Segunda-feira, 17 de maio de 2004
Um post ranzinza e egocentrico. E há quem tenha saudades!
Trabalho. Trabalho. Trabalho. Perde-se uma gravata no camido de casa, e se vão sete euros – uma hora de trabalho jogada em alguma viela francoforteana. Bom dia, já poderia retirar sua bandeja?, lamento que a comida esteja fria, seu pedido já foi armazenado em nosso sistema e não pode mais ser cancelado, não, senhor, este é um restaurante de auto-serviço, um momento só, que pedirei a meu colega que prepare seu gim-tônica, lamento que tenha demorado, sim, eu falo alemão, despulpe-me se não o entendi, não, lamento, não falo francês, não, não existe refil para o café, desculpe-me, o senhor poderia repetir?, o preço é esse mesmo, lamento, mas não é permitido que se entre com o carrinho dentro do restaurante, sim, senhora Hollmann, sim, Chaki, sim, senhor Gerth, esqueci minha gravata, sim, isso nunca mais vai acontecer.

Pausa. EUR 2,57, purê de batata, salsichão, joelho de porco e chucrute. Vou para a cozinha, passo pelo frigorífico para pegar uma garrafa de Fanta genérica, e me sento na saleta dos trabalhadores, numa cadeira de estofado destruído (na falta de plástico-bolha para estourar, os funcionários aliviam seu tédio arrancando pedacinhos da espuma). Ponho a bandeja sobre as pernas, respiro e penso – vinte e cinco minutos “übrig”.

Na cozinha há um balde enorme de um pó que, cozido com água, transforma-se em purê de batata. Numa chapa de cerca de dois metros quadrados, são fritos ao mesmo tempo cerca de quarenta salsichões de porco. Em uma calderia de um metro de diâmetro, salsichas bávaras reviram-se na água fervente. No forno, umas dezenas de joelho de porco em tamanho padronizado – pois não bastam as salsichas serem idênticas.

Alguém carregou todos esses produtos não cozinhados até o restraurante; alguém operou as máquinas que os cozinharam. Alguém os carregou em forma de comida até os balcões do restaurante; alguém transformou a comida em refeição, servindo em pratos lavados por máquinas operadas por alguém e transportados por mais alguém. Finalmente, lá estava a refeição no meu colo, separada do chucrute, das salsichas, dos joelhos de porco e do purê de batata em estado de latência por uma parede e, por outra, das máquinas onde foi transformada em comida. Atravessei pela porta da cozinha algumas vezes no dia com aquele prato, talheres e bandeja. Trabalhei para mim mesmo. E paguei por isso.

Um colega de trabalho também vem fazer pausa – a pausa do cigarro. O cheiro se mistura com a comida, que já não é boa (na frente de um restaurante na bockenheimer Landstraße há uma plaqueta onde se lê “cozinhamos com muito amor e sem glutamato”; no restaurante onde trabalho cozinhamos com muito glutamato e sem amor). Mas não reclamo - fumar um Marlboro é se dar um minuto de liberdade e esquecer a pressão de clientes mal-humorados e supervisores estressados. Fazer a pausa do cigarro é uma necessidade tão urgente quanto ir ao banheiro, paga com quatro euros em uma máquina no próprio restaurante – normal, light ou ultra. Besta sou eu, que não fumo.

Depois de comer, devolvo com uma ponta de remorço o prato ao lavador de louças. Meu caro colega marroquino de sotaque gutural e humor desértico, costas arqueadas e barriga murcha, é obrigado a lavar minha louça como se eu fosse um cliente. Acho que foi para isso que tive que pagar. “Já fez a pausa?”, “já”, “como está o rítimo hoje”, “tranqüilo... nicht so viel los”.

Bom dia, bom apetite, lamento, mas não podemos dar o troco em dólares americanos, lamento, mas não temos licor de anis, lamento, mas a máquina de capuccino não funciona, por favor se dirija ao balcão em frente, lamento se andar dez metros é demais para o senhor, lamento informar que não temos banheiros aqui dentro, lamento que tenha demorado para preparar suas quatro banana-splits, lamento que a cerveja tenha muita espuma, lamento que o barril de Henninger Pils esteja vazio, lamento que a máquina de refrigerantes não funcione.

