Segunda-feira, 15 de março de 2004

Sim. É de verdade. Dá medo. Não adianta procurar sentido.
voltando ao normal
Sexta-feira havia escrito um post enorme; no entanto, houve um problema na rede e tudo foi perdido. Não há problema; sem lamentar muito de minha má sorte, faço tudo de novo.
Já estava cansado dessas minhas férias prolongadas em que grande maioria dos intercambistas haviam voltado para casa. A Sue estava presa em fantasias-cliché e outras categorias dos estudos mediáticos que a impediam de curtir a realidade comigo, os outros brasileiros ou já se afundavam em suas provas ou recebiam em casa colegas francesas que decidiram dar um pulo em terras tropicais. Má sorte deles de encararem as provas, má sorte delas de encararem as chuvas que andam engolindo criança em bueiros de Fortaleza. Meu ócio literário, que já me cansava, não devia ser tão ruim assim; só precisava de uma pausa para que eu não perdesse a noção de que existe um mundo além da minha cama, meus livros e minha cozinha. O Augustin, intercambista de Lion, mandou-me uma mensagem no celular. Pronto; iria ao Jazzkeller.
A primeira vez que fui convidado para lá foi por duas amigas irlandesas, Niahm (lê-se Niv) e Ashlyn, mas, como sabia que lá estariam reunidos os ingleses e americanos com quem nunca tive muito contato – e que pareciam não querer ir muito além de seus mundos estranhos povoados por comedores de, por um lado, fish and chips e, por outro, qualquer coisa grande e gordurosa –, acabei deixando para uma próxima. Mesmo depois de ter mora um ano na Inglaterra (ou exatamente por isso), continuo achando muito suspeitos alguns hábitos de povos que tomam cerveja chocha em copos de 473,18ml em malcheirosos bares encarpetados que se insistem em chamar de “casa pública” (daí “pub”, apelido de mau gosto que mais me remete a pubi-, e, assim, a pubiano - o que não deixa de combinar com o ambiente de alguns desses estabelecimentos, a despeito de sua assexuada decoração vitoriana).
E chegou essa próxima oportunidade de ir ao Jazzkeller, traduzido, o Porão do Jazz. Perdendo-se em vielas atrás da Zeil, o calçadão do centro francoforteano dominado pela arquitetura sem vida do pós-guerra, não se imagina que, empurrando uma porta destrancada entre outras de escritórios absolutamente desinteressantes, pode-se encontrar uma escada estreita e tortuosa que regressa decadas a cada degrau até chegar a uma recepcionista sorridente num balcão mínimo improvisado com uma madeira velha, separando com seu “guten Nacht; vier Euro, bitte” o visitante das paredes de 250 anos dum porão onde desde 1952 acontece o que há de melhor do Jazz na Alemanha. Se foi necessária uma frase tão longa para chegar aqui, e mais, se me dei o trabalho de escrevê-la, foi porque valeu a pena.
Nos quatro anos em que estive divorciado do meu piano, tentei também me divorciar da música – pois, não podendo fazê-la, simplesmente ouvi-la levaria a me questionar por que escolhi ser jornalista e não músico, por que permiti que minha mão atrofiasse e pudesse apenas digitar textos no computador. Não conseguiria agüentar essa constante provação sem ter respostas nem convicções. Tinha que esquecer. No entanto, quando se estuda música desde os cinco anos, aprende-se a mais ouvir do que exergar ou entender o mundo. O pensamento se estrutura de uma forma distinta, que leva a abstrair o conteúdo do falado para entender, através da entonação de voz, apenas a forma como se fala, e, daí, emoções, intensões, fraqueza, segurança, autoridade. Transpõe-se do enunciado à enunciação. Por outro lado, o músico se encontra em complicações na hora de se expressar, pois seu pensamento, mistura de matemática e sentimento, não se satisfaz com o mundo simbólico das palavras, tão limitado, tão regrado, tão repetitivo, tão generalizado para poder transmitir uma idéia única, coberta por uma aura de complexidade, irreprodutível com os jogos de representação dos símbolos, de “o significante ‘mesa’ é toda mesa do mundo e nenhuma ao mesmo tempo concretamente nenhuma mesa em específico no mundo”. Mas creio que, embora não me considere um bom orador, e às vezes tenha vontade de só dizer bãã o resto da vida, consegui encaixar-me nesse mundo de recortes e colagens que é o das palavras – e de tal forma que procuro conhecer outras e outras línguas, na procura de poder trocar significados com o máximo de pessoas possível. Um máximo que, no entanto, com sua falta de significado, só a música encontraria. Mais acultural que ela, só o sexo, a fome e a morte.
