Quarta-feira, 11 de fevereiro de 2004
Os sonhadores
Paris, maio de 1968. Henrie Langlois, fundador e diretor da Cinemateca Francesa é expulso pelo governo e, em meio a protestos de cinéfilos, um estudante americano conhece uma francesa presa a um portão por grossas correntes, com uma longa piteira rosa na boca, cinzas equilibrando-se na extremidade. Tire-a. Por que você está presa? Eu não estou presa. Ela deixa desenrolar a corrente de seus braços finos. Excêntrica, como todos os outros jovens. Você é inglês? Não, americano. Saem e, entre outros estudantes sentados nas escadarias, surge o irmão da francesa, distante em seu olhar desafiador, mas carente. São apresentados - e começa um dos melhores filmes da minha vida. Um filme sobre filmes, sobre sonhos de se sentir protagonista e diretor de seu próprio destino, de acreditar em mudanças, mas fazê-las instintamente sem perceber que seus ideais não passam de meio para a mais individualista vontade de ser amado.
Os Sonhadores, último filme de Bernardo Bertolucci, mostra um jogo sexual entre dois irmãos gêmeos franceses – Isabelle (Eva Green) e Theo (Louis Garrel) – e o americano Matthew (Michael Pitt) durante o período firmado como maior mito do movimento estudantil, que hoje se procura reviver em cada cartaz erguido ou palavra de ordem gritada em tímidos protestos pela Universidade Pública em São Paulo ou contra taxas de estudo em Frankfurt, sem que dele se tenha mais que um espectro, visto pelo resto das ruas e janelas como um desfile de carnaval. No entanto, Bertolucci não se concentra nesse mundo de punhos erguidos, coquetéis molotov e slogans escritos nas colunas neoclássicas no Quartier Latin, mas sim na intimidade daqueles que vivem num tempo em que todas as referências são abandonadas, em que tudo parece possível; não apenas em que a autoridade do governo desaparece, mas a paterna também, e deixa seu enorme apartamento, sua biblioteca, sua cama livres para que sejam destruídos os tabus lá arquitetados em traços de sangue.
O cinema em metalinguagem transcende a função de mercadoria; ele pauta ações dos três e serve de ponto de sua identificação; cria conflitos e transforma relações através de jogos de adivinhação cinematográfica e castigos sexuais. Sonhos no écran mudam a realidade, sem que se tenha consciência do quão real são suas conseqüências. Quando a tela escurece, só resta a fuga.
Assisti o filme com um sorriso no rosto do começo ao fim, com saudade do que não vivi, que continua vivo nas aulas saudosistas de cinema, nas visitas ao Cinusp ou na sessãozinha de todo sábado no Unibanco. Tive vontade de voltar a morar em Paris, onde nunca morei; de voltar a passar horas numa banheira a três conversando sobre Jimmy Hendrix e Eric Clapton, o que nunca fiz.