Sexta-feira, 9 de janeiro de 2003
Esse post vai ser um pouco longo, portanto será dividido em sessões.
Horta new year, new look
Demorou, mas tinha que acontecer. Por mais que a razão pedisse que o adiasse, eu o fiz. O Napô não é mais o único intercambista ecano a cortar o cabelo aqui pelas Europas. Isso mesmo. Depois de cinco meses aguardando, com medo de gastar os doloridos 15 euros, livrei-me do visual fefelechento para voltar à imagem da civilização. Não esperem demais, que não tirei ainda a barba, não. Mas into ares burgueses rondando-me, pressionando-me a ficar até mesmo de cara limpa. Para um feano, falta somente a gravata.
Uma resposta hipercodificada a um acontecimento insólito de minha irmã
Agora que, respeitando as normas de um bom lead, foram feitas as considerações mais importantes desse longo período em que não atualizei o meu blog, vamos aos detalhes. 2004. Toda vez que um ano vem, ficava olhando seu número até me acostumar com ele. Na porta do banheiro dos meus pais, logo diante da privada, havia um calendário, e era sentado, aliviando-me do peso do descomido, que dava meus cumprimentos diários ao ano novo e me despedia do antigo ao dar a descarga. Cada vez que via o calendário, o número voltava-me a ser estranho, e o processo cíclico de lê-lo e descomer as sobras das comidas de Boas Festas perdurava até que não desse mais conta de que o ano era novo. Ou melhor, que o ano não fosse mais novo.
Aqui na Alemanha não tenho um calendário em frente ao trono, mas sim uma pia, e, logo acima dela, um espelho. O tempo deixou de ser uma questão, e o ato de descomer tornou-se algo de, por um lado, religioso, com um recorrente batismo, lavagem de todas as minhas impurezas – oh Paloma, oh Virgem Maria, oh Espirito Santo – e de, por outro, existencial, com minhas reflexões agora muito melhores, depois de ter-me livrado daquele cabelo de bárbaro e ter-me adaptado, se não à própria, pelo menos ao visual da razão. Pois bem, se a Santa Trindade e Atenas (ou Narciso) apoderaram-se do meu descomer, meu ano novo ficou órfão. Não o tivesse comemorado intensamente diante do Portão de Brandemburgo junto a quase um milhão de pessoas, movido a absinto tcheco e ao som insuportável de Vangeles, não teria percebido sua passagem.
Mas não devo me apressar com o ano novo. Calma lá, Maurício, que isso aqui não é jornalismo. Contrariemos o lead que acabamos de defender e vamos a partir de agora pela ordem dos fatos, e não de sua relevância.
Natal na casa da tcheca, dados estranhíssimos sobre a fronteira tcheca, e a República Tcheca
Se já o havia anunciado, relatá-lo-ei agora. Mas não mesoclisadamente, que essa foi só para dar um pouco de seriedade e indícios de que, ao contrário do que o nome do país pode fazer imaginar, não escreverei nada de lascivo ou vulgar. E procurarei ser conciso. Sério.
Passei o Natal junto aos outros intercambistas brasileiros na casa da Alena, uma estudante de medicina tcheca que também faz intercâmbio aqui em Frankfurt. Assim, não limitaríamos a nossa viagem tcheca à capital Praga, onde sofreríamos em fazer o turismo pelo turismo, e aproveitaríamos um tanto da “real stuff”. Coisa de jornalista, coisa de intercambista.
