Segunda-feira, 09 de fevereiro de 2004
Minha gripe do frango continua amolando. Ontem tive uma enxaqueca – navegadores viciados, visitem as páginas “dor de cabeça”, “enxaqueca”, “Sociedade Brasileira de Cefaléia”, “cefaléia.net”... Achando que dormir resolveria meu problema, passei mais de 24 horas (não contínuas, pois tinha que acordar para dar minhas tossidas escarradas) na cama até me dar conta de que dormir tanto me dava dor de cabeça. Ai, ai, ai... Acordar foi um método relativamente eficaz; antes de levantar, estava com dor no lado direito da cabeça; fiz meu chá, li um pouco d’o Monte Mágico, de Thomas Mann, que havia parado de ler durante as aulas, e a dor acabou. Dormi até hoje de manhã e a dor, do lado direito, passou para o esquerdo. Oh, vida.
Acho que a gripe veio com a mudança de tempo. Semana passada fez um calor inesperado – em pleno inverno, um auge de 15°C positivos. Acho que meu organismo desacostumou-se com essas temperaturas tropicalientes, humpf, e descontou em si mesmo a troça metereológica. Pois bem, o tempo voltou ao seu normal e meu corpo, não.
Mas tenho que parar de reclamar. Os dias ficam mais longos um após o outro, o sol aparece até que freqüentemente. Toda vez que penso no clima daqui, fico feliz comparando à cloaca gelada que era o tempo na Inglaterra. É o que se deve fazer quando se encontra na miséria – comparar à miséria-mor. De qualquer forma, enquanto o frio daqui não arrancar telhado de estação de metrô, tudo estará na santa paz.
E onde eu estava durante essa minha gripe? Não poderia ficar em casa descansando, senão poderia curar-me rápido demais para curtir meu prazer hipocontríaco e depois dizer o quanto sofri – oh, céus, oh vida. Fui para Strassburg (ou Strasbourg, como pede o senhor Napô, ou Estrasburgo, como pediriam os lusófilos de plantão) com dois argentinos – Damian e Emílio, com quem pratiquei meu portunhol (como sou sem-noção grato pelas aulas de espanhol no colégio). Isso mesmo, estive na Alsácia-Lorena, essa região que passou por mais mãos que prostituta aposentada. Ao contrário de minha colega Virgínia, que aparentemente tem sérios problemas com adolescentes argentinas sujas, barulhentas e bocudas, até que me dou bem com nossos vizinhos de baixo – e aqui vão sites sobre nossos hermanos – “os argentinos por eles mesmos”, “eu odeio argentinos”, “piadas de argentinos”.
Foi pouco o tempo que ficamos na cidade, mas deu para ver bastante – e me sentir na França. Ah, a França, onde tudo é mais caro – e melhor. Onde se pode comprar uma baguete em qualquer mercearia, comê-la na rua e ser visto com olhares inconformados como um bicho incivilizado – oh, l’horreur, l’horreur. Onde os carros são mais feios e a gente, mais feliz – que na Alemanha, que fique claro. Bom, que pare eu de repetir clichês e vá para a viagem.
Ah, Estrasburgo (decidi pelo nome em português para evitar a volta a conflitos históricos) é uma cidade média com 267mil habitantes (ou 400mil, contando toda a unidade urbana) e capital política da União Européia. Eu não sabia disso, e sempre achava que fosse, na verdade, Bruxelas. Bom, na verdade também é Bruxelas e também é Luxemburgo. Bom, na verdade, resumindo, o Parlamento Europeu tem três sedes, Estrasburgo, onde ocorrem as sessões plenárias, Bruxelas, reunião de comisões e grupos políticos, e Luxemburgo, secretaria geral. Bom, resumindo mais uma vez, é uma loucura, e preciso ainda me informar com minha fonte de assuntos políticos, meu implante cerebral à distância, o senhor Mayer-Napoleão – porque o meu cérebro se limita a funções como comer, descomer e dormir.
