Sexta-feira, 06 de fevereiro de 2004


Estranho. Acabei de passar por uma porta dessas que fecham automaticamente; como seria normal para dobradiças mal lubrificadas, ela me respondeu com um rangido. Digo, seria normal se esse rangido não tivesse soado um saxofone tocando os primeiros mi, sol de uma improvisação boboca que continuou na minha imaginação. Às vezes eu acredito ter largado a música para sempre, mas esse tipo de fantasma me faz dar conta de que não.

Acabando com bobagens, ou melhor, mudando de bobagem, acho que o Brasil está começando a virar moda aqui em Frankfurt. Como se pode imaginar, toda vez que vejo alguém com roupa verde-amarela escrito “Brasil” já imagino tratar-se de mais um intercambista tupiniquim passando frio por essas terras de salsichões e cerveja de trigo. Dou uma olhada e uma ouvida melhor e percebo ser alemão. Que Frust. Isso já vem acontecendo a dias e foi comentado por outros colegas brasileiros. Hoje na faculdade vi o exemplo mais bizarro – uma moça com sapatos verde-amarelo, bolsinha de bandeira do Brasil e camiseta com o nome do país escandalosamente estampado – faltava ainda carregar um berimbau e pintar a cara com urucum. Bom seria se essa moda se refletisse nas agências de turismo, nas bilheterias de cinema (e não quero dizer só Cidade de Deus) e nas gôndolas de supermercado. Por enquanto, a gente se contenta vendendo limão e manga. E vendo a germanada se vestindo de canarinho – o que já dá alguma satisfação, é verdade.

Agora, às novidades desses quinze dias. Enquanto alguns brasileiros da faculdade começam a ir embora, vou conhecendo outros – para minha felicidade e para a infelicidade do meu alemão. Ontem foi a despedida do Bernardo, um dos fortalezense com quem eu passei esse semestre de festas, viagens e, ah, sim, estudos. Depois de comer um estrogonofe (que, como de costume, eu fiz), estávamos os brasileiros no bonde em direção à estação central lembrando de quando nos conhecemos, no refeitório albergue de Frankfurt. Eu tinha visto algumas vezes um grupo muito estranho de brasileiros, meio com cara de traquinas, meio com cara de perdidos, que andavam sempre juntos – o Mauro, magrão de mais de 1,90m, e dois mais baixos – Bernardo e Leonardo. O alto, com aquele jeito onipresente de farol na praia, vestia uma camiseta do São Paulo (time para que eu torceria, não fosse o fato de não suportar futebol). Taí um pretexto para uma conversa. Perguntei, “São Paulino, hein?” – e ele fez uma cara de “Ãhn?” Um desastre de comunicação. Voltei para a mesa com a Sue e, enquanto terminava o meu café da manhã, reclamei da estranheza dos garotos. Voltando ao bonde, o Mauro contou o outro lado da história. Estavam eles no refeitório se servindo daquele pão duro que, depois de duas semanas, já não conseguiam nem mais ver, e eis que aparece um cara estranho que pergunta “São Paulino?” e logo vai embora. “Eita cara estranho!”

Pois é, chegamos na estação central e, depois de várias fotos e olhares feios dos outros passageiros, despedi-me dele. Ontem foi a vez do Bernardo; já dia 21 é a do Mauro e do Leonardo; dia 26, do Felipe. Sobram eu e a Sue. Mas, como já disse, temos conhecido outros brasileiros.

Primeiro foi a Karen, filha de alemão e brasileira, que estudou no Porto Seguro e agora estuda Administração aqui em Frankfurt. Depois, a Patrícia, filha de alemães que adotaram o Brasil (quando sua mãe voltou para a Alemanha para visitar as filhas, ficou horrorizada – que país mais infeliz! Os cachorros nem latir latem! Parecem até gente, que tristeza!). A Patrícia é uma altona com uma incrível voz de cantora de fossa ou de anunciadora de aeroporto (e isso é um elogio, que fique bem claro). Muito gente fina, praticamente adotou a brasileirada nesses últimos tempos. Com ela fizemos a difinitive, ultimate megabrasilianische Party, a melhor festa de toda a história dos intercambistas, com direito a caipirinha, beijinho, brigadeiro, bolo de cenoura, bandeira e hino nacionais e patrulha policial às cinco da manhã. Um sucesso.