Havia de tudo para ser perfeito nesse Natal (e já vou adiantando que realmente o foi); à medida em que no trem nos distanciávamos de Frankfurt em sentido leste, a neve que já virara uma pasta marrom nas ruas hesseanas parecia mais sequinha, virginal e abundante, polvilhada nos telhados declivosos de vilarejos incrustrados entre montanhas relativamente baixas (nem toda a Europa são os Alpes), margeando o rio Meno. Já deu para imaginar a cena bucólica, portanto não vou me estender aqui nessas descrições bregas. Direto ao ponto, chegando em Cheb, na República Tcheca, a neve já estava mais alta do que em qualquer outro lugar onde já estive. No trem, policiais estranhos vestidos de preto e com postura de assassinos de filme americano – bem diferente dos bonachões policiais verdes da Alemanha. Na plataforma da estação vazia, policiais de fronteira. Nenhum falava alemão, muito menos inglês. Passaportes checados, fomos abordados por um cigano. “Cuidado com os batedores de carteira”, disseram todos nossos colegas tchecos ainda em Frankfurt. Tudo a salvo no bolso interno do sobretudo, seguimos em direção à saída. Tudo escrito em tcheco. “Prosim, pozor”, no auto-falante – uma cadência perfeita. Sabe quando “sei lá”? Pois bem, foi meio que assim, um “sei-lá”. A primeira impressão foi a de ter voltado a um quase-terceiro-mundo; a segunda, a de que realmente estávamos no tal do estrangeiro. Mais estrangeiro seria, é verdade, um vilarejo no Uzbequistão ou em Mianma – nem ao menos conheço os alfabetos cirílico nem burmês (aliás, visitem o site http://www.omniglot.com, que é muito interessante mesmo! Dá até para ver como é a escrita mongol, uma das únicas feitas de cima para baixo, da esquerda para a direita!). Além do Dvorak, da Skoda e da música do É o Tchan, só sabia o país ser uma cacofonia. Precisaríamos de um guia nesse monte de desconhecido.
Então encontramos com a Alena e sua mãe, uma delas dirigindo seu Skoda. Sim, estávamos na República Tcheca. Do estacionamento da estação lotado de Trabants, Skodas e Ladas podiam-se ver blocões comunistas retocados com cores quase alegres. Lembrei-me de São Paulo e seus tropeços arquitetônicos.



A má impressão se dissipou assim que a Alena foi buscar uma amiga americana. Cheb é uma cidadezinha antiga de 88 mil habitantes com ruelas tortuosas; desde o fim do comunismo, seus prédios passaram a ser restaurados e uma vida noturna alimentada por prostitutas russas para alemão ver tem pulsado intensamente. De vermelho só parecem ter sobrado as luzes dos bordéis.
Mas não era em Cheb que a Alena morava. Fomos para sua casa na vizinha Franziškovy Lázně. Irado. Tipo assim, no meio do nada, sabe? Imaginem um campo enorme, vazio, completamente coberto de neve. Imaginem agora, em frente dele, algumas casas em construção, mais umas com um jardim grande e um bordel de esquina com um placar escrito “Carabic” ao lado de umas palmeiras, tudo em neon. E nada mais. Da hora. Irado.
Depois de deixarmos nossas coisas no quartinho reservado, saímos com a Alena para entregar não-sei-o-que para seus parentes. A neve estava que era só pó; de tão fria os cristaizinhos não podiam nem ficar grudados uns nos outros. Dizia onze negativos o termômetro, mas, segundo as teses do caro colega Mauro, devia fazer menos de 17°C negativos, pois a água salgada de dentro do nariz se congelava quando respirávamos mais profundamente. Os dedos dos pés pareciam congelar e a boca simplesmente paralizou. Não era possível falar sem parecermos bêbados. Junto a nós, os dois cachorros da Alena, um pastor alemão e alguma coisa que lembrasse um poodle (os tchecos parecem gostar mais de cachorros do que os alemães e ingleses!). Pareciam não estarem com frio quando brincavam, cagavam e mijavam na neve.
Os parentes da Alena moravam em blocos comunistas – cinza, quadrados, frios. Era surpreendente ver pessoas normais saindo sorridentes de seus apartamentos. Deixem-me pensar um pouco. Tem uma fruta de cactus que dá nos desertos acho que do Peru. Por fora é tão desoladoramente seca quanto um mandacaru; quando é cortada, no entanto, apresenta um roxo vibrante. Assim eram os “cohab”s comunistas dos tchecos. Acho que as pessoas estavam tão vibrantes por causa do Natal e da Slibovice (creio que mais de 50% de alcool), e eu tão roxo do frio – o que a própria Slibovice ajudou a resolver.