Desculpem-me pela retórica. De vez em quando isso tudo parece ser verdade
Eu eu o Augustin pagamos nossos quatro Euros cada, pois a música é de graça mas o aluguel do porão, não – afinal das contas, até bemfeitores como donos estabelecimentos de música são abusados por esses seres desalmados detentores e exploradores da propriedade privada chamados locadores (eis que formulo minha equação do Bem e do Mal e ponho aqui minha justificativa para minha guerra contra o terror imobiliário; procuro ainda um pretexto para minha ação, e creio que será a posse de armas de destruição em massa por parte dos locadores). Ao entrarmos, a música se abriu, e o som abafado atrás da porta brilhou no rasgo de um trompete muito do autoconfiante. A primeira vista do palco era lateral, e só se podia ver a calda do piano tocado por alguém atrás de uma pilastra, o contrabaixista abraçado no instrumento mais alto que ele, e o baterista. Fomos ao balcão pegar uma cerveja, “zweimal Pils vom Fass, bitte”, euros numa direção, copos de cevada gelada noutra, brinde “saúde”, “saúde”, e, quando vejo, já de frente para o palco, o trompetista retoma o tema da música, após as improvisações de cada um dos instrumentistas, finalizando a participação do grupo nessa jam session. Descem do palco, voltam para sua mesinha ao lado, onde outros colegas da faculdade de música esperam-nos, apontando para algum detalhe num maço de folhas com pentagramas rascunhados – talvez uma harmonização mal resolvida, uma dissonância questionável que um considerava a fruta cristalizada de seu panetone enquanto que os outros não eram muito afeitos às frutas cristalizadas nem a uvas passas. Voltei a olhar ao balcão. Um senhor com aquela cara de Gilberto Dimenstein vestia uma jaqueta verde-amarela com bandeira brasileira mal-desenhada (como se me provou qualquer bandeira brasileira em qualquer jaqueta verde-amarela desde o horror hasteado nos jogos panamericanos em Santo Domingo). Foi conversar com a atendente na entrada. “Acho que o homem é brasileiro”, comentei com o Augustin. “Pergunta, então”, respondeu. Essa história de chegar nas pessoas perguntando se é brasileiro é divertida no início do intercâmbio; porém, chega um momento que cansa. Não é criativo e dá como pressuposto de que o simples fato de ter nascido no Brasil já deveria ser motivo para abrir uma conversa. Nem sempre é verdade; já tive conversas indescritivelmente enfadonhas que tiveram esse início. Pois bem, há momentos em que a falta de criatividade e a vontade de conhecer gente nova é maior do que nossos critérios. Fomos lá e soltei o meu “sind Sie brasilianer?”, de função tão fática como um “oi, tudo bem?”. “Não, mas tem um monte de brasileiro aqui”. E assim começou a conversa. Junto estava também um senhor que reconheci como sendo dono do lugar (ou, pelo menos, parecia se sentir tão à vontade como um dono, efeito facilmente atribuído ao álcool – e ao bom Jazz). Conversamos até que acabassem nossos copos; na verdade, acabar os copos serviu mais de pretexto para sair da conversa, pois a memória jazzística dos senhores já ultrapassava o meu entendimento, e, entre a futura passagem de Brian Lynch nos palcos Jazzkellersísticos e a possibilidade de conhecer mais gente, fiquei com a segunda.
“Noch einmal; nein, ein Franziskaner, bitte”. E com a meu copo de cerveja de trigo na mão, ouvi um grupo falando ora em português, ora em alemão. De novo “vocês são brasileiras?” (oh, Deus, se o Senhor existisse, poderia me iluminar com novas formas de abordar pessoas, e eu seria tão grato que poderia até me esforçar a acreditar n’O Senhor). “Sim, somos”. Bom, a pergunta que eu, como observador distante faria seria “sim, e daí?”. Mas, como nem todas as pessoas no mundo são tão arrogantes e mal-humoradas como eu, as brasileiras foram muito simpáticas. E tão simpático foi o namorado de uma delas, alemão guitarrista apaixonado “pelo música brrazileirrro”. “Eu vou viajar para Brasil, ficar quatro semanas”, “ah, que bom. E vai ficar onde?”, “Rio de Janeiro. Eu vou para estudar a música; eu vou procurar entrar em contato com HHHHHHHerrrrrmeto Pascooooooal. Dizem que ele é o Miles Davis de Brasil. Não o estilo, mas é bom como o Miles Davis”. E continuou a conversa. Com ele e com as brasileiras, no que ficou provado, demonstrado, certificado que a brasileira tem um quê que não dá para explicar – um balanço do jeito até de olhar, e Vinícius estava certo em quase tudo. O que quer dizer que, no entanto, nem toda brasileira é uma legítima brasileira. E mais. Que, na prática, poucas são as brasileiras, mesmo entre as brasileiras, e que há brasileiras entre as que não são brasileiras. Logo, as brasileiras não são brasileiras, mas sim uma confusão absoluta que nega toda a teoria dos conjuntos, e delas mesmas não são contidas nem continentes, muito menos elas próprias. E, depois de empiricamente saber que a brasileira tem um quê que não dá para explicar, e acreditar que isso foi provado, demonstrado e certificado e em seguida provar, demonstrar e certificar que tudo isso não se passa de um grande absurdo, chega-se à conclusão de que a brasileira não faz sentido, e o jeito da brasileira é feito a música. Ave!
