valerá ela sozinha a minha vinda para o velho-mundo. De qualquer forma, se não for tanta coisa assim, pelo menos valerá pelos preços de terceiro-mundo (ai, que saudade que tenho de um bife de boi nesses tempos de carne moída...).

Será também em Praga que encontraremos a Sue e sua irmã Harumi, que estão no momento em Portugal, visitando sua mãe, uma amiga da Harumi que eu não conheço e mais o Augustin, um francês de Lion que sempre anda com os brasileiros. De lá iremos para Berlim, onde passaremos a virada do ano e mais outros três dias.

Os chaveiros teutônicos e as síndicas banguelas
Semana passada fui para a biblioteca do campus IG Farbe só para conhecê-la (normalmente eu vou para a biblioteca municipal, mas essa não é lá aquelas coisas). Pûs minhas coisas no guarda-volumes e fiquei zumzumando pelas salas. Depois, fui para uma aula e, para terminar, fiquei algumas horas no computador. Chegando em casa, tentei abrir a porta. E as chaves?

O problema de morar num lugar frio é que se vestem muitas roupas, e se se vestem muitas roupas também se têm muitos bolsos. Havia deixado as chaves no bolso esquerdo da jaqueta, que, como o bolso direito, não era mais bolso e sim um buraco que dava para seu estofado interno. Procurei dentro da jaqueta. Nada. Nos bolsos da calça. Nada. No bolso interno da jaqueta. Só minha carteira e passaporte. Perdi a chave.

Tudo bem, essa não era a primeira nem seria a última vez que isso acontecia. No dia seguinte, peguei a chave da Romy emprestada para fazer uma cópia. Entrei na pequena loja na Leipzigerstraße, onde se faziam chaves e se consertavam calçados. Um velho alto com cabelo preso um tanto comprido e amarelado me atendeu muito amigavelmente, chamando-me de monsieur. Perguntei quanto custaria para fazer cópias das três chaves – da porta do prédio, da caixa de correio e da porta do apartamento. Enquanto o senhor avaliava as chaves, notei uma série de posteres da Croácia pregados nas paredes encardidas.
"Vinte e cinco euros"

"Como?"

"Vinte e cinco euros pelas três chaves", repetiu o senhor, com um ar de sabedoria de quem domina a técnica digna somente dos iluminados chaveiros de esquina, percebendo que era estrangeiro e não morava há muito na Alemanha.

"Uhm... bom, sendo assim, vou ter que passar no banco... Caras as chaves aqui na Alemanha, não?"

“É, essa daqui é uma chave muito especial. Espera um pouco.” E o senhor começou a comparar a chave com uma série fechaduras estranhas. Enquanto isso, chegou um entregador turco que lhe trouxe um saco de tangerinas. O senhor insistiu que o turco aceitasse uma gorjeta de dois centavos de euro. Quando o entregador foi embora, veio o veredicto: "não posso fazer essa chave. Ela é uma chave de segurança. Para copiar, precisa de uma autorização. Vai custar vinte e cinco euros. Só ela".

Reclamei do preço mais uma vez. A resposta. "Essa chave é muito especial. Vai sair trinta euros. Só ela". Estranho. Ouvi falar de hiperinflação na Alemanha, dessas em que o preço do pão no início da fila é outro que no final. Mas na República de Weimar, pós-Segunda Guerra. Algo havia de errado. Como não poderia ficar sem chaves, mandei copiar as outras duas, que ficaram, só elas, em dez euros e trinta centavos. Enquanto o senhor fazia as chaves (e que atividade mais imbecilmente fácil!), chegou um compatriota croata seu. Os dois começaram a conversar numa língua muito, mas muito estranha, dando pausas, olhando para mim de vez em quando, como se não olhassem. Pela primeira vez senti feito de idiota. Completo idiota.

Chaves prontas, vou lá eu pagar. Dou quinze euros. O troco, quatro e cinqüenta. Se a isso for somado o valor das chaves, dez e trinta, poderá perceber-se que acabei ainda pagando um imposto de vinte centavos pela minha idiotice. Em alguns segundos me subiu um troço estranho. Segurar a cabeça do velho por aquele rabinho e enfiar a cara naquele torno até ele ficar só com um buraco no lugar do nariz, enfiar as duas chaves uma em cada olho e depois, com o indicador e o médio, enfiá-las bem fundo até atingirem os miolos, pegar aquele serrote e partir aquela cabeça em dois, depois jogar a caixa registradora em cima daquele cucoruco bipartido. E deixar uma gorjeta de dois centavos. Acho que foi mais ou menos isso o que tive vontade de fazer com aquele senhor. E como não o fiz, senão já teria sido deportado, respirei fundo e dei um sorriso amarelo de tchau quando o senhor me disse "merci, monsieur". Se eu pudesse converter em ato o que senti com seu civilizado francesismo, Frankfurt teria, depois de 58 anos de reconstrução, voltado às ruínas, a partir da Leipzigerstraße.

Pois então, fui conversar com a Frau Schwalbach, a síndica, para que me desse a autorização para fazer a cópia da chave de segurança. A senhora, de uns sessenta anos, me deu um sorriso banguela e disse que faria isso por mim. Quanto custaria? Doze euros e cinqüenta centavos. Final das contas, vinte e três euros a menos e Frankfurt continua inteira, sem nenhum assassinato de nenhum chaveiro croata da Leipzigerstraße. E a Frau Schwalbach foi um amor de pessoa.

Ontem estava no computador lendo um texto de The Economist sobre o futuro de Saddam. Comecei a brincar com a manga da jaqueta. Algo de estranho dentro dela. Duro. De metal. Não. Não podia ser. As chaves estavam lá. Chequei no bolso da calça. As chaves também estavam lá.

Voltando à culinária nesse post inofensivo
As festas continuam – e agora, não apenas se bebe, mas também se come. E se se come, lá vou eu cozinhar doces brasileiros para fazer uma propaganda nacional que convirta na vinda de futuros turistas cheios de euros nos bolsos ao Brasil – o que eu não faço pelas divisas, oh, divisas... Numa reuniãozinha na casa da Sue fiz uma panquecada com vários recheios e, tchanananã... torta de maracujá. Juro, depois da reação dos que comeram, posso ter absoluta certeza de que pelo menos dois turistas alemães estão garantidos. Depois, em mais uma dessas festas de cozinha no Crusp daqui, fiz uma torta de limão. Por cima, mais uns dez turistas. Juntando àqueles que já tinham comido beijinho, brigadeiro e bolo de cenoura no aniversário da Sue, devo ter pelo menos quinze futuros advogados, médicos, economistas prontos para injetar moeda forte no Brasil, e uma renca de futuros sociólogos que pingarão um pouco de suas economias em algum hotel barato no centro de São Paulo ou em algum camping em Ubatuba. Ó, céus, o que será de nós, estudantes de humanidades...

Bom tenho mais algumas coisas para dizer, mas a sala de computador já está fechando.