No aniversário da Patrícia conheci ainda a Ana, que estudou no Humboldt em São Paulo, e seu namorado, de Peruíbe, que já morou alguns anos de aventureiro em todo canto da Europa. A Ana havia feito uma torta muito boa de chocolate e coco; perguntei-lhe como havia feito a parte de chocolate, mas ela meio que não quis dizer a receita. Pensei “ah, serelepe, vou descobrir”. Peguei mais um pedaço e dei uma analisada no sabor e na textura. “Já sei; pega uma barra de 400g de chocolate amargo; enquanto você o derrete em banho-maria, bate meio litro de Schlagsahne (creme de leite fresco) e, estando no ponto de chantilly, mistura com o chocolate. Então você adiciona ainda duas claras batidas em neve e põe tudo na geladeira. Teria ficado melhor ainda se tivesse adicionado um pouco de conhaque, que teria até melhorado a textura, mas... bom, isso já é questão de gosto”. A moça ficou com uma cara de caju verde e chamou a Patríca “onde é que você achou esse ET???” Tenho que admitir que fiquei bastante orgulhoso....

Mudando radicalmente o assunto, já resolvi meu problema luhmanniano. Falei “fuck off” para a teoria de sistemas, e estou bastante contente com isso. Uma noite dessas estava conversando com um estudante de filosofia sobre o tal do Luhmann e as relações dos sitemas com o ambiente; ele me explicou tudo – e tudo me pareceu muito fácil e óbvio. No entanto, não consegui encontrar nada do falado no texto “Weltgesellschaft” (Luhmann, 1975), do qual teria que escrever um resumo. Conversei com estudantes de sociologia – ninguém conhecia o moço com profundidade; só me diziam que, oh, sim, ele havia desenvolvido uma teoria de sistemas, mas isso não era novidade alguma, e que ele e o Habermas viviam em atrito – o que também não era novidade. Como eu já não conhecia quase nada de Habermas (já fui a uma palestra dele durante as comemorações do centenário do Adorno; tudo o que consegui entender foi que era impossível entendê-lo por três fatores: primeiro, porque ele era Habermas; segundo, porque ele falava em alemão; terceiro, porque ele, tendo lábio liporino, falava pelo nariz), ele não me ajudou muito a entender Luhmann por exclusão. É, tenho que acostumar com o fato de eu ser pouco mais inteligente do que uma porta e pouco mais burro do que sua dobradiça.

Ah. Drops de notícias.

Acho que semestre que vem vou começar a estudar japonês. Quem sabe assim possa ganhar uma bolsa de estudos no Japão quando pegar meu diploma?

Amanhã vou para Strassburg. Detalhe: como já é normal, estou gripado – quem sabe não é a gripe do frango? Vale lembrar que todo dia pego o trem que passa pelo aeroporto internacional de Frankfurt, por onde todos que entram de avião na Alemanha precisam passar... Imaginem só eu aparecendo na Folha como “morre na Alemanha primeiro brasileiro com gripe do frango”?

Ah, sim, isso foi só para assustar a minha mãe.

A Marília passou um e-mail com proposta de vaga de estágio em relações internacionais. Ai, que vontade de pegar... Semana que vem entrarei em férias. Vou receber meu colega Napoleão com sua patroa em duas semanas, vindos diretamente de Paris. Já recebi convite para retribuir a visita e também para dar um pulinho em Varsóvia. Como podem imaginar, estou feliz. Ah, fiquei sabendo que o Napoleão vai para a Rússia em julho. Acho que vou começar a vender meus órgãos para viajar junto.