Segunda-feira, 16 de fevereiro de 2004

Um post sobre coxinhas e discos voadores
Minha viagem aqui na Alemanha já se transformou num roteiro gastronômico ironicamente brasileiro. Depois dos bolos de cenoura, dos beijinhos e brigadeiros, tive que completar a lista de snacks de aniversário, voltando-me aos salgadinhos. Sim, coxinha, pão de queijo e as malditas bolinhas de queijo, traduzindo para o alemão, Käsebällchen, que acabou soando tão bem (quêze-bélchen) que nem mais falo bolinha de queijo. Afinal das contas, três palavras para um salgadinho daqueles não se justificam.

Foi no apartamento da Patrícia, uma brasileira filha de alemães que estudou no Porto Seguro e no Humboldt, mudou para Hamburgo para fazer o Abitur (último ano de colegial), depois para Heidelberg, para iniciar os estudos em Direito, mais tarde para a Espanha, para fazer um intercâmbio como o que faço agora, e, finalmente, para Frankfurt, para terminar os estudos. Repeti tantos “para” para dizer que ela rodou muito, muito, mas continua com a cabeça no Brasil. Essas férias vai passar em casa, sul da cidade de São Paulo, e, para comemorá-lo (o para de novo), fizemos uma noite de salgadinhos. Receita na internet, visita ao mercado para comprar polvilho do Brasil, e lá estávamos nós cozinhando o frango com cebola, alho e cheiro verde, misturando com as mãos aquela massa grudenta do pão de queijo, enrolando as Käsebällchen sem realmente ter idéia se fazíamos corretamente alguma coisa sequer. Resumindo, a república da Patrícia virou uma casa de vó, embora não tivéssemos o know-how culinário de uma.

“Uhm... acho que a massa de pão de queijo não era para ficar bem assim...”, eu, desesperado, sovando uma pasta líquida com que deveria fazer bolinhas consistentes. A massa parecia ter vida própria; subia a minha mão até alcançar meu relógio, respingava no chão, enfim, parecia rir de mim e de minha prepotência de quem acha ter controle sobre todos os ingredientes do mundo. Aliás, desde o dia em que consegui fazer crepes sem leite, achava que nunca mais eu perderia nenhuma batalha contra a comida. Pois bem, e lá estava a massa com aquela consistência arrogante de “não, de mim você nunca vai conseguir fazer bolinhas”. Tentei utilizar a minha técnica das duas colheres, que aprendi com minha já falecida amiga Maria Lúcia, diretora de teatro, mas, antes de tudo, diretora de fogão, para fazer bolinhas de sei-lá-o-quê para sopa de manteiga. De nada adiantou; meus pães de queijo mais pareciam discos voadores (while my eyes go looking for flying saucers in the sky...). Ah, também teve que a história do gosto, que não era bem assim por dizer de pão de queijo. “Ah, parece essas coisas light”, disse a Patrícia, com um jeito de ‘uhm, não está tão mau assim...’ Olhei para ela com a cara de ponto de exclamação torto, mas tão torto que mais parecia de interrogação. E ela completou, “ah, mas eu gosto de coisa light”.

Se o lado mineiro da cozinha ia mal, pelo menos as coxinhas e as Käsebällchen deviam estar caminhando bem. Pois bem, a Patrícia, meio perdida nas medidas de farinha, soltou um meio que “ai, acho que não era para ficar bem assim”. É, a massa da coxinha... (aliás, a mesma das bolinhas de queijo). Eis, além da temperatura da cerveja, o que determina se um boteco é bom ou não. Como meu know-how era so far somente degustativo, sabia antes classificá-la antes entre:

a) pastosa (como a da dona Hermínia) – geralmente de cor levemente acinzentada, tendo como variantes de textura a consistência (se é dura como a da dona Hermínia ou mole com o da Ofner) e a liga (se é mais ou menos melequenta; seu extremo são aquelas que grudam até no céu da boca);

b) batatenta (como a da lojinha de pesca na Regis Bittencourt, a cerca de uma hora de São Paulo em direção Curitiba) – clara, com pouca liga, bastante leve, quase lembrando croquete de batata, mas deveras sem graça; seu grande segredo é na fritura, pois, devido a sua delicadeza, estoura muito facilmente, e, por ser muito porosa, freqüentemete se encharca de óleo no nível do não comestível.

