Sexta-feira, 10 de outubro de 2003

Estranho. Toda vez que leio jornal depois de um tempo em hibernacao de notícias parece que o mundo é um grande fait divers. Primeiro, essa história do Schwarzenegger como governador da Califórnia. Bom, sua vitória nas urnas nao foi nenhuma surpresa, e, para falar a verdade, nada me parece mais surpresa quando o assunto sao eleicoes nos EUA, mas mesmo assim fiquei boqueaberto ontem ao ler o seguinte na primeira página do Bild, o tablóide mais lido na Alemanha: "Precisamos também de um desse?" Tratando-se de um tablóide, isso nao bastaria. Hoje no trem em caminho à universidade peguei mais uma edicao do Bild. Como nao poderia deixar de ser, lá estava na segunda página a suíte do fenomeno Schwarzenegger: "Alguém como ele seria bom para nosso país". Logo acima do artigo, uma figura recortável com os políticos alemaes mais proeminentes envolta de um balao de diálogo em branco. O título? "Clareza ao invés de blablablá". Foda-se o diálogo, foda-se tudo. O que queremos é o nosso Swarzenegger. Tenho medo de cair em julgamentos sobre a vitória do Exterminador e de sua repercurssao na Alemanha, mas me parece demais perigoso ovacionar a vitória de um Superhomem sem experiencia política, obtida pela idéia de salvador capaz de, apenas com sua forca, ou melhor, violencia, sobrehumana exterminar qualquer crise. Bom, na verdade, isso nao é novidade nenhuma nos dias atuais de militarizacao nos Estados Unidos. Somente serviu para dar uma imagem ao que já estava estabelecido. Com a caca ao terrorismo, estava demorando para o Rambo ser posto na presidencia. No entanto, um italiano na Casa BRANCA nao ficaria tao bem - especialmente esse italiano, com seu passado na indústria pornográfica. Que tudo comece lentamente, com o Estado da Califórnia nas maos de um austríaco.
Mas já estou divagando. Voltando à Alemanha. Foi feita no respeitável jornal Frankfurter Rundschau uma enquete on-line com a seguinte pergunta: "(considerando a distancia da política,)atores como Schwarzenegger podem ser bons políticos?" 30% das pessoas responderam que sim, pois para isso já existem bons exemplos, 25% disseram que nao, pois tratam-se de tarefas muito distintas, e apenas 16% disseram que teoricamente sim, mas nao nesse caso. Talvez seja misturar e exagerar as coisas, mas eu me pergunto se, considerando essa pesquisa e o que o Bild mostrou, a Alemanha estaria exposta a salvadores - ou exterminadores. Por aqui haver eleicoes indiretas, acredito que seja difícil. Mas mesmo assim é inevitável o medo das repeticoes da História.
Mas a estranheza de quando se volta a ler as notícias nao para por aí. Surge o caso Gugu, surge o filme do Padre Marcelo (pensei que esse monstro mediático tivesse sido substituído pelo Big Brother ou alguma coisa mais nova), surge o papa como favorito ao Nobel da Paz (ah, mas acabo de saber que a iraniana Shirin Ebadi arrebatou o premio), surge a Dóris como boazinha, e surge novo filme da Sandijúnior. Tsc, tsc...
Tenho que voltar a falar do tablóide Bild (traduzindo, imagem, quadro, retrato; melhor nome nao haveria para um jornal baseado em fotos numa diagramacao ilegível. Nos trens, é sem concorrente a leitura do alemao comum. Ao sair da casa para o trabalho, uma pessoa compra em um Kiosk ou Trinkhalle um exemplar por ?0,50 - um terco de um jornal "sério". Primeiro, enquanto ainda espera pelo trem na plataforma, ela dá uma olhada nos títulos e nas fotos do primeiro dos dois cadernos. Entao, o veículo chega, a pessoa entra e se senta. Bastou sentar para avancar para o segundo caderno: esportes. Ao lado do decote de uma loira bronzeada com peitos devidamente siliconados, está andando de bicileta o Schumacher, carinhosamente chamado de Schumi. A pessoa corre os olhos no texto, vai para a página de futebol, le as tabelas de algum campeonato e, quando termina de conferir os números da loteria, já chegou a sua estacao. O jornal fica no banco do trem, onde dois amigos que acabaram de entrar sentam-se. Pegam o Bild, cada um lendo um caderno, e comecam a comentar o bom desempenho do alemao nas corridas. Chega o fiscal do trem, com seu uniforme azul e boina vermelha, olhando feio para todos. Chegando o trem na fronteira de tariafa, pede aos passageiros que mostrem o bilhete. Os dois amigos nao o tinham - e, portanto, tiveram que pagar cada um uma multa de ?40,00. Muito bem, os dois saem na outra estacao. Checando se o trem está quase vazio, o fiscal olha para o banco dos dois tolos, e lá está o jornal. Faz uma cara de sério, os passageiros fingem que nao olham, e o fiscal pega o jornal para ler. Comeca a ler as fofocas sobre alguma celebridade loira e, no momento em que a foto foi tirada, com nádegas, como poderíamos dizer?, cítricas. Dá um sorriso bonachao e logo depois olha feio para os lados, aterrorizando os passageiros que acabaram de entrar. Fim de linha, o fiscal troca de trem e no banco continua o Bild para ser lido.
Embora todos saibam da falta de seriedade desse jornal, ele tem uma influencia grande na Alemanha simplesmente por seu enorme público leitor. Nenhum NP e, creio eu, nenhum Daily Star ou Sun tem um maior impacto, pois o Bild simplesmente nao tem concorrentes.

Agora uma pequena pausa
Bom, tudo está indo bem aqui na Alemanha. Hoje eu me registrei na prefeitura de Offenbach e segunda-feira vou atualizar o meu visto. Por enquanto ele é válido por apenas tres meses. Com o novo visto, talvez eu possa pegar algum emprego aqui. Duas amigas polonesas trabalham em um buffet; nao sei se a grana é boa, mas o trabalho parece ser legal. Estava pensando em, depois desses dois meses de Alemanha, pegar algum trabalho por uns tres ou seis meses em Londres. O importante é estar com um pé de meia, pois para trabalhar lá é necessário ter um visto de estudante, e para isso preciso frequentar algum curso de ingles. Isso é o que a maior parte dos jovens brasileiros fazem para trabalhar lá. Se eu fizer isso, vai dar para economizar um dinheiro legal para comprar um equipamento decente - lentes, filmadora... Mas tenho que esperar para ver o que vai acontecer. Ficar tanto tempo se estudar é prejudicial (meu portugues já está decaindo, eu sei...).
Bom, por enquanto é isso. Tenho que ler umas coisas agora.