Ao contrário das cidades alemãs, a anexada e desanexada Estrasburgo não foi destruída pela segunda guerra, e é, com raríssimas exeções, toda composta por construções antiqüíssimas. Além disso, é cortada por canais, que lhe dão aquele charme que São Paulo teria se se pudesse pescar no Tamanduateí. Portanto, a cidade tem as duas coisas que a fazem a típica cidadezinha turística européia de cartões postais e fotos em lojinhas de revelação em uma hora.
Mas o melhor em viajar para Estrasburgo foi ter entrado na França, embora lá seja um pouco de Alemanha também. Eu já disse, mas tenho que repetir. Como as coisas na França são diferentes! Logo no Ônibus de Kehl para Estrasburgo fomos abordados por um velhinho de boina xadrez. Falava uma mistura de alemão com francês que fingíamos entender. Em certo momento, o ônibus parou e um africano desceu brigando com o motorista. Não entendíamos o que se passava, e o velhinho explicou – o africano usou o mesmo bilhete da ida para voltar, mas só poderia usá-lo em uma direção. Em suas palavras, “os africanos têm uma relação com o dinheiro diferente da nossa”. Uhm, muito estranha constatação, meu caro velhinho. E seguiu em diante, “já morei na África, em Mali, sabe? Os africanos têm realmente outra relação com o dinheiro...” Muito estranho, velhinho; diria que os franceses têm, por sua vez, uma relação diferente com os outros povos, ou melhor, com povos. Principalmente com africanos. Mas deixe estar, devia ser só um louquinho imperialista.
O que primeiro mais me fascinou em Estrasburgo foram as janelas. Na Alemanha, todas as janelas são iguais; bastante eficientes, é verdade, mas enfadonhas até a morte. Já em Estrasburgo, havia uma variedade incrível de janelas velhas, tortas, descascadas, cada qual combinando com o estilo da casa. Depois, fui a uma mercearia comprar pão para meu lanche. Sabe quando você vai à mercearia e percebe que o dono é uma pessoa, e não uma planilha de acionistas? E que o atendente é o filho desse dono – que, naturalmente, é menor de idade, trabalha de graça e ainda leva uma cintada se reclamar que prefere jogar Playstation a vender baguete para velhinhas andando com seus poodles -? Ainda não posso comparar com a feira da rua Cayowaá, que é o paraíso em terras perdizenses, onde se pode comprar mil tipos de batata e ainda acreditar que são realmente diferentes, onde o pastel com caldo de cana é, bem, o que posso dizer?, é... tipo... pastel com caldo de cana; mas as feiras strasbourgeois também têm essa coisa de gente de verdade, que escolhe aquele repolho lá no fundo, da direita, ao lado das cebolas, porque ele parece sorrir melhor do que o que está logo à mão. Aqui na Alemanha os vegetais parecem ser simplesmente um produto, tão mercadoria quanto um pacote de sabão em pó. Mas aquele que mora ou morou num país onde são produzidos e abundam ao ponto de fazerem parte de sua cultura sabe muito bem que um vegetal não é um pacote de sabão em pó e não se difere segundo técnicas de marketing entre Omo dupla-ação, multiação com cápsulas de poder azul, cores e progress; os vegetais têm um jeito próprio e seu sabor e textura depende do feirante, do horário, do lugar na banca, e, principalmente, de se você é um homem ou uma mulher – sempre que for comprar algo numa feira, saia com sua amiga mais bonita, e poderá trazer para casa os melhores repolhos; se for homem e só tiver amigas feias, procure só as bancas de japonesas, caso contrário pagará o dobro para comprar talo podre – e talo podre por talo podre, é melhor esperar os restos de fim de feira. É verdade que em Estrasburgo ninguém grita “mulher bonita não paga – mas também não leva”, mas essa liberdade simbólica de poder escolher os repolhos me fez sentir feliz, embora não tenha comprado nenhum.