E eis que, com a mão na massa, descubro uma nova classificação – a da pãozenta. Sério. Depois de fritas (e a fritura foi um capítulo à parte, com uma espuma revolucionária do além que ameaçava fugir da panela e tomar o fogão inteiro), a coxinha e o Käsebällchen ficaram com uma massa de pão sem fermento. Fiquei pensando na receita, que sempre acreditei conter batata (e, estranhamente, a batata foi parar na do pão de queijo). Mas, pelo meu raciocínio, somente na massa batatenta vai batata, pois na pastosa é necessário uma liga que apenas a farinha proporciona. Pois então, não havia batata naquela receita; era simplesmente farinha, leite e a água em que o frango foi fervido. Bastava misturar e já montar com o frango ou com os cubinhos de queijo (que, aliás, foi Butterkäse ao invés de parmesão, o que, naturalmente, rendeu conseqüências relevantes). Mas a massa estava muito estranha. Tentei resolver sovando-a e adicionando mais e mais leite. Besteira minha; acho que a consistência errada acabou se dando pelo tanto que a sovei.

Para o pequeno coquetel de início de férias estavam presentes o Michele, estudante de Direito de Milão, a Anna com o namorado, ambos brasileiros, e a Stefanie, colega alemã da Patrícia. Até que tudo acabou dando relativamente certo, mas, se por um lado temo que os brasileiros tenham se decepcionado um tanto com os discos-voadores-de-queijo e coxinhas e Käsebällchen pãezentas, por outro os estrangeiros tiveram uma idéia meio errada de nossa culinária de boteco.

Your country is bullshit. Bullshit.
Depois dessa fritura toda, estava cheirando mais do que restaurante chinês. Mas não importa, antes o aroma de Óleo Liza do que a natural catinga de inverno dos casacos não lavados em corpos que se banham só sábado. E lá fui para a festa de aniversário da Gosia, uma colega polonesa que estuda sociologia e que está para escrever seu trabalho de magistrado sobre judeus durante o holocausto. Uma adornete assumida, que sonha Minima Moralia e come Dialética do Esclarecimento; talvez também seja uma habermete, mas minha capacidade intelectual não é suficiente para sabê-lo. Muito bem, vários intercambistas que vi durante todo esse semestre estavam lá; tudo muito bem, muito feliz; rodinha de dança com holandês, polonês, alemão e iraniano de mãos dadas dando saltinhos e batendo pé ao som de música judaica, francesas cochichando sobre o amor pelo alemão de pai egípcio, argentino nos carinhos com a italiana, alemã quase caindo nos colos do frances, mal tendo se recuperado do fora do mesmo alemão de pai egípcio. Encontrei com o Lukáš e começamos a discutir nossas conclusões sobre “Os Sonhadores”, de Bertolucci, e, conseqüentemente, sobre a agitação de 1968 em Paris – segundo ele, não teria havido revolução alguma; já eu acreditava que, em termos culturais, maio de 1968 tivesse sido, sim, uma revolução. Mas e o conservadorismo atual? E não teriam antes acontecido as mudanças culturais que em 1968 só passaram a ser mediatizadas (ponto de vista que não aceitei de forma alguma)?. E assim foram as conversas até que o Lukáš tivesse que ir embora estudar. E procurei algum outro grupinho para conversar. Mas me senti muito estranho – de certo ainda pensava nas coxinhas e no pão de queijo. Aquela sensação recorrente de estar num filme sem que o diretor tenha dado um papel para mim.

Não agüentei e fui embora para outra festa, no Café Koz (Café des Kommunikationzentrums, que, abreviado, soa “café vômito”). Lá estavam a Patrícia e o Michele sentados num palco, pouco entusiasmados com a música sempre ruim das Aldi-Party (algo como “Festa do Supermercado Barateiro”, organizada pelo Diretório Central dos Estudantes, oferecendo a cerveja mais barata da cidade). “Ai, e aí? Como estava a festa?”, “uhm... sei lá... mais ou menos...”, “ai, nem imaginava que você viria”, “ah, sempre trago surpresas”. E assim foi indo a festa. A italiana “bela Isabella” estava sapequíssima, o francês Augustin parecia ter tomado suas, e assim iam as coisas.