Então veio a ceia, que não é ceia, mas sim um jantar às seis (!!!) horas da noite. Sopa de frutos do mar de entrada, carpa à milanesa com uma maionese de prato principal acompanhada de champagne e bom vinho tinto tcheco. De sobremesa, uma infinidade de biscoitinhos feitos há dois meses especialmente para a ocasião, trazidos e trocados por parentes e amigos. A família da Alena era muito, mas muito simpática mesmo. Seu pai é representante da Pilsner Urquell (primeira cerveja clara do mundo, produzida em 1842) na Rússia (os 12°C negativos não eram nada para ele, acostumado com o inverno moscovita). Como ele era muito, mas muito simpático mesmo, deu para os exóticos visitantes um barril dessa que é provalvemente a marca mais tradicional da (verdadeira) Bohêmia. Numa mistura de inglês e alemão, explicou-nos o quão especial era a bebida dourada, reclamou dos Sul-Africanos que compraram a empresa, e eu devo ter parecido entender. Diante do momento histórico de tomar a primeira (mais uma vez verdadeira) pilsner, não me pareceu o mais importante entender esses detalhes (essenciais).
Do Natal para frente a temperatura só aumentou, chegando próximo do zero (ufa, mas que calor!). Visitamos a Franziškovy Lázně, balneário onde se concentram clínicas com médicos de primeiro escalão procuradas não apenas pelos tchecos endinheirados, mas também por alemães. Suas construções neoclássicas amarelas foram todas renovadas, cheirando a dinheiro. Grandes oportunidades à vista com a entrada na União Européia. Gostem ou não os tchecos dos sudetos, para quem ainda são remanescentes o atrito com os alemães.
No dia seguinte, a Alena e família viajaram para as Ilhas Canárias. Os brasileiros ficaram sozinhos na casa. Incrível que alguém dê tanta confiança a estranhos, não? Mas isso não bastou. Como disse, eles eram muito, muito, muuuuito gente boa. Não bastasse a acomodação gratuita, os avós ficaram de fazer café-da-manhã e janta para nós. Pois bem, tomamos o café e saímos com o namorado da Alena (Jan) para conhecer Cheb.
Estranho. Quando a esmola é demais, já se sabe o ditado. “Vamos conhecer a firma do meu pai”, disse o Jan. E o seguimos. A cidade começou a ficar para trás; íamos em direção de onde não poderia haver nada senão galpões abandonados, aparentemente pequenas fábricas desativadas com o fim do comunismo. Atravessamos uma cancela velha para entrar num terreno onde esses galpões se concentravam. Um caminhão enferrujado parecia abandonado, mas a neve socada e suja dava indício de movimento. Mas que movimento pode haver no dia 25 de dezembro?
Jan continuava na frente, guiando-nos quase calado, só indicando o caminho. Apontou para um galpão um pouco mais alto. “Aqui”. Os pés deviam estar meio molhados, mas tão frio estavam que não conseguia ter certeza – nessa temperatura o tato se engana. Talvez estivesse mais quente lá dentro. Entramos. À esquerda, uma escada. “Lá em cima”, apontou.
Que tipo de firma era essa a do pai dele?
Era essa a firma do pai dele?
Isso era uma firma?
O que era isso?
Tarde demais para perguntas, já havíamos começado a subir. Como não confiar no Jan? Já o havíamos conhecido em Frankfurt, quando visitara sua namorada; fora depois da janta de Natal para a casa da Alena, cumprimentou os pais e avós dela. Além do mais, éramos cinco contra um – três cabras machos de Fortaleza e dois paulistanos.
Passando pela porta lá em cima, entramos num escritório acarpetado. Seu irmão, o Pavel, estudante de Administração nos Texas, nos esperava perguntando se queriam um chá. Aceitamos. Aceitamos também as bolachas. Fabricadas, aliás, nesse galpão – uma fábrica de bolachas típicas tchecas do tamanho e espessura de um single de vinil. Ofereceram também um whiskyzinho, mas aí já era folga demais aceitar. Sua mãe surgiu sem tardar e, finalmente, com os filhos, levou-nos para conhecer como eram feitas as bolachas. Acabem com os ditados, os tchecos foram realmente gente fina prá caralh...
No final da noite, fomos os brasileiros, o Jan e o Pavel para Cheb, onde a cerveja era mais barata que no Brasil. Jogamos dardos, pebolim, e tudo saiu por menos do que um copo de Becker em qualquer barzinho de Frankfurt. Estávamos felizes, assim como nossos bolsos.
