É tarde agora. Já escrevi um e-mail enorme para alguns amigos – por isso estou cansado, e acho que meus assuntos quase que esgotaram. No entanto, acho que preciso escrever uma mensagem de fim de semestre também. Estou sendo sincero; não quero ser piegas, mas tem algumas situações em que temos que ser brega e tudo mais. Que saco! Ninguém vai ler mesmo, então que se foda, hehe. Bom, de qualquer forma vou escrever do jeito mais sem jeito possível, do tipo “é, tô escrevendo essa porra, mas podia não estar. Não estou nem aí, sacou?”. É. Assim não fica tão brega.

Era quase meia-noite quando estávamos eu e mais uns quatro amigos numa pracinha de São José dos Campos. Nervosos. A gente estava esperando o resultado da Fuvest. Eu não estava lá muito confiante – já não tinha passado na Cásper Líbero. Tocou o telefone. A Lígia atendeu. Ela tinha passado. A Kadine tinha passado. O Flávio tinha passado. O Bruno tinha passado. Eu tinha passado. Foi um puta dum alívio. A Carol, o Peixoto, o Jorge, a Virgínia e o resto dos meus amigos não. Era uma merda. Mais uma separação. Já tinha me separado dos amigos da escola quando fui viajar para a Inglaterra, me separei de outros amigos quando voltei para o Brasil. Agora mais uma separação. Era um saco. Principalmente porque eu ia ficar longe da Carol, uma das pessoas com que eu mais entrava em sintonia. Bom que se fodesse...

A primeira semana na ECA, ao contrário do que aconteceu com a maioria das pessoas com quem eu converso, foi um saco para mim. Tudo bem, tínhamos entrado na ECA. Muito legal. Só que eu não conseguia me encontrar naquele festaiada toda. Não conhecia ninguém. Não via motivo nem assunto para conversar com aquelas pessoas todas. Sentia-me como um idiota tendo que participar daquelas gincanas bestas. Queria voltar aos MEUS amigos. Com eles eu poderia tomar uma cervejinha num bar e saber exatamente sobre o que conversar. Sem artificialismos de conversas de balada. “E aí! Você entrou em quê? Verdade? Nossa, tinha não-sei-quantos candidatos por vaga, não é? E a Fuvest isso, e a Fuvest aquilo.” Que grande merda, estava odiando tudo.

Primeiro dia de aula eu cheguei atrasado. Aula do Leo. Engoli seco. Cada um dizia por que escolheram o jornalismo. Eu e aquela minha velha mania de me comparar com os outros. Motivos nobres, palavras bonitas. Mudança social, ideologia, engajamento. Um mundo melhor. E eu, o que dizer? Por que escolhi o jornalismo? Eu mesmo não sei. E no meio daquelas frases pomposas eu ia me diminuindo, perguntando-me constantemente o que eu estava fazendo ali. Ali não teria amiguinha falando “Mau Mau, como você é esperto”. Ali eu era mais um merda.

E decidi mandar tudo para a mesma merda. Parar de encerar a cara. Que acabasse com todo o resto de pretensão que eu ainda tinha. Nunca tinha lido Nietzsche nem Dostoievisky, não sabia nenhuma letra do Chico nem conhecia a capital da Nigéria, mas que isso tudo se fodesse agora. Que eu assumisse a minha ignorância.

Com o tempo eu fui vendo que mais ou menos tudo mundo estava se sentindo tão pequeno quanto eu – e isso graças principalmente às aulas herméticas do Ciro. Fui percebendo que, como eu e talvez como qualquer outra pessoa, ninguém sabia porra nenhuma mesmo. Parece que todo mundo ficou desarmado. Vulnerável. Próximo. Que bom. Acabaram as palavras bonitas. Então que fui me identificando com a classe. A cada “não sei”, a cada “não entendi”.

É isso que gosto na nossa classe. Não entendo bem como que chegamos a isso, mas sinto que não há constrangimento nenhum em dizer o quanto não se sabe, o quanto não é perfeito. O quanto não há o “isso é o certo”. Como não precisa forçar um sorriso Gisele Bündchen para mostrar como está feliz, como está curtindo o momento.

Estou falando esse monte de merda que eu mesmo não estou entendendo porque ontem eu saí com meus amigos e me dei conta de como eu prefiro estar perto de vocês, mesmo que no fechamento do São Remo – e não, eu não tenho orgasmos múltiplos e convulsivos ao fazê-lo; diria mais que tenho um quase eu imperceptível prazer masoquista em ficar tirando viúvas e cortando texto para dar o número de toques. Eu não estava suportando a ditadura do “nossa, como eu estou curtindo a máximo esse momento. Vou cantar, dançar e fazer brincadeirinhas engraçadinhas para mostrar a todos desse mundo como estou feliz”. Como eu não suporto a falta de naturalidade! Não, peloamordedeus. Eu não vou agüentar ficar nesta cidade em que eu olho à minha volta e vejo pessoas pensando “nossa, como o Mau Mau não está curtindo tudo o que ele poderia estar curtindo”.

Bom, desenrolando esse monte de merda que eu falei – talvez nada tenha feito sentido algum -, eu queria falar que esse semestre passado foi o melhor da minha vida. Melhor do que na época em que eu namorava (vejam só, vocês têm sido melhor do que sexo! – bom, nem tanto, vai...), melhor do que o meu intercâmbio, melhor do que a minha fase de raves e festas moderninhas. Nunca me senti tanto no lugar certo. É claro que tem uma coisa ou outra que me irrita profundamente – e vocês tiveram a oportunidade de me ver PROFUNDAMENTE IRRITADO no último fechamento – mas são coisas pequenas demais que viram engraçadas.

Moreover, vocês são indiscutivelmente as pessoas mais interessantes que eu já conheci. Não dá para comparar com ninguém o humor bizarro do Napô, o “lá lá lá” da Júlia (Ju, não interprete al o lálálá, mas eu realmente acho você suuuper lalalá), os porres do  Rodrigo (putamerda, você é muito engraçado), as minhas conversas com a Erica (mas isso vai no reservado, certo?). Bom não vou continuar enumerando coisinhas porque isso é viadice.

Resumindo, estou escrevendo esse monte de merda para dizer que eu não vou agüentar ficar as férias neste fim de mundo que é SJCampos enquanto eu poderia estar com o pessoal da classe.