Segunda-feira, 13 de outubro de 2003
Hoje seria dia de reunião com o Ciro. Sim, nosso professor dos óculos haxagonais (hexagonais de acordo com a Biblioteca de Babel, mas, na verdade, definitivamente octagonais, embora muitos colegas meus insistam em reafirmar sua suposta hexagonalidade) veio aqui para Frankfurt. Acho que o pessoal do CJE já deve até estar sabendo, mas não custa eu aqui de chato repetir. Para essa reunião será necessário que eu esteja com o alemão um pouco melhor. Sabe, mostrar serviço. Embora eu esteja aqui há um mês e meio, não sinto que meus conhecimentos nessa língua absolutamente nonsense tenham dado nenhum grande salto. Eis o lado negativo de ter vindo junto com uma lusófona (Sue, juro que numa outra oportunidade eu uso uma palava mais bonitinha para me endereçar a você). Mas agora que a Sue viajou para a Espanha e que estou sozinho morando num apartamento com uma alemã que não sabe falar nada em inglês, é mais provável que eu melhore o meu nível. Pelo dia 20 de outubro vão começar as minhas aulas e, para isso, comecei a ler um livro em alemão. Seu título é ?Geschichte der Medien? (História dos Meios de Comunicação) e foi escrito e compilado pelo Manfred Faßler, diretor do Instituto de Estudos Lingüísticos e Culturais da J.W.Goethe Universität Frankfurt, colega do Ciro, com quem vai se encontrar hoje e amanhã, e um tal de Wul Halbach. Na verdade é um livro bem introdutório, em cujo início apresentam-se formas de media, algumas problemáticas nos estudos de comunicação e algumas correntes de pesquisa de meios de comunicação e massa (os acho que funcionalistas do início do século XX, ainda baseados numa idéia behaviourista de estímulo e resposta, a escola crítica Frankfurteana, e, mais recentemente, a Zerfallsthese, segundo a qual as instituições tradicionais - família, igreja, etc. - são atropeladas pela velocidade dos media e, assim, perdem sua carga de realidade, dado seu esquecimento por parte dos meios de comunicação - tese compartilhada por P.Virilio e N.Postman, por exemplo -; a Integrationsthese, que, se eu tiver entendido bem, seria aquilo a que apontam os estudos culturais britânicos, segundo que a recepção é antes determinada pelo ambiente do receptor, suas experiências como membro de um grupo, de uma comunidade, desta forma sendo anteriores e condicionantes à recepção as ?instituições tradicionais? ou não necessariamente tão tradicionais assim; a Schematheorie, o que estou com preguiça de explicar - afinal, tenho certeza de que ninguém está lendo este texto mesmo -; a These von der Thematisierungsaufgabe der Medien, o que basicamente trabalha com a idéia de Agenda Setting - bem aquilo que o Clóvis trabalhou em sala -; e a tese da Popularkultur, de Löwenthal, que não se preocupa mais com fronteiras entre Cultura e Civilização, cultura popular ou erudita? mas, para ser sincero, não entendi em que tal tese se baseia).
Depois do maior parêntesis que já abri em toda minha vida, vamos voltar àquilo sobre o que estava falando. A língua alemã, maldita e ingrata. No início, eu demorava mais de uma hora para ler uma única página, recorrendo ao dicionário a cada três palavras, sem, no final, poder compreender o que estava escrito. Tudo eram palavras soltas em estruturas rígidas. Assim, eu entendia qual era a relação entre as frases, isto é, qual era uma oração principal, qual eram suas subordinadas e que tipo de relação de subordinação havia entre elas; no entanto, não conseguia tirar dessa teia de orações significado algum. Como se o texto fosse uma claríssima equação matemática cujo fim fosse sua própria operação. Eu estava absolutamente desolado.
Quando tudo parece difícil demais, não há nada o que fazer senão desistir. E foi o que momentaneamente fiz. Peguei emprestado de uma colega filósofa radical comunista feminista um livro autobiográfico de um autor polonês chamado Tadeusz Sobolewicz. Em inglês. Nunca na minha vida pareceu ser tão fácil e prazeroso ler, mesmo se se tratando de um jovem preso em um campo de concentração. No final da tarde já tinha lido a metade do livro. Aí me dei conta de que não poderia continuar assim. Estou na Alemanha, não na Inglaterra. Fui para a casa de uma outra colega, a Gosia, estudante polonesa de 25 anos, e falei para ela desse meu dilema. Primeiro ela ficou contente de saber que eu estava lendo um de seus autores prediletos, principalmente levando em consideração que o livro tangencia o assunto de seu mestrado, mas depois ela me deu uma bronca enorme. Depois, passou para mim um pouco de sua metodologia para ler em alemão. Ela disse ter vindo para cá lendo muito mal (assim como eu), mas agora, em menos de dois meses, já consegue ler em alemão com a mesma facilidade que o polonês. No momento posso dizer que leio o alemão com muito mais facilidade que o polonês, mas acho que isso não me ajuda em nada?
Entao o que fiz? Pus-me a ler freneticamente. Como já disse, não consigo ainda ler muito bem, mas já estou numa velocidade de umas quarenta páginas por dia com um nível de compreensão de 40%. Não adianta. Tem que quebrar a cara. É assustador, aquelas palavras parecem não ter fim e a estrutura é tão complexa que acabo perdendo minutos só para entender onde começa e onde termina um complemento nominal, mas não adianta reclamar. Tem é que engulir. Bom, vamos ver um exemplo do que é uma estrutura em alemão?
"Eu voco-te neste por mim escolhido Momento devido a sua não com o Ambiente condizente Moralatitude com um pela minha Mão fortemente em sua Barriga pressionado Soco nesta Ouvirsala pro", onde o morfema ?pro?, encontrado no final da frase, é o prefixo ?pro? do verbo provocar, cuja raiz se encontra na segunda posição da frase.
Para simplificar a expressão, podemos destrinchá-la em orações subordinadas e utilizar um verbo auxiliar para não haver a necessidade de separar o prefixo da raíz. Vejamos como ficaria:
"Eu poderia te neste Momento, que eu escolher iria, um Soco, com que minha Mão sua Barriga fortemente pressionar iria, nesta Ouvirsala provocar, porque sua Moralatitune com o Ambiente não condizente foi." Muito mais fácil? Mas como alemão é alemão, isso não basta? e eis que nós temos que adicionar a tudo isso um monte de coisinhas que em português não temos: declinações, três gêneros? e as exceções ! Mas de qualquer forma, as conjugações verbais são razoavelmente fáceis?
Não fiquemos aqui reclamando da dificuldade da língua alheia? Digamos que estou contente com o progresso nas minhas leituras. O livro que estou lendo no momento é realmente interessante. Além da introdução que eu aborrecidamente apresentei, ele trás uma coletânea superlegal de textos sobre determinados meios de comunicação ao longo de toda a História. Escrita e asemantismo na religião do Egito Antigo, a Literatura como Medium, a transformação mediática da percepção corpórea na Idade Média, a Arte pictórea, o caminho mediático desde a comunicação unilateral até as relações mediatizadas e medialmente construídas no exemplo do telefone (ãhn?), a história do modelo de iluminação (???) em imagens geradas por computador (???? não, isso não me parece nem um pouco interessante), normas e padrões da comunicação eletrônica, network e macromídias. Ok, nem tudo deve ser lá interessante, mas, pelo que eu comecei, parece que a maior parte vai. Nada ainda aponta em direção das viagens do ?Pensar Pulsar? nem às reflexões semióticas da Mayra com seus Pierces e Saussures, mas ainda assim parece bem interessante.