Considerando que ignoro limites nacionais (e, se valesse a pena, queimaria seus símbolos, mas, não valendo, basto-me em não decorar o hino), tiro a palavra “brasileira” de tudo isso, e fica tudo assim: as moças com quem conversei eram muito carismáticas.
Acabou que conheci uma cantora brasileira (que, por sua vez não era tão carismática como as moças carismáticas com quem conversei) e fui convidado para uma apresentação sua em Junho, ouvi o guitarrista alemão no palco – e o moço tocava muito bem -, troquei telefones com quem foi possível, e fiquei de emprestar uns CDs para o guitarrista: Hermeto Pascoal (Zabumbê-bum-á), Maria Rita, Nenê (Suíte Curral del Rey), Duo Barbieri e Schneider (no Caraça), Yamandú Costa e Garoto. Sábado entreguei-lhos.
E o que tudo isso tem de tão interessante? Foi essa quarta-feira nos porões centenários por onde passaram Louis Armstrong, Stan Getz e Ella Fitzgerald que dei a minha maior olhada para trás nos tempos em que tocava piano e acreditava um dia tornar-me um músico de alguma decência. Na moradia estudantil para onde mudarei provavelmente haverá um piano para treinar e voltar um pouco a esse tempo. Da decência musical já desisti, e procurarei fazer o melhor com a mediocridade. Ah, ares frescos, já é quase primavera e parece que acredito em projetos. Continuarei na fraqueza do que procura ciscar um pouco de tudo (e espero acabar na área audiovisual, talvez como documentarista, para que possa pôr em prática essa ciscadeira toda) e voltarei sempre a desacreditar em meus projetos, pois há tanto de interessante por conhecer que eles só me serviriam de amarras.
E que eu faça de conta a mim mesmo de que não o escrevi, senão me sentirei forçado a segui-lo, e, falando em amarras, nada me servidia de maiores amarras do que um texto publicado, ainda que num blog. Como diria uma certa pessoa muito conhecida no Brasil e que por vários anos teve um poder ao qual não me daria a indecência de me jogar, “esqueçam tudo o que escrevi”.
para refrescar (e esquecer tudo o que escrevi...)
Bom, como sei que o que se mais quer ao entrar em um blog não é exatamente ver comentários sobre filmes que não serão distribuídos no Brasil nem descrições de velhas loucas no metrô (e muito menos crises de um ex-pianeiro saudosista), mas sim saber da vida dos outros, aqui vão algumas fotos da câmera da minha colega Sue, tiradas quando o caro imperador Napoleão invadiu Francoforte e caminhou junto a seus presos de guerra em direção a Colônia. Sim, fotos, porque assim não é necessário nem se dar o trabalho de ler.

Luíza, a Czarina, Maurício Horta, isto é, eu, e Angelika Serra, mais conhecida como Sue, todos os abundantes três diante da Catedral de Colônia, sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, em frente da qual simpáticos turistas bêbados que acabaram de chegar na estação de trem fazem um esquenta para maior carnaval da Alemanha. Sei que é contagiante a simpatia de meu olhar nessa foto.

Angelika Serra expõe a decadência do movimento estudantil mundial nessa homenagem capitalista à Estátua da Liberdade. Esse olhar de esperança seria mais expressivo, com um peso de luto, se os aviões do “Mal” tivessem acertado a Moça da tocha de pedra ao invés das torres gêmeas.

Reparem como os bancos dos trens alemães são bonitos, com seus quadradinhos azul-escuro. Imagine o estado desse trem de tao belos bancos quando ia em direcao a Colônia, em pleno carnaval.
Ah. Perdões, mil perdões, pois sei que sou um mestre de cometer erros ortográficos. Minha mãe, que era professora de Português, já deu suas broncas... mas não tem jeito: acostumei-me com o corretor ortográfico do Word; fiquei um semi-analfabeto e agora que só tenho corretor em alemão, não tenho como escondê-lo. Agora, só me resta admitir.