Dia 28, conhecemos o castelo de Loket, comemos “knedlo, vepřo, zelo”, ou, devidamente declinado nessa língua do Diabo, “Vepřové knedliký a zelý” (um tipo de pão, chucrute, presunto e um molho por cima, muito bom e nada saudável) de almoço e janta, com direito a um “Palacinky (crepe com sorvete e frutinhas silvestres) devidamente agri-doce. Ficamos impressionados com como as garotas tchecas são provocadoras (no bom sentido) e pouco sutis nisso. Não pudemos curtir muito à noite, pois no dia seguinte, ainda às três da manhã, teríamos que acordar, pegar um taxi (que nos extorquiu o quanto quis, malditos turistas ignorantes que somos) e de trem ir a Praga, cidade das cem torres, cidade dourada, cidade de Franz Kafka, pérola do Oriente. Nas palavras de Goethe, “a mais preciosa gema da coroa do mundo”.
Bruto, ranzinza, mal-educado e preguiçoso!
Se querem saber como é Praga, vão procurar na internet ou peguem o próximo vôo da Tam, pois não quero escrever roteiro turístico. Quero ir pela fringe, por mais que essa viagem, ao contrário de Franziškovy Lázně e Cheb, tenha sido puro turismo pelo turismo, com direito a dois guias locais (colegas de universidade). Vou, portanto, só dar uma idéia de o que é essa moça. Praga não foi destruída nem pela Segunda Guerra Mundial (com a exceção de sua prefeitura) nem pela arquitetura quadrada do comunismo; portanto, preserva a história arquitetônica de uma cidade nascida no século IX, que já foi maior que Paris e Londres durante a Idade Média, abrigou a primeira universidade da Europa Central (que alguns alemães insistem em considerar a primeira universidade alemã, para a raiva dos tchecos), teve o segundo metrô do mundo, junto com Paris. Com o fim do socialismo, tornou-se a cidade do Leste Europeu mais adaptada ao capitalismo, pronta para entrar na União Européia. Paralelamente, o turismo ocupou um local central em sua economia. Se isso é bom ou não, é difícil dizer (como a Virgínia já comentou, não é em tudo que o turismo beneficia a população local). Dinheiro eles trazem, mas são tantos, mas tantos turistas que os próprios habitantes evitam certas regiões centrais – eis a síndrome Copacabana. Os preços, que para os primeiros ainda são surpreendentemente baixos, nem sempre o são para os moradores. Não sei o quão bem-vindos somos nós, com nossas câmeras infernais.
Bom, vamos aos comentários nada-a-ver, senão vou contradizer o início do post. Viajar em grupo é foda. A maior parte do tempo é perdida com indecisões de uns, banhos demorados de outros, cartão de crédito roubado (pobre Yoli, mexicana gente fina amiga da irmã da Sue, vítima de batedores de carteira no meio da multidão de turistas vendo os engenhosos mecanismos do relógio da prefeitura funcionarem). Não dá. Viajar se viaja sozinho, com um mapa na mão e só. Mas não dá para reclamar tanto. O grupo em si acaba tornando-se o bom da viagem e a cidade, apenas cenário.
