Algo entre o dia 30 de junho e 7 de julho de 2004
Desimportâncias
Depois de meses sem contar os detalhes da vida francoforteana (não digo a minha vida em Frankfurt, mas sim a vida de Frankfurt), lembrei-me de algumas passagens (des)interessantes dessa cidade previsível.
Diante do que seria a versão francoforteana do DCE, estava sentado um homem pelado. Mundrungo do outro lado do Meno. Conversava com um colega do outro lado da mesa, debaixo de um guarda-sol posto prematuramente no início de um verão pouco marcante. Uns quarenta anos, barriga de chopp, bunda sentada sem cerimônia diretamente sobre a bancada de madeira. À volta, o dia continuava com a monotonia usual dos dias sem novidades.
Como de regra na minha caixa de correios, onde só aparece propaganda de pizzaria e de festa universitária, recebi hoje uma revista gratuita do estilo “o que está rolando”, com notícias superinteressantes do Big Brother e outras variedades essenciais para nossa condição humana. Grande indicação da revista: onde nadar pelado. Título? “Ver e ser visto”.
E exatamente agora é a final da Copa Europa; só assisti aos primeiros quarenta minutos, quando ainda estava (e será que ainda está?) zero a zero. O torneio passou, os alemães ficaram olhando para atrás, alguns ainda torcendo pela Grécia só por causa de seu treinador; a Europa parece que vai voltar à normalidade (pelo menos na Alemanha as pessoas provavelmente vão deixar de papear no metrô por falta de assunto, pois isto aqui não é Inglaterra para se ter a chuva como laço social através de conversa ligeira).
Alguém acabou de gritar “Portugal” na rua (e eu ouvi como se fosse em meu ouvido, mesmo morando no 16º andar), de onde pressuponho que meu colega Napoleão deve estar se divertindo muito com seus amigos lusitanos neste momento, nas terras do colonizador. Ainda não ouvi ninguém gritar “Grécia”, de onde pressuponho que nossos colegas helênicos devam estar procurando pensar nos jogos olímpicos ou em com quantos Gyros se come um carneiro.
Ontem aconteceu o “Sounds of Frankfurt”, megaevento musical que tomou as ruas do centro francoforteano das quatro da tarde até as quatro da noite, espalhando em frente a nove palcos temáticos um multidões de jovens hessianos. Quiosques de bambu com mulatas brasileiras vendendo caipirinha por €6,00, banca de Kebab e de salsichão na brasa, palco latino, palco Hip Hop (a letra maravilhosa “[mulher] fick mich, baby; [homem] ich ficke dich, baby” não era de deixar nenhuma funkeira Quebra-barraco para trás), palco rock, torre techno, o diabo. Mas o melhor foi o palco do DJ de música alemã de paródia, que me levou ao mundo mágico dos limites do mal-gosto (no início desse semestre eu estava fazendo a disciplina “Kitsch – posicionamento crítico diante do Mau Gosto; posso dizer que essa noite representou um embasamento empírico definitivo para meu repertório teórico). É desnecessário dizer que lá estava o público mais animado, as pessoas mais sem-noção, as danças mais tomasianas-napoleônicas. Nada que não haja no Brasil, claro – talvez seu melhor paralelo seja a “Trash 80’”, onde, aliás, nunca estive – mas de qualquer forma os ostrogodos mostraram mais uma vez sua superioridade: não apenas fazem o melhor salsichão na brasa, como produzem o maior lixo musical do mundo. Não diga ao alemães, mas ainda há, sim, algum motivo para se ter orgulho de ser um.
Quinta-feira voltei a Bonn para pegar meu visto para a Rússia. No dia anterior, ficara no Jazzkeller até as 3h30 da manhã conversando com um músico barroco amigo de um percursionista francoforteano de origens finlandesas, namorado de uma brasileira de Belo Horizonte que estuda Artes Plásticas por aqui. Cheguei no meu apartamento às 4h e às 4h30 já fui embora para fazer a longa jornada de quatro horas até a antiga capital da República Federal da Alemanha. Às onze estava com meus vistos em mãos, todo escrito no alfabeto cirílico (segundo o que consta lá, meu nome é Xopta, que indignidade!). Estava de volta em Frankfurt às três da tarde. Fui dormir duas horas depois, contabilizando no final 32 horas sem dormir. Mas valeu a pena, depois de toda a complicação que foi preparar essa papelada – seguro de saúde válido em território russo, convite formal para viagem comprado em um site de internet, visto extorsivo por €90,00, duas viagens para Bonn...
E agora tenho a absoluta certeza de que o jogo terminou. Depois de meses sem ouvir um “fon-fon”, tenho que agüentar algum homem de neandertal fazendo batucada na rua com sua buzina. Se tiver realmente Portugal ganhado, terei acabado de descobrir de onde vem os hábitos sonoros dos motoristas brasileiros em horário de rush.
O dia passou, descobri que a Grécia ganhou e o meu português vem ficando cada vez mais indecente...
...e estou com saudades. Por algum motivo ou outro que não vem em questão aqui, senti nessa semana que até poderia morar mais um ano na Alemanha, desde que, claro, em uma cidade maior – talvez Colônia, onde as pessoas são muito mais simpáticas, talvez Berlim, onde não importa se as pessoas são simpáticas; Hamburgo provavelmente não porque lá tem muita putaria e eu fico com vergonha dessas coisas, e Munique também não, que os ostrogodos daqui dizem que os ostrogodos do sul são meio estranhos; fiquei com medo do que os ostrogodos daqui possam querer dizer com os ostrogodos de lá serem estranhos e acabei preferindo ficar por aqui. Resumindo, estou com muita saudades e, como a perspectiva é de não poder permanecer nem em Frankfurt nem em nenhuma cidade grande, dia 21 embarco para São Paulo, minha cidade predileta. Antes, no entanto, vou a Roma, pois tenho boca (bãã) e quero encontrar com a minha colega ecana Renata, que vai sair de São Paulo e fazer intercâmbio em Siena exatamente enquanto eu, a Sue e o Napoleão estaremos voltando para a ECA. Estou feliz; nunca estive em Roma, mas a impressão que tive do país quando estive em Veneza e Verona foi muito boa. Senti-me em casa.