Quinta-feira, 6 de agosto de 2003

Ao deixar minha avó na estação da Luz, após ter ficado três dias em minha casa de São José dos Campos, parei um pouco em meio aos tapumes, camelôs e pedreiros, dei um suspiro e pensei, ?como a idade deixa as pessoas moralistas?. Referia-me a suas criticas aos filmes que assistia (?quando acabar essa putaria você me acorda; não quero nem ver...?) e louvores à pena de morte (?esses bandidos que jogam pneu no rio... tinha tudo que ir pra prisão. Ou melhor: paredón. Tinha tudo que morrer!?). Esperava outra coisa da minha avozinha ex-comunista, primeira mulher candidata a cargo político em Ituverava. Mas, deus a abençoe, ela é só uma inocente velhinha aposentada cujo voto é facultativo.
Nesse grande caos que criam relações malucas em nossa cabeça, apareceu-me o papa. Recentemente o vaticano (letra minúscula) publicou um documento direcionado a políticos cristãos do mundo inteiro aconselhando-os a combaterem as leis ou projetos de leis que oficializem a união civil homossexual. Velho caduco ou bárbaro medieval. Espero que minha avó não chegue ao estado do pontífice e de sua gangue decrépita.
O documento foi redigido pelo cardeal alemão Joseph Ratzinger - não poderia ter sido o próprio papa, pois o guru polonês, perdido em suas alucinações aquém do Bem e do Mal, está incapaz para distinguir uma hóstia de um papel com ácido, uma taça de vinho duma xícara de chá de cogumelo, a bíblia (minúsculo...) do Alice no País das Maravilhas. Sua argumentação discorre do campo teológico até o biológico, misturando uma tal de ciência e outra tal de ética natural. Ética natural! Espero que o vaticano consiga provar que o leite seja a polpa da fruta Tetra Pak, que brota nas gôndolas do Carrefour. E que os peitos de Daniele Winits - bless her... - sejam resultado de um naturalíssimo aceleramento hormonal decorrente do sucesso profissional. Afinal, assim (os) quis deus, amém.
?O homem e a mulher são iguais enquanto pessoas e complementares enquanto homem e mulher. A sexualidade, por um lado, faz parte da esfera biológica e, por outro, é elevada na criatura humana a um novo nível, o pessoal, onde corpo e espírito se unem.? Bla bla bla. Então, in nomine pater, filis et cetera, apenas uma forma de união seria possível - o matrimônio, abençoado por deus e bonito por natureza. O homossexual, por seu lado, deveria ser visto com carinho e compaixão, desde que se mantivesse casto. Da mesma forma como a miss chapinha deve ter a mais profunda admiração por seu cabeleireiro desde que ele se ocupe bem fritando suas melenas - e não roubando seu namorado.
Soma-se ao currículo desse papado fundamentalista a atitude terrorista assassina de condenar o uso da camisinha. Veja, Bush. Você procurou o terrorista errado. Mas ainda tem tempo para continuar com sua roleta. Uma hora você acerta. Só tenha cuidado com os espelhos.
Embora haja os que celebrem o guri Carol como um dos maiores personagens do século 20 (o jornalista Carl Bernstein em texto publicado em 1998, por exemplo, pareceu muito grato pela ?luta? do pontífice contra o comunismo), para mim ele continua sendo um grande gagá. Louva-se freqüentemente sua atitude de desculpar-se por erros históricos da igreja católica. Isso, creio, é apenas mais um sinal de sua demência senil. É desculpar-se para continuar errando. Com o veto à mulher em cargo eclesiástico, com o veto à camisinha, com o veto à união homossexual.
A sorte da humanidade é ouvirmos o papa como a uma avó de oitenta anos.