Mas algo deveria ter acontecido, senão não perderia meu tempo em frente ao computador enquanto poderia ficar em casa comendo arroz doce com canela e mel, lendo “O Monte Mágico”, ajuntando louça para depois lavar, produzindo lixo para depois depositá-lo nos contêineres na entrada do prédio. Um indiano, colega de alojamento da Isabella e tutor da Patrícia, chegou para mim e disse eu ter cara de algo que aqui não publicaria em respeito ao pudor de meus caros não-leitores. Respondi que não. E ele disse que eu era isso. Eu respondi que não. E ficou nesse pingue-pongue até me perguntar em inglês, “where are you from?”, “Brazil”, “Brazil? Your country is bullshit. A lot of bullshit”. Fiquei sem reação. “It’s where girls are prostituted and little boys sniff glue. And your government does nothing against it. I tell you. Your country is a lot of shit. That’s what your country is. A big bullshit country”. E eu não soube como reagir. Não saber como reagir não quer dizer, naturalmente, não saber reagir. Se eu não soubesse reagir, teria dado uns tabefes na cara do moço. Mas não, isso seria baixaria demais para mim, primeiro porque não se bate em bêbado – não se lembraria por que apanhou, o que prova ser um método educativo pouco eficiente. Segundo, porque sou pacífico e fisicamente fraco demais. Terceiro, porque eu até que prezo o meu visto, e ser deportado não seria o melhor programa do momento, mesmo que fosse para voltar para casa em pleno Carnaval. Quarto, porque realmente garotas são prostituídas, garotos cheiram cola e o governo brasileiro não parece fazer muito contra – para nossa polícia, basta dar uma coça nas crianças de vez em quando, se elas andarem brincando com o princípio da propriedade privada (de qualquer forma, a polícia parece já estar ocupada demais plantando provas em seus cadáveres inocentes à moda da Rota). Então ele disse ser da Anista Internacional. Que no Brasil as pessoas gastam fortunas com futebol enquanto as crianças se drogam e se prostituem. E, de novo, que meu país era um monte de bosta de touro. Tentei ser racional, falando que não poderia julgar o país inteiro “bullshit”, que isso implicaria julgar não apenas parte de um governo, ou certas instituições ou grupos, mas também nossa identidade, todos que se sentem brasileiros ou que, por sorte ou por azar, nasceram no Brasil, e tudo o que se produz como cultura brasileira (peloamordedeus, onde há merda na coxinha e nas Águas de Março?). Mas eu mesmo não acreditava muito no que dizia. Nunca me importou muito minha nacionalidade; vivo em uma época em que sistemas nacionais são ultrapassados e identidades se constróem livres em torno de objetos (assuntos), e não cercadas por fronteiras sem um assunto. Não vejo nada mais pateticamente artificial e autoritário do que a luta para construir uma identidade nacional; é como dizer para uma estopa “agora você não é uma estopa, mas sim o Computer Wiper, e poderá só e somente só limpar telas de monitores de cristal líquido, e só e somente só acompanhado do Sky-Bright-Screen-Cleaner-for-Computer-Wiper, ficando proibida a possibilidade de ser utilizada como pavio de lamparinas ou como esfregão para lavar carros”. A contingência eliminando contingências, fazendo-se de necessidade. Meu tempo, ao contrário, é o tempo em que se acha uma estopa e pessoas se reúnem em torno dela, transformando-a em travesseiro, em roupa, em papel, em pavio de lamparina, em esfregão para lavar carros, em objeto de filme pornô (???), e, é verdade, até em Computer Wiper acompanhado do Sky-Bright-Screen-Cleaner-for-Computer-Wiper. E o que é que eu, sempre crente disso, fazia defendendo a idéia de Brasil, de cultura brasileira, de povo brasileiro, no calor patriótico de Brasil, ame-o ou deixe-o? Na Alemanha?

Tentei espelhar o que ele dizia. Se o Brasil, com suas meninas prostituídas, meninos drogados e polícia corrupta era “bullshit”, o que dizer de um país em que vigora um sistema de castas? Nada adiantou nessa discussão alcoolizada. “My country (India) is also bullshit. It’s bullshit because we build six atom bombs while people are starving. My country is bullshit and your country is bullshit as well. In your country people are starving and dieing, and what do you do? So what do you do?” Fiquei calado. O que é que eu faço contra o que acontece de injusto em meu país? Não sei. Talvez nada. Falar em jornalismo comunitário na favela São Remo vale? Conversar com crianças de rua, tirar suas fotos e entregar-lhes vale? Participar do Fórum Social Mundial vale? Esse tipo de (pouca) coisa que fiz realmente vale? Não acredito. Contibuição compulsória em laboratório de faculdade, discussão pura em Porto Alegre e protesto na Paulista valem pouco. É preciso pôr a mão na massa (e eis que vem o filme “Os Sonhadores” de novo na minha cabeça). Quando fui tirar umas fotos em um prédio ocupado pelo MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro), planejei contribuir em oficinas de redação ou de línguas estrangeiras que o movimento construía. No entanto, um mês depois mudei para a Alemanha. Nada fiz. E, aqui, continuo não fazendo – e não me diga que engrossar os protestos contra as taxas de estudo na Alemanha é uma contribuição.

A discussão terminou com um aperto de mão do indiano, “you have your opinion, I have mine. Brazil is bullshit, don’t get it personally. All I want is to open your eyes”. Nada se resolveu, nada se comunicou. Como se eu não soubesse, como se eu não visse a violação de direitos humanos todo dia em que estive no Brasil. Tudo o que restou dessa conversa foi minha irritação por ver que tenho restos de patriotismo irracional, que sou contradições e impotência.