Terça-feira, 14 de outubro de 2003
Hoje conversei com o Ciro. Tudo muito tranqüilo, sobre o como as coisas aqui estão indo. Estive pensando que tudo vai ser muito mais fácil para os próximos intercambistas, que já saberão o que terão que fazer para conseguir um apartamento.
Bom, dei uma olhada no blog do Napoleão. Fiquei bastante impressionado com a carga de trabalho dele. Para ele dizer que tem coisa demais para estudar, deve realmente estar atolado. Como as minhas aulas ainda não começaram, não sei bem o quão pesado vai ser estudar aqui, mas no momento parece que tudo será tranqüilo; se isso é bom ou não, não sei.
Agora um pouco sobre o prédio onde estou. Bom este é o campus Westend, mais conhecido como IG-Farbe. Sim, provavelmente você já deve ter ouvido essa expressão em alguma aula de História ou em algum livro sobre a Alemanha nazista. IG-Farbe, hoje dividida em Bayer, BASF e Höchst, foi a indústria química que produziu o gás Cyclon-B, utilizado para o extermínio em massa em campos de concentração; ela também utilizou humanos como cobaia no desenvolvimento de seus produtos. O prédio onde se incontra a maioria dos departamentos de humanidades da J.W.Goethe Universität é a antiga sede da IG-Farbe. Depois da Segunda Guerra Mundial, a construção tornou-se o quartel general do Exército Americano. Provavelmente a escolha tenha sido feita devido a sua arquitetura funcionalista, mas, de qualquer forma, sua ocupação não deixou de ter uma carga simbólica considerável de ruptura e vigilância. Em 1995, o prédio foi devolvido aos alemães, que transferiram para ele a maior parte dos departamentos de humanidades da J.W.Goethe Universität.
Segundo uma colega de apartamento (a filósofa feminista comunista), há uma tentativa por parte da reitoria de apagar a história do prédio, com a lenta e progressiva de mudança do nome IG-Farbe para o de seu arquiteto, Hans Poelzig, - e essa troca já teria sido feita em documentos publicados pelo reitor. No entanto, logo na entrada do prédio há uma placa onde se lê que um povo não pode ser separado de sua História. Este lema tem movido os estudantes a lutar pela manutenção do nome do prédio.
Este é só um exemplo de como a História, mais especificamente a Segunda Guerra Mundial, ainda permeia a vida do europeu. Quando morei na Inglaterra, já tinha ficado impressionado com como a relação dos ingleses com os outros europeus era influenciada pelas grandes guerras do século passado, mas nada disso poderia se comparar com o que ocorre aqui na Alemanha, o que já era de se esperar. A cidade de Frankfurt é exemplar. Em 1945 estava absolutamente destruída. De sua região central não sobrou muito mais que a fachada da prefeitura. Tudo teve que ser reconstruído, e na maior parte em um estilo monótono, sem fidelidade alguma com o que foi destruído. Atualmente, a cidade é um mostruoso mostruário de pós-modernices de vidro e metal alternado pelo concreto dos anos 60 e 70. A Alemanha é um país amputado. Sua paisagem urbana parece apontar para seus moradores dizendo "nunca mais", e seus moradores parecem envergonhar-se de si mesmos, querendo romper com o passado, como se as gerações anteriores nada tivessem a ver com eles.
Os banheiros do prédio de Ciências Sociais talvez sejam a melhor representação do que sentem os jovens alemães. A pixação mais comum é "fora nazistas". Esse parece ser um mantra dos mictórios e privadas, mesmo que seja tão difícil encontrar um sequer nazista aqui. Adesivos de manifestação anti-nazista estão colados nos elevadores e corredores de toda a universidade, mas não há uma pixação nazista sequer em nenhuma estação de trem na periferia.
Já o tema sionismo encontra menos consenso nos banheiros universitários. Os alemães se encontram numa posição mais delicada na hora de se opor ao Estado de Israel e sua postura no Oriente Médio. O alemão parece temer as fronteiras entre anti-semitismo e anti-sionismo; ao "vida longa a Israel" contrapõe-se um tímido "fora Sharon". E se houver uma pixação mais ousada, certamente ao seu lado estará estampado um "fora nazistas"?
Mas isso são apenas considerações de banheiro, observações entre uma mijada e outra. Talvez os alemães não pensem como eu imagino - afinal nem todo mundo pensa como os que se expressam na porta da privada.
Por falar em porta de privada, lembrei de um trabalho do Instituto de Psicologia da USP sobre mensagens de banheiro. Queria marcar algumas diferenças entre tais pixações no Brasil e na Alemanha. Primeiro, na universidade, as mensagens são todas de cunho politico, com até hoje uma única exceção (e essa era um pequeno texto pregado na porta relatando as prendas sexuais de ninfomaníaca; sim, lá estava também seu telefone). Os temas são, em ordem de freqüência, antinazismo, sionismo/anti-sionismo e socialismo/comunismo (pouquíssimo). "Foda-se o reitor" contabilizou uma solitária pixação, o que mostra ou que os alemães estão acostumados a aceitar autoridade ou que seu reitor conta com uma popularidade um tanto mais forte do que a do nosso caro Melfi.
Já os usuários de banheiros em ferroviárias não apresentam o mesmo nível de consciência política. As mensagens não costumam subir além da "linha do Equador". Ganham quantativamete as mensagens homoeróticas acompanhadas de número de celular. O que me chamou a atenção, no entanto, foi seu conteúdo racial. Não foram poucas as mensagens de homens asiáticos (turcos, predominantemente) em busca de um branco e vice-versa.
Acho que isso é tudo o que eu tinha para acrescentar neste post. Ah, ontem eu comi no baneijão do Campus IG-Farbe. A comida lá é muito melhor do que a do outro campus.