E a gente da França também parece ser outra. Ela se veste estranho, muito estranho, e não parece se envergonhar disso. Diz que é moda. Tudo bem, vá-se entender. E também parece ser mais gente do que na Alemanha – fala com desconhecidos sem que seja absolutamente indispensável, sorri e esbraveja, sei lá. É verdade que o que digo serve apenas para reforçar estereótipos, mas não posso deixar de descrever minhas impressões.
Schöneswochenede-Ticket e suas figuraças
Como começou a chover muito, e chovendo não se faz turismo, decidimos voltar para Frankfurt. Durante uma das baldeações em Karlsruhe uma menina nos chamou e perguntou se estávamos andando com o Schöneswochenede-Ticket, traduzindo, “tíquete do belo final de semana”, com que até cinco pessoas podem viajar o quanto quiser dentro do território alemão pagando EUR 28,00. Sim, estávamos. Deixaríamos seu namorado viajar conosco? Por que não? Tudo bem. E apareceu um indiano de bigode, em seus trinta anos, agradecendo em inglês à nossa bondade de acolhê-lo em nosso tíquete (naturalmente sem ter que pagar nada). Tudo bem, e em quarenta minutos chegou o nosso trem. Embarcamos e começamos a conversar – na verdade, os argentinos não falavam inglês, então caiu em minhas mãos a responsabilidade de conversar com o moço. De onde você vem? Ah, do Brasil? Mas você não parece basileiro! Parece japonês. Já morei no Japão. Muito bonito. Ah, e é perigoso viajar para o Brasil? Ah, e o país tem estrutura para turismo? Ah, e tem muito turista lá? Ah, como assim, não tem trem no Brasil? Ah, e por que não? Ah, nos Estados Unidos e na Índia existe um tíquete que permite viajar em todas as linhas de vôo por um determinado tempo. Tem disso no Brasil? Não? Ah, e é perigoso viajar no Brasil? Ah, mas não tem muito crime?
Eu, com minha paciência de técnico de vôlei, praticamente um Bernardinho, já estava com vontade de pular em cima do indiano e falar “se meu país é essa merda, olha o seu então”. Mas, como de vez em quando faço questão de passar por um ser civilizado, só me fiz um pouco de cansado e o papo acabou. Quando olho no reflexo da janela, eis que o homem está com uma câmera apontada para mim. Eita, que coisa é essa? Fiz de conta que não percebi e discretamente cobri o meu rosto com a mão. E o homem continuava com a câmera apontada para mim. Ei, olha só. Pois não? A câmera. Pequena, não? É... Pode ver – e peguei a câmera, que era menor que um palmo de minha mão. Pequena, não? Ah, sim. Boa para espiões. E devolvi-a.
Depois de um tempo, o indiano volta a me chamar. “O sistema aqui na Europa, sabe?, eu acho que é muito melhor o sistema aqui na Europa. Se alguém faz algo de errado, sabe que é errado. As coisas funcionam”. Que conversa maaais estranha. Não tinha o que responder, então só disse, “não sei se o sistema é melhor; se num sistema ‘ideal’ houver corrupção, por exemplo, então o sistema não é mais correto, e isso não depende do sistema político em si, mas de outros sistemas que se relacionam com ele. E não sei se no Brasil ‘esse’ sistema é o melhor”. O homem parou um tanto, achei que eu poderia voltar a descansar, mas voltou com um “na Índia, as coisas não funcionam; no campo, as coisas são muito diferentes, não funcionam; aqui na Europa é melhor, realmente melhor”. Como eu não queria discutir, fechei o assunto com um “mas eu não conheço a Índia; não posso julgá-la...”