Enquanto procuro esculpir um sorriso que classificaria o serviço no restaurante como “razoável” no guia VIP de viagens para jovens profissionais urbanos, meu colega de trabalho exerce sua pretensa tarefa de segundo empregador. A história é a seguinte. Há o bar interno e o externo. O externo funciona com dinheiro e o interno, com comanda eletrônica; dessa forma, somente quem trabalha no externo recebe a gorjeta, que, no entanto, deve ser dividida no final do turno igualmente com quem trabalhou no interno. A moral dos trabalhadores não é uma constante e nenhum dispositivo age como contrangimento para que haja uma divisão correta da gorjeta. O resultado é que, dependendo do colega, o barman interno precisa trabalhar para o barman externo. Nas fraternais palavras do meu caro colega cujo nome faço questão de não memorizar para poder atribuir-lhe simplesmente a alcunha o filho da puta, “eu sou a favor de dar gorjeta para você, mas isso tem que ser uma relação mútua”. Essa relação de trabalho deturpada não é sistematizada, regulamentada nem controlada. Nada garante que, depois de trabalhar para o trabalhador, eu vá receber meu “salário”.

Depois do trabalho, pego o trem. Dez e meia da noite, carrego na mão a gravata, o avental e meu colete de garçom. Chego em casa para lá das onze horas e vejo que a gravata quis ficar pelo caminho de casa.

Definições e pobreza material – a liberdade de quem come sem prato
Definição de garfo segundo o Aurélio: Utensílio de três ou quatro dentes, que faz parte do talher e serve para tirar do prato a comida e levá-la à boca, e também para segurar alguma peça de alimento que se quer cortar. Logo, um garfo com dois ou cinco dentes não é um garfo; e mesmo tendo três ou quatro dentes, não continuará sendo garfo caso não tire comida de um prato, de onde posso concluir que o instrumento de três ou quatro dentes cuja função é tirar uma peça de alimento de um pires ou de uma tigela não é um garfo. Definição de prato - Vaso de louça ou de metal comumente circular, em que se serve a comida - Logo, uma tigela de porcelana é mais prato do que um prato de vidro – dependendo, naturalmente, da definição de louça.

No restaurante, todos os utensílios e produtos estão perfeitamente de acordo com suas definições, e, parando para pensar em tudo o que é vendido lá, chego à conclusão de que os passageiros que passam pelo aeroporto e têm a infelicidade de comer lá partem de sua necessidade básica para simplesmente comprar definições. A comida é ruim, o joelho de porco custa oito euros, mas não se pode reclamar, pois aquele osso com carne de tamanho padronizado é exatamente o que a definição vendida define. Num ambiente sem competição como um aeroporto (em que há o McDonald’s, o restaurante de auto-serviço e o restaurante fino, cada um satisfeito com seu estrato de clientes), é absolutamente desnecessário que a comida tenha gosto. As únicas categorias relevantes são tempo e status social; o sabor é acidente.

Em casa, a história é um pouco diferente. Panela é prato e a colher-de-pau, garfo; enquanto me dou o trabalho de redefinir meus utensílios domésticos segundo minhas prioridades econômicas, brinco de criador. Ao cozinhar, relaciono-me de forma animista com meus poucos ingredientes comprados no supermercado de descontos. Brigo com o creme de leite, que não consegue definir sua personalidade de chanilly ou de creme; curto minhas batatas teimosas, tentando convencê-las a dar o ponto junto com os pimentões (se elas decidem amolecer antes deles, não há volta; o que posso fazer numa panelada com pimentões duros que nem fizeram água enquanto que as batatas já estão todas chochas? Não há tempo nem que as azeitonas abandonem sua timidez!). Mas a comida em minhas mãos tendem a se comportar muito bem; a pesar dessa teimosia toda, o que ela quer mesmo é ser comida – e bem.

Quando cozinho para amigos, perguntam-me qual é o prato. Nunca sei responder. Como definir uma panelada de ingredientes rebeldes, às vezes promíscuos, às vezes anti-sociais, que, embora os mesmos, dão a cada vez um resultado diferente? Como definir as panquecas pansexuais mutantes, as macarronadas de resto de geladeira?

Se tivesse talheres e louça para sopa, entrada, prato principal, sobremesa, copos para licor, água, vinho tinto, vinho seco, leite, suco, vitamina, milk-shake (por enquanto tenho que tomar café em canecão de cerveja), minhas panquecas entrariam em greve de sexo e o Porto se faria de viuva lusitana perdido em saudades do chocolate quente.