Quinta-feira, 13 de novembro de 2003
Ah, coloquei um contador no site. Sei que vai ser vergonhoso, pois ninguém me visita, snif, mas pelo menos vai dar para eu saber o quanto tenho sido visitado. Acho que vou dar reload umas mil vezes só para aparecer
Continuo sem grandes novidades - parece que as coisas acompanham as temperaturas e agora tudo reluta em acontecer. Mas tudo bem, nao estou escrevendo para um jornal. Posso passar todo o meu tempo divagando, sem pensar em nenhuma relacao mágica informacoes/toques.
Sim, algo de novo aconteceu. Fiquei resfriado - o que já demorava. Anteontem teve uma festa da greve, voltei dormi na casa da Sue porque nao tinha mais trem para Offenbach, e, quando acordei, tcharan! Eu estava todo fodido. Garganta inflamada, pele ardendo, dor de cabeca (embora tivesse tomado só uma cervejinha)? Fui para casa nem pensando em dar um pulo na escola e dormi. Acordei, tomei um chá, fiz uma canja de galinha e dormi. Acordei mais uma vez, fiz mais um chá, requentei a canja, li dois textos em ingles (porque nao estava podendo ler em alemao) e dormi. Acordei, tomei a minha terceira xícara de meio litro de chá preto ingles com leite longa vida integral e uma looonga colher de mel de girassol (nao poderia simplesmente me repetir, certo?), comi mais uma vez aquela canja feita com uma cebola refogada no azeite de oliva (aliás, cebola em polones é cebola), filé de frango cortado em tiras, uma xícara rasa de arroz e, finalmente água, e, como já estava me sentindo muito decadente nessa de convalescente, fritei duas salsichas alemas e as comi com mostarda apimentada e ciabatta, como se a minha saúde (leia-se colesterol) estivesse em ordem. Satisfeito feito um porco, tomei mais um chá - dessa vez de frutas com uma colherzinha de mel, porque já estava me repetindo demais - e fui procurar algo mais interessante para ler. Nao que o que tinha acabado de ler nao me interessasse, mas em momentos de doenca nos devemos presentear com algo mais leve do que "trabalho sentimental em hospitais" ou "Bakhtin, Wittgenstein e outros sobre memória". E eis que peguei o livro que a Sue me tinha dado de presente de aniversário. Der Zauberberg, de Thomas Mann.
A primeira coisa que se faz quando se comeca um livro é a última coisa que se deve fazer - ver o número de páginas, dar uma olhada na última para já saber qual é o fim de tudo, e, principalmente, se vale a pena ler esse tudo para chegar a tal fim. Mil páginas, e o final nao entendi, porque está em alemao. Dei uma olhada na janela - ainda estava relativamente claro, ainda que numa época em que a noite comeca a vir cedo. Li a contracapa - o protagonista vai a um sanatório visitar o primo por tres semanas e acaba ficando sete anos. Conviver com a morte. Desejar conviver com a morte. Tema bastante encantador. Tinha que ler o livro. Comecei ontem à noite e, antes de dormir, já estava na centésima página - nao preciso dizer que, estando escrito o texto em alemao, isso representou de um lado uma vitória em termos de velocidade e uma derrota em termos de compreensao. Mas como nao se tratava nem de nenhuma traducao arcaica de Turcídides (argh!) nem de reflexoes sobre Dostoiewski e o patricídio, dei-me o direito de ler fluentemente deixando passar as palavras desconhecidas, guiando-me mais por pronomes, conjuncoes e preposicoes (aqui eu poderia tentar encaixar o que tinha acabado de ler sobre Bakhtin e Wittgenstein, mas nao apenas seria pedante como também levaria somente a incorrecoes, interpretacoes absurdas de uma mente pouco lógica que prefere descrever a colega de apartamento ex-sadomasoquista e cozinhar um macarrao à bolonhesa a perder tempo falando sobre a nao interinidade da memória e sobre sua existencia somente em diálogo, como retórica).
Nao pude deixar de lembrar da minha atracao pela morte durante a infanzia. È sério. Um defunto me pareceria mais legal do que o último boneco dos Comandos em Acao. Ainda seria mais interessante, pasmem, que o Castelo de Grayskull com todos os bonecos do He-Man e da Sheera. Bom, digamos que nao o defunto, porque esse, como o He-Man, a Sheera , o Gorpo, o Lion ou um Smurfies, é só mais um boneco inanimado, com a desvantagem de ser perecível e de possuir uma aura-tabu que nao nos permite brincar com ele.
