Sexta-feira, 5 de setembro de 2003

Comecaram as aulas no curso intensivo de alemao. Como sempre, ao todos intercambistas se reunirem e conversarem antes antes do teste de nível lingüístico, tive aquela impressao de que todos ao meu redor falavam muito melhor do que eu - sim, muito justificável, já que os europeus já teriam aulas de alemao logo no ginásio. Pois lá vou eu, faco minha provinha (tema idiota: prós e contras de se estudar no exterior) e descubro que fui colocado na classe de nível mais avancados. Achei tudo isso muito estranho, mas, quando comercaram as aulas vi que mesmo aqueles que falavam bem tinham dificuldades que em dois minutos de conversa ficavam bem claras.
Bom, e como será que vou em termo de vida social? Nao poderia estar melhor. O grupo de brasileiros (eu, a Sue e o Felipe da USP e o Bernardo, o Leonardo e o... esqueci o nome, de Fortaleza)é um pouco unido, mas eu e a Sue acabamos mesmo é nos ajuntando aos eslavos. Nas duas últimas noites fizemos festas nas cozinhas dos "crusps" onde as polonesas Gosia e Marianna moram. Muito legal. Tem um povo absurdo da Polônia aqui que vai estudar Sociologia com a gente, tchecos que estudam medicina e economia, um lituania, um da Hungria e assim vai. É por enquanto o povo com quem mais nos identificamos.
Nas duas noites fizemos caipirinha, e todos adoraram, apesar de faltar gelo (o que é uma heresia, eu sei). O limao brasileiro custa aqui uma fortuna (cerca de R$1,50 por unidade), mas vale a pena. Uma dose de caipirinha numa feira multicultural custa cerca de R$15,00.
As moradias estudantis na Alemanha nao sao exatamente aquilo que um brasileiro geralmente espera encontrar num país de primeiro mundo. Aliás, comparando com o alojamento em que fiquei durante um curso de inglês no King's College em Winchester, nao pude senao confirmar que o abismo entre o servico social público e as "facilidades" da iniciativa privada independe do país. Resumindo, o que difere a moradia estudantil da J.G.Universität e o Crusp é a quantidade de portas com fechaduras que se tem que atravessar para entrar em um apartamento e o fato de aqui nao haver salas, apenas quartos cujas porta se alinham em um corredor que dá para um banheiro e uma cozinha comunitários. Parece que uma francesinha charmosa da minha classe de alemao nao está tao contente com seu quartinho. Boa sorte para a próxima vítima do déficit habitacional de Frankfurt.
Por falar em déficit habitacional, sim, aqui nós temos mendigos. E sem-tetos. E vandalismo. E limao e manga e pinga. E calor e frio ao mesmo tempo. Estou sentindo-me em casa.
O que seria tao diferente? As pessoas sao ou mega-simpáticas ou monstros que soltam gritos grutais "Rrrrrraus!" (para fora!). Podemos tirar um desses "ou" e os dois alemaes se fundem em um brasileiro. É incrível também como os horários sao bizarros aqui. Para preencher um formulário de acesso à internet é preciso comparecer a uma sala de computador entre a uma e as três da tarde (detalhe: meu horário de almoco é entre 12h30 e 1h30, de onde se chega à conclusao de que para se inscrever no servico de informatica da Universidade nao é possível almocar.

Momento de esclarecimento
Nao, Virgínia, eu nao fui para a Escandinávia. Conte os travessoes e verá que os mochileiros eram os outros brasileiros

Provei uma bebida tcheca. Já disseram que