Quarta-feira, 05 de novembro de 2003
STREIK!!!
GREVE!!!
Frankfurt, Alemanha. Sao Paulo, Brasil. Há pouco em comum entre as duas cidades, e muito menos entre as duas universidades... mas, ó céus, a história já é velha e continua na ativa: o ensino superior (gratuito e de qualidade, sim) tem deixado de ser dado como direito básico num tempo de Estado mínimo - embora seja difícil considerar a Alemanha um Estado mínimo. No Brasil, as fundacoes e os projetos no mínimo criativos (sim, aspas) de aumento de impostos para aqueles que tiverem estudado em instituicoes públicas; na Alemanha, cobranca de mensalidade.
Mensalidade? Ó, céus, ó, vida. Uma cobranca de EUR50,00 por semestre nao parece muito para um país com renda per capita de mais de US$27.000,00 que pode fornece aos estudantes bolsas de estudo bem mais altas do que o rendimento da maior parte da populacao brasileira - isso se se ignorar o fato de o ensino superior a princípio dever ser gratuito. Mas o projeto de reforma do ensino superior na Alemanha nao para por aí, e é nesse seguinte ponto que os estudantes batem o pé, primeiro em manifestacoes, e, agora, em greve.
A Alemanha é um dos países com populacao estudantil mais velha do mundo. Considerando que só o ensino fundamental e médio já ocupam no mínimo 13 anos do estudante, é raro alguém entrar na Universidade antes dos 20, onde ele tem liberdade de permanecer muito tempo. Muito. A quantidade de universitários com mais de 28 anos nao é pequena (eu mesmo me sinto um catatau aqui do alto dos meus 21 anos). Como se pode imaginar, os recursos sociais sao limitados, e, como recentemente ocorreu aí no Brasil, uma reforma para cortar gastos se fez necessária, segundo os políticos do ?déficit zero?. Qual seria a estratégia mágica? Nao apenas taxar os universitários, mas também sobretaxar, em até ?1500,00 por semestre, aqueles que ultrapassarem o 13o semestre de estudo.
Quais sao as questoes que automaticamente se fazem? Seria justo com aqueles que estendem seus estudos por ter que trabalhar simultaneamente para financiar seus estudos, ou por ter que cuidar de seu filho, ou por ter sofrido algum imprevisto (o mundo nao pode parar com sua "lógica" caótica de desastres e coincidencias porque voce tem que completar seus estudos)? Quanto tempo é suficiente para uma formacao, ou para o desenvolvimento de algum projeto academico? Quem pode determiná-lo? Políticos que tem em vista o corte de gastos sociais? Para os estudantes da J.W.Goethe Universität, nao.
Semana passada houve já um protesto - um alerta de greve, em que a palavra nao foi ainda muito contundente. Ontem, houve outro, em que foi feita a votacao pela greve. Nao se pode dizer que tenha sido unanime a decisao, mas uma maioria significativa foi a favor. Contanto com cerca de 5mil dos 30mil estudantes da universidade, a manifestacao iniciou-se na praca da universidade e seguiu em direcao à prefeitura de Frankfurt. A Sue ficou bastante animada pela pulsacao política do movimento estudantil daqui. Eu, como sempre, fiquei mais cético - creio que a mobilizacao tenha sido tamanha porque a reforma pega no bolso do alno. Se houvesse projeto semelhante no Brasil, teríamos muito mais do que estudantes vestindo chapeus de chefe de cozinha discursando na frente da prefeitura.
Pois é, estou entao em greve - ou pelo menos acho que estou. Nunca imaginaria que isso viesse a acontecer. Parece assustador, mas a USP tem muito mais estrutura do que o campus Bockenheimer da J.W.Goethe Universität (nao posso falar o mesmo do campus Westend, que realmente parece um conto de fadas, com bandeijao bom, barato e sem fila, prédio bonitinho de mármore ou coisa parecida, laguinho com cascata e todas as outras frescuras que os americanos puderam aproveitar durante sua ocupacao militar na Alemanha. O campus Bockenheimer é uma versao caricata do prédio das Sociais da FFLCH. Imaginem uma torre de trinta e tantos andares ocupada por estudantes de ciencias sociais. Imaginem um país onde há resquícios de um trauma histórico que volta e meia se manifesta como assombracao, contra a vontade de quase todos (especialmente, claro, esses estudantes de ciencias sociais). Imaginem que nao haja nenhum tipo de constrangimento contra pixacoes nesse prédio nesse país com esses estudantes. Sim, nao há nenhuma parede que nao grite alguma palavra de ordem. Durante greve, entao, as paredes falam com altofalantes. O que é ótimo, claro.