Acho que fui pro lado errado, pois, na verdade, o que me impressionava (ou admirava) na morte nao era aquilo que se materializa no defunto, mas sim o processo até o último milésimo de segundo de vida - assim, o que me interessava mesmo era a vida em estado crítico. O que, cá entre nós, nao é nenhuma perversao inédita; caso contrário, nao haveria consumidores para filmes como "Faces da Morte I", "II", "III", "IV", etc. em cada locadora de bairro, muito menos haveria consumidor para lutas livres ou filmes de Kung-Fu ou Tarantinos e similares. Desculpe-me pela divagacao, mas ela é necessária. Acho que os filmes de violencia, ao contrário do que dizem fdps e FTPs de plantao, sao mecanismos de compensacao necessários para nosso sadismo reprimido. Ou apreciamos jorros de sangue em corpos decapitados em Kill Bill, ou assistimos a execucoes públicas em estádios de futebol em regime Taliban ou romano; ou vemos com prazer (achando que é pura curiosidade) uma pessoa acidentada cheia de sangue, com fraturas expostas e mutilacoes, sendo resgatada pelos bombeiros (e o prazer nao é pelo resgate, mas pela proximidade da morte) ou fazemos a nossa parte, seja com o filho de tres anos da patroa, seja com alguém encontrado na internet procurando alguém que o mate durante o sexo (o que aconteceu na Alemanha no primeiro semestre deste ano).
Mas, entao, voltando à minha fixacao pela morte durante a infancia. Ficava imaginando os métodos mais cruéis para torturar coleguinhas de classe. Empurrá-los num fosso de agulhas abaixo e depois jogar-lhes um balde de álcool, limao, pimenta e Merthiolate (o antigo, porque o novo nao arde), colocar varinhas de bambu sob as unhas e obrigá-los tocar bem staccato todas os prelúdios e fugas do Cravo Bem Temperado de Bach sob a ameaca de hashis em seus olhos (essa é a versao com sofisticacao oriental, que herdei por parte paterna, hehe), ou simplesmente, segundo o conto de Edgar Allan Poe, indicado pela minha mae, prender o sujeito num corredor e construir um muro, para que morra com falta de ar, comida e água, no escuro, no silencio, na solidao.
Mas tudo isso eram banalidades de uma crianca criativa, para quem estava na mesma escala de prioridades desenvolver métodos de tortura ou assistir ao Xou da Xuxa. Comecar a ler o romance de Thomas Mann foi algo diferente, que me remeteu mais a experiencias recentes - na Inglaterra, com o convívio com um idoso que, deitado num quarto esfumacado de luz difusa, de punhos cruzados sobre o peito, toda manha me dava uma aflitante sensacao de « ai, ai, ai? hoje o velho morreu »; ou o Big John, que, com seus duzentos ou trezentos quilos, teve uma perna necrosada, que se transformou em perna e pedaco do intestino necrosados, que se transformaram em um monte de carne humana disforme, que nao caberia num forno de inceneracao; finalmente, Big John virou recheio de caixao feito sob encomenda (com ou sem a perna amputada, nao sei), e foi enterrado sem direito à lapide, com lágrimas amargas da mulher para quem só deixou dívidas impagáveis e um filho deficiente mental e cego de vinte e seis anos.
Mais ainda, o livro me remeteu às recentes e inéditas perdas - a de meu avo e a das minhas amigas Júlia e Bia, irmas tragicamente mortas em um acidente de carro um dia após o Ano Novo. De um lado, a morte como um ponto final necessário de uma vida que já havia lentamente acabado; do outro, a morte como uma suspensao duma frase em sua metade, em que o verbo mal escrito fora, quanto menos o objeto.
Gostaria continuar a escrever, mas já deu o tempo para fechar o laboratório. Ainda nao cheguei ao ponto que acredito o livro tratar, mas preciso ler mais para poder desenvolver alguma coisa sobre a morte.
Aos preocupados de plantao (leia-se mae), podem ficar tranquilos que estou bem e feliz, e, se quero pensar sobre a morte (e nao na morte), é porque ela nao é nenhum tabu para mim.