Segunda-feira, 17 de novembro de 2003

As coisas aqui estão realmente indo calmas - talvez mais calmas do que eu queria. Já posso dizer que tenho uma rotina, o que não me encanta. Os textos estão começando a atolar no meu armário, sem que eu tenha tempo ou disposição para lê-los. Daqui a pouco já vou ter que entregar os primeiros trabalhos; como vocês podem imaginar, não estou especialmente disposto a fazê-los, mas basta sentar a bunda no computador que as coisas começam a vir à mente; não deve ser tão difícil assim, considerando-se que os professores permitem que sejam feitos em inglês.
Ontem, para fugir de um texto de Francisco de Vitória (de indis recenter inventis et de juri belli hispanorum in barbaros), fui, até que enfim, ao deutsches Filmmuseum, onde havia uma exposição do Akira Kurosawa. A primiera conclusão a que se pode chegar é que não há necessidade de nenhuma exposição de cinema - muito melhor é simplesmente assistir aos filmes. Sim, foi interessante ver fotos do pequeno Akira ao lado de seus pais e seus sete irmãos mais velhos, livros ocidentais que ele lera e que influenciaram sua filmografia, trechos de seus filmes, kimonos vestidos por seus personagens e a reprodução de um quadro de van Gogh utilizado na filmagem de Sonhos. No entanto, no cinema do museu está, no momento, passando uma mostra de filmes russos. E cadê os filmes do Kurosawa? Aí fiquei meio brocoxô e fui ver a mostra permanente do museu - a História do Cinema. Pra quê? Domingo parece ser dia de levar criança para passear - e dá criança chorando porque o coleguinha não a deixou sentar na moviola, e dá criança gritando de felicidade por se ver na telinha deitada num tapete voador sobre os arranha-céus de Frankfurt, e dá criança brigando para mexer nos cinemascópio e dá coleguinha empurrando o outro porque sua vez já demorou por demais, e dá pai brutamontes batendo em criança manhosa e mãe brigando com pai brutamontes e gente olhando feio para a briga do casal e com dó da menina, pendurada pela gola do macacão pelo pai, esperneando com os quatro pequenos membros rebatendo no ar, com a cara vermelha inflamada de tanto chorar. Museu no domingo não é atividade cultural - é prova de resistência.
Então que recedi uma mensagem da Sue, perguntando se eu tinha ido a Darmstadt, como os brasileiros combinaram no dia anterior, quando fizemos um estrogonofe econômico com arroz de saquinho e batata-frita de forno elétrico. Não, não fui porque não fiquei sabendo nem o ponto de encontro nem o horário, pois isso havia sido decidido numa conversa de bar à qual eu não fui, pois estava com dor de cabeça e preferi ficar em casa assistindo pela décima sexta vez ao Trainspotting com a minha colega de appartamento. Não, Sue, não fui para Darmstradt. Vamos para um museu?

Bulatov Sonnenaufgang
E lá fomos para uma mostra que já me interessava há semanas, senão meses: ? a Fábrica de Sonhos do Comunismo?, no Schirn Kunsthalle Frankfurt. Na verdade, serviu bastante para compensar a pressa com que via mostra russa na Oca do Ibirapuera, em São Paulo, 2002. Como estudante de comunicação, o que mais me interessou mesmo foram as peças de propaganda - embora todas as imagens expostas fossem propagandísticas. Não quero ficar aqui analisando (no momento quero é almoçar); o que posso dizer é que pareceu fazer sentido o que a minha colega polonesa Gosia, estudante de sociologia, me fala sempre - no comunismo tudo era muito feio.


Depois, fomos ver uma mostra de desenhos feitos por Paul Klee em 1933, ano conturbado, ano de ascenção nacional-socialista. Achei estranho que o enfoque da exposição fosse exatamente o não engajamento político direto do artista, que, no entanto, considerado degenerado, perdeu seu posto na Academia de Artes de Düsseldorf e teve que emigrar. A tristeza foi que a exposição foi apenas de desenhos, com a exceção de algumas poucas aquarelas?

Sexta-feira-feira, 14 de novembro de 2003

Um colega meu tirou umas fotos aqui de Frankfurt no outono. Se voces tiverem curiosidade, podem checar no http://frankfurt.archigroup.cz/foto/set2/index.htm
Estou com algumas novidades (se bem que nao sei se sao tao novidades assim). Se tudo der certo (e as coisas nem sempre dao), vou passar os dias apos o Natal em Praga, na Republica Tcheca, e o Ano Novo em Berlim, junto com os outros brasileiros que estao estudando aqui na Universidade de Frankfurt. Estou com um pouco de receio do frio - acho que nao tenho casaco suficiente -, mas dou um jeito. O que vale eh viajar.
A minha gripe, ao contrario do comum, foi relampago. Nao posso dizer que estou 100% (muito pelo contrario, minha garganta esta pessima), mas ja melhorei bastante para uma gripe que comecou anteontem. Normalmente passo mais de uma semana podre.