No próximo trem, o indiano encontrou um paquistanês topetudo vestido de anos 80 procurando alguém com um Schöneswochenende-Ticket para viajar de graça. Sem que soubéssemos, o indiano o incluiu na nossa turminha. Com um sorriso de cafetão portorriquenho em bordel de San Diego em filme do Domingo Maior, o paquistanês jogou-nos um “hola, amigos” – e eu me senti o maior mexicano dos mexicanos. O Emílio nos propôs que cobrássemos dos dois sua parte no tíquete, mas achei melhor não, pois não o fizéramos desde o início.
Quando a viagem estava terminando, o indiano voltou para nossos bancos;
“Queria viajar para a América do Sul, ir para a Antártida...”
“Mas fazer o que na Antártida?”
“Ah, é bonito lá”
”Mas não dá para viajar para lá!”
“Dá, sim, pela Austrália, pela África do Sul ou pela Argentina”
“Mas lá não há nada, só bases científicas!”
“Mas dá para andar de jipe, e há gente morando lá”
“Somente pesquisadores”
“E esquimós”
“Esquimós só há no Pólo Norte!”
“Na Antártida também. Eu vi num documentário na telvisão”
“Só no Pólo Norte. No Alasca, no norte do Canadá...”
“Mas no Pólo Norte eu já estive. No Alasca, no Canadá, na Groelândia, na Noruega, na Suécia, Finlândia, já estive em todos esses lugares”
“Pois lá há esquimós, mas não na Antártida. Lá só há pesquisadores!”
Eu já estava ficando louco com essa história. Primeiro, que não dá para fazer turismo para a Antártida – ahn, ou então pegue o primeiro trem e vá até a ilha de Elefante, pegue um metrô de lá até a Península Antártica e então um bonde até as ilhas South Shetland. Segundo que, se houvesse esquimós lá, eles teriam que ter cuidado para seus huskies siberianos não se engasgarem com os ossos dos pingüins. Oh, minha vida sobre um iceberg. Terceiro, o que é que ele iria fazer lá? Procurar os tesouros do capitão Drake na ilha da Decepção? Quarto, se ele teve dinheiro para conhecer o Alasca, o norte do Canadá, a Groelândia, a Noruega, a Suécia, a Finlândia, e quem sabe a Rússia, por que não paga sua própria passagem de trem até Frankfurt, ao invés de aproveitar de pobres latino-americanos que nem sabem que há moradores autóctones na Antártida?
Para terminar, perguntou-me aonde iríamos em Frankurt. Meudeusdocéu, nem pagar uma passagem de metrô o moço vai querer? Por que, ao invés de comprar uma câmera de vídeo de dez centímetros ele não paga uma passagem de trem, contribuindo, assim, para a manutenção do transporte público alemão, que ele parece gostar tanto de utilizar? Respondi que ia a Offenbach. Eu também, retrucou. Ei, peraí. Isso me cheirou muito estranho. Qual é a probabilidade de encontrar alguém em Karlsruhe que precisa ir à mesma cidade que você – sendo que essa cidade não é a cosmopolita Frankfurt, mas sim o cocozinho seco de Offenbach am Main? Talvez a mesma de encontrar um canibal procurando carne sul-americana criada livre nos intermináveis pampas brasilo-argentinos. Não, não gostaria de ser servido em um prato de curry com arroz – que antes fizessem de mim um churrasco dominical com bastante cerveja e piscina. Disse que poderia ficar com o tíquete que eu não estava indo para casa. Chegando em Frankfurt, ele nos agradeceu muito (que Deus os abençoe, que Deus os abeçoe...) e foi feliz com nosso tíquete para Offenbach. E eu? Fiquei esperando o próximo metrô para minha casa, vendo uma mulher louca gritando contra os seguranças da estação central de Frankfurt como se lhes jogasse alguma maldição, patricinhas correndo de medo da mulher, drogados pedindo dinheiro para os que passavam, senhoras passeando pelas plataformas com seus pastores-alemães, vendedores de drogas disfarçando-se de passageiros, viajantes procurando a plataforma do trem para o aeroporto internacional de Frankfurt. Ah, estava de volta em casa.