Resumindo, pois estou cansado de escrever:
Da hora-Ficar absolutamente perdido idiomaticamente, sem saber se fala em português com os brasileiros e a Yoli, em alemão com os intercambistas de Frankfurt (parte dos brasileiros mais os “guias” locais e o Augustin, francês de Lion, muito gente fina, que veste calça rasgada entre as pernas e não está nem aí), em inglês com quase todos, menos o Leonardo (aliás, é um martírio voltar a falar em inglês depois de ter ficado quatro meses falando em alemão; o resultado é algo como “we have to go to the Hauptbahnhof, aber wir haben, desculpa, we have to stablish ein Treffpunkt, otherwise we are going to... como se diz mesmo?”), portunhol com a Yoli ou francês (ou algo parecido) com a Yoli, o Augustin e a Harumi. Isso num país onde se fala tcheco, a língua do Diabo, em que as vogais desistiram de aparecer;
Da hora-Discutir sobre a obra para violão de Villa-Lobos com o vendedor de cartões postais;
Da hora-Conhecer a ópera onde a Don Giovanni teve sua premiére;
Dispensável-Não assistir à Don Giovanni nessa ópera;
Da hora-Ir a um concerto de Natal numa igreja barroca para ouvir não sei o que de Vivaldi (não importa o nome, Vivaldi é sempre igual, só muda a tonalidade), suíte em D menor de Bach e uma missa de Mozart;
Dispensável-Agüentar selvagens aplaudindo após cada movimento, dança, whatever. Oh, céus, oh, vida. E flashes durante a execução (como estava dizendo antes, o turismo...). Cadê a civilização? Humpf... (...um suspiro de lorde saindo de sua residência em Chelsea, ao ver que os pedestres que passavam em frente a seu jardim georgeano usavam a capa de chuva inadequada para o clima do dia) Se pudesse, apresentaria todos os turistas a minha suave e donairosa colega Natália Suzuki, a rica, para ensiná-los como se comportar em tal situação. Oh, a decadência, oh, o horror;
Da hora-Comer caviar com o dedão até se cansar das bolinhas estourando na boca. E por menos do que uma latinha de patê de presunto Sadia no Mercadinho Piratininga de São José dos Campos. Baixou o emergente. Falta ainda apoiar minha taça de cristal da Boêmia repleta de Moët-Chandon sobre minha mesa de mármore cujos pés são duas miniaturas da Vênus de Milo e duas do Discóbolo – aliás, mesa que doarei para a Campanha Fome Zero, pois diz a Natália Suzuki que a moda agora é o tal do rococó pós-moderno, que ter esculturas clássicas é básico demais para tempos de abundância;
Da hora-Comer biscoito Passatempo e bombom Sonho de Valsa;
Dispensável-Passar horas procurando restaurante para, finalmente, ser enganado em um pega-turista (o menu inteiro estava na língua do Diabo, nenhum prato barato era servido, ficando nós nas mãos de garçom enganador, que só nos propunha rato acima de R$20,00, maldito);
Da hora-Comprar Absinto (70% álcool) e conseguir contrabandeá-lo;
Dispensável-Não poder bebê-lo por querer guardar de souvenir;
Da hora-Receber mais dois carimbos no passaporte, além de um adesivo de visto bem bonitão, escrito em inglês e na língua do Diabo;
Da hora-Ir para megabalada de cinco ambientes por R$10,00;
Dispensável-Ter que ouvir Hip Hop na megabalada de R$10,00 e ainda sair mamado xingando Deus e o Diabo por achar que foi roubado – para depois achar todo o dinheiro escondido dentro do RG;
Dispensável-O dia seguinte. E ainda comendo fast-food americana.
Dispensável-Colega mexicana ter os cartões de crédito roubados, perder um cachecol e uma luva. E ir a restaurantes pega-turista;
Dispensável-Pegar bonde sem pagar por não saber onde comprar a passagem, morrendo de medo de surgir um fiscal;
Dispensável-Ficar com prisão de ventre;
Da hora-Pelo menos não ter ficado com diarréia.
Sem romantismos. Berlim é assim, e pronto. E escadas sombrias II
Se meu objetivo era ultrapassar a diversão que foi o meu Ano Novo de 2000/2001 no London Arena, talvez não tive tanto sucesso – difícil comparar uma festa num lugar superbadalado ao som ao vivo do Orbital e Leftfield com uma muvucona de quase um milhão de pessoas ao som de algum desconhecido com repertório altamente questionável, no frio, bebendo espumante em garrafa de fanta (pois não era permitido entrar na festa com vidro), sem ter onde urinar senão numa grade de segurança ou num container de lixo. De qualquer forma, a companhia foi ótima, e o visual, o Portão de Brandenburgo, inesquecível. O mesmo não se pode dizer dos fogos, que foram só um peidinho de nada se comparado ao que estamos acostumados a ver no Réveillon do Faustão. Mas tenho que terminar o comentário com elogios, senão darei a impressão errada de que a festa não foi ótima. Foi divertidíssima a cena de nós tentando acabar com as garrafas de vidro para conseguir passar pelos seguranças. Foi (quase) tudo muito bom.

