Segunda-feira, 08 de dezembro de 2003
Este blog foi censurado por forcas repressoras; as consideracoes sobre o desenho industrial tiveram que ser retiradas e daqui para frente tudo o que se referir a alguma pessoa deverá passar pela peneira moral do bonito e agradável. Esse é o presente que dou ao meu blog por sua 400a visita.
Um post insuportavelmente medíocre sobre faxina, culinária e camadas de gelo sobre os carros. E pombos mortos também.
Esse final de semana foi realmente produtivo – festa na sexta, festa no sábado, festa no domingo. Sexta foi organizada por estudantes polonesas numa cozinha da moradia estudantil “Todes Turm” (a torre da morte, prédio com uns quinze andares de onde os estudantes que não conseguem passar em seus exames pulam). As moças prepararam um tipo de ensopado de carne muito bom, que comi com pão e vinho. De lá, fui para a casa da Sue, pois não tinha mais ônibus noturno para Offenbach, onde moro. No dia seguinte, lavei o chão do meu apartamento, que não via um esfregão havia três meses – no mínim. O estranho aqui no Velho Mundo é que limpeza não é algo que envolva grandes quantidades de água. Portanto, equipamentos de tecnologia avançadíssima como o rodo e ralo no chão não existem. Tive que passar duas horas agachado no chão com uma escova e um Perfex. Passa detergente, esfrega, limpa com o Perfex, enxagua o Perfex, passa o Perfex de novo. Mas, de qualquer forma, o chão ficou uma beleza. Não fosse a minha mão, que ficou absolutamente destruída e dolorida como se necrosasse, poderia trabalhar como faxineiro aqui. Quatro euros por hora lavando cerveja derramada nas estações de metrô, fluidos corpóreos na Hauptbahnhof, catando embalagens de seringa nos parques públicos e restos de pombos atropelados na linha de trem (aliás, em toda minha vida só vi pombos mortos em Frankfurt). Vejo que já tenho um talento.
Depois fui com a Sue fazer compras para sua festa de aniversário, que aconteceria no mesmo dia, nesse sábado de sol (entra música dos Mamonas Assassinas). Leite condensado para fazer brigadeiro e beijinho. Para o bolo de cenoura já havia tudo, menos o liquidificador. Tivemos que ralar as cenouras manualmente nesses raladores de aço; no final, meu braço direito já estava mais forte que o esquerdo. Escrever isso está monótono até os ossos
Bom, resumindo, passamos das seis até as dez cozinhando. O brigadeiro ficou duro demais e o beijinho, sem cravo, mas o bolo ficou perfeito. Quando chegou o pessoal – mais de vinte pessoas, entre ingleses, franceses, poloneses e outros grupos menores – todos comeram e elogiaram muito. O Tomek, estudante de medicina polonês, falou que nunca comeu um doce tão bom quano o brigadeiro. A Sue ganhou vários presentes, entre eles um colete salva-vidas inflável roubado de algum avião, um mamífero que cantava Happy Birthday, quatro tíckets para o circo e um livro do Dostoiewiski (aquele cujo nome cada um escreve de um jeito).
(Ich langweile mich zum Tod, wenn ich so einen idioten Text schreiben muss...) Eram já cinco horas da manhã quando os últimos convidados foram embora. O apartamento estava um caos, com cerca de cinquenta garrafas de cerveja espalhadas por todo canto, batata-frita pisada no tapete, bolo de cenoura e bituca de cigarro amassados no chão. Eu e a Sue dormimos para, no meio-dia, acordado pela minha mãe, levantarmo-nos e fazer uma grande faxina (esse foi o meu maior presente para a Sue). (alguém agüentou chegar nessa parte do post, ou, ao enfado, preferiu matar-se?)
Depois da faxina, fui para casa tentar dormir. Os trens demoravam demais, como todo domingo. Na linha, como antecipei no início do post, havia um pombo atropelado bem na altura do que seria um pescoço. A cabeça e uma asa estavam separadas do corpo. O pombo parecia ser só de penas, como se pudesse pegá-lo e fazer dele um travesseiro. Ao mesmo tempo que olhava para aquele corpo, um homem andava na outra linha de trem. Bêbado, gritando contra as pessoas que esperavam o trem na plaforma. Não, ao contrário do que mandaria qualquer manual básico de narrativa, nada aconteceu. Nem por pouco. O homem saiu da linha antes mesmo que se pudesse ver no letreiro que algum trem viria. Um fato que não merece nota. Absolutamente esquecível.
Chegando em casa, mal pude dormir. Logo me lembrei que tinha mais uma festa para ir. Na verdade, não uma festa, mas um encontro com o pessoal da moradia estudantil “Porthstraße”, com quem eu saía sempre antes das aulas começarem. Nesses dois meses, tudo mudou bastante por lá; novos moradores chegaram, novas historiazinhas surgiram entre eles, e, quando vi, já me sentia um tanto um estranho entre eles.
Fomos no escuro para um playground esquecer que éramos adultos. Senti-me em algum filme dos EUA, desses que contam a história de um calmo vilarejo inesperadamente ameaçado por um psicopata perseguidor de criancinhas que brincam em playgrounds. Fazia zero grau ou menos; os capôs dos carros tinham uma camada fina de gelo que eu derretia com a minha mão, deixando uma “marca do crime”. Brincamos de balanço, de imperador (o estadunidense John assumiu o posto pela última vez, usando unilateralmente sua violência e gritando colérico “ich bin der Herrscher”, sem perceber que ninguém realmente o ouvia), atacamos uma francesa (que logo abandonamos devido a seus grutos de má soprano) e derrubamos uma polonesa, deixando-a ferida na perna (estratégia de apenas imobilizar o inimigo e capturá-lo vivo, para evitar baixas e mostrar como eram nobres nossos meios e justa nossa guerra). No final, um iraniano declarou-se o Senhor dos Anéis e voltamos para a cozinha do sexto andar do “Porthstraße Studentenwohnheim”, onde assisti a um filme de terror e experimentei um café feito com coador de chá. Como já era tarde demais para pegar um trem, acabei dormindo no sofá.
Hoje o dia acordou muito bonito e assim continua. Apesar de fazer algo pouco acima ou pouco abaixo do zero, não parece estar tão frio assim. A grama está congelada e no laguinho da faculdade boiam uns flocos de gelo que mais parecem espuma de poluição. Comi um bolo de uvas passas muito bom e tomei um banho longo de banheira, para poder enfrentar o frio depois. De almoço, comi algo sem gosto e quase derrubei a minha bandeja duas vezes. Estou vestindo uma camiseta da Eca, meu cabelo não é cortado há quatro meses e a minha barba há quase um. Tinha que ler um texto de Maquiavel agora, mas, depois de alguns dias dormindo cinco horas em sofás alheios, estou cansado demais. Preferi escrever esse post medíocre, sem sal, sem nada de novo, nada de transgressor.