Melhor mesmo foi o albergue, que serviu champagne e salmão de café-da-manhã, tinha banheiro (limpo e novo) para cada quarto, sala de musculação (da qual, para não contrariar minha natureza sedentária, nem cheguei perto). Funcionários simpáticos, elevador decente (há algo de errado nos elevadores europeus). Perfeito.
Agora, saindo um pouco das trivalidades, falemos um pouco do inevitável, a (ainda presente) diferença entre a antiga Alemanha Oriental e a Ocidental. Quatorze anos depois da queda do muro, os indícios da DDR continuam presentes, seja nos legendários Trabbis, seja nos blocões tipo “Cohab” cuja feiura a pintura colorida não consegue disfarçar. Por outro lado, na Berlim Ocidental, há todo tipo de experimentalismo arquitetônico que até hoje não conseguiu convencer tantos de sua beleza. Construções que procuram integrar um espaço artificial onde o público e privado (comercial) se misturam sem as barreiras de um shopping center, filarmônica amarela cujo palco se localiza no centro, tendo a platéia disposta em sua volta, como em um circo (Hans Scharoun, 1963), e assim por diante. Dizendo sem bases senão minhas impressões, Berlim ocidental pareceu algo assim, depois de ser bombardeada e, nos escombros, tentar por décadas fazer passado uma ideologia que mal deixou de ser presente, procurou construir um novo sem saber o que esse era. Bom, resumindo, o lugar é estranho. E foi disso de que gostei.
Ao contrário de Frankfurt, cidade irritantemente certinha, eficiente, onde pessoas trabalham e, no final de semana, fogem para casa, deixando-a deserta, Berlim é uma bagunça cheia de vida, de gente procurando se expressar, de gente brigando, de gente drogada e prostituída abraçada semi-morta nas privadas de banheiros da Zoo-Bahnhof, de gente em porões experimentando a música aos limites, de gente comendo Dönner Kebab por menos de dois euros e jogando video-game, de gente fodendo e de gente estudando. Como Londres? Não... muito mais espontânea. Ainda não sei o que é Berlim. É uma cidade a se experimentar.
Certa noite fomos a um barzinho escondido num prédio aparentemente abandonado no bairro supergrafitado de Kreuzberg, tomado por prédios decadentes, artistas experimentalistas, prostitutas e barezinhos diferentes. Sombrio. Tínhamos que subir alguns lances de escada no lugar abandonado onde não havia um espaço sequer sem um grafite. Por uma porta meio escondida entramos no bar. Música lounge feita artesanalmente provavelmente por algum desconhecido morador de um bairro periférico de Copenhagen. Numa parede, bilheteria para um cinema (mais ou menos a minha idéia do café-sebo-lounge-creparia-cinema) onde passaria Cidade de Deus. O DJ estava sentado numa mesinha ao lado de um sofá vermelho, conversando com os freqüentadores do bar. Infelizmente não tinha onde sentarmos. Saímos e fomos abordados por dois vendedores de droga, que procuraram nos persuadir a não subir mais as escadas. Subimos mesmo assim para procurar mais algum barzinho. Nada. Uma porta para uma república onde estava colado um aviso estranho – como eram os que moravam lá? Um estudante de artes plásticas em crise produtiva, deitado somente de cueca em seu colchão puído, tomando um copo de leite lentamente, há dois dias sem sair de casa com medo de ter uma idéia ao olhar alguém que vem contra ele na rua, correr de volta e, ao chegar, esquecer ou dar-se conta de como isso não é nada perto do que não consegue entender ao se olhar de manhã no espelho rachado, enquanto espera decidir o que fazer ao se dar conta de que a pasta de dente acabou e que não pode sair para comprar uma nova, sob o risco de entrar em ciclos viciosos existencialistas? Uma prostituta olhando sua coleção de bonecas enquanto depila as axilas, ao som do colega de apartamento ao lado, que arranha pentatônicas cambaleantes em sua guitarra velha, sonhando reconhecimento em meio a malditos viciados em masturbações virtualísticas Ingwie Malmsteinianas que não conseguiriam compreender a complexidade de seus solos pausados e aparentemente simples?
Último andar, e também nada. Uma feana que estava conosco começou a fotografar o local. Tínhamos que voltar. Gritos guturais. Descemos mais. Soavam lá de baixo. Chegando no andar do bar, os vendedores de droga estavam brigando com alguém do bar. Baixaria certa. Parte do grupo continuava em cima, a feana ainda fotografando. Ameaças entre os que litavam. Descemos mais um andar para ficarmos longe da briga e esperamos que os outros descessem, mas quem logo estava lá eram os vendedores de droga, mal-humorados, sentindo-se derrotados. Distância. Resignação. E foram embora.
Fomos, finalmente, a outro bar, o mesmo a que havíamos ido na noite anterior. Tomamos uma Berliner Pilsner, e tudo estava muito bem. Dia seguinte iríamos a Potsdam, ver, no inverno, o palácio de verão de Frederico, o Grande (palácio Sanssouci).
Mauricio, a escória genética, e a balada ariana
“Não acredito”, repetiu a Harumi algumas vezes enquanto estávamos a Sue e eu parados, pasmos, sob a chuva de uma noite de inverno em Frankfurt, diante da entrada da balada “Odeon”.
Minutos antes. Depois de quase uma hora numa fila sob essa chuva, cheguei na entrada da casa noturna. As meninas já estavam quase lá dentro. Dois seguranças aparentemente de origem turca controlavam a entrada. “Não entra”, sentenciou um deles. “Ei, Sue, espera que a fila parou”, gritei com todo o ódio do mundo – lei de Murphy, a fila sempre para no meio de um grupo. “Não entra”, e apontou para o lado, fora da fila. Obedeci. E os alemães atrás de mim seguiram seu caminho.
Achei que devia ser só permitido entrar com mulher. “Ei Sue, fala pro segurança que estou com você”. E a Sue tenta conversar com ele. A Harumi, perdida no meio dessa língua do Diabo. Eis que as duas são expulsas da balada. Ahn???
Será que é isso? Não é possível. Com a história que eles têm? Nem... Devo estar achando coisas. Preconceito racial é coisa do passado. Estamos em Frankfurt, um terço de população estrangeira, centro financeiro alemão, entreposto de multinacionais. Aqui todo mundo come Kebab e Rolinho Primavera. Devo eu ter feito algo de errado.
“Espera um pouco, deixa eu ver o que vai acontecer com esse indiano”, disse para as meninas. O moço estava bem vestido; ao contrário de mim, estava de barba feita. Muito bem. Não entrou.
E assim foi a primeira vez que fui discriminado racialmente. Tentei questionar os critérios pelos quais a seleção dos “insiders” e “outsiders” era feita. Nada. Resposta, “es geht nicht”. Não dá. Não entra. Não adianta. Não me encha. Saia daqui. Não. Não sei traduzir a expressão. Basicamente, é uma porta fechada. Não absoluto e irrevogável. Não adianta perguntar. Que ideologia está por trás de seus atos? É o capitalismo que te compra e, no doce contrato com seu empregador etnocêntrico, faz esquecer que você mesmo é um estrangeiro, que o põe no plácido lugar do ariano, fazendo-o orgasticamente sonhar a si mesmo ariano enquanto mija escárnio no espelho? O contrato de trabalho não lhe permite mais saber quem você é?
Mas a relação empregador/empregado não justifica esse ato. Digamos que a raiz esteja no dono da casa. Será que é suficiente fazer uma crítica a partir do capitalismo do ponto de vista dele? Digamos que faça essa peneirada étnica para dar ao público alvo ariano endinheirado a garantia de qualidade racial de seu produto, uma balada em que não há o risco de uma ariana ser abordada por um viralata qualquer. Qualidade garantida, cliente satisfeito, lucro certo, todos felizes. Mas, ainda não consegui chegar à raiz do problema. E creio que não chegarei. É meio que é porque é. Etnocentrismo é irracional, é baseado somente por idéia de identidade que se alimenta, desenvolve historicamente a partir dela mesma. Que, no entanto, não diz nada em si mesma. São monumentos baseados em nada. Digamos que não tenha me sentido feliz por ter sentido conseqüências reais baseadas no nada.
E por que estou falando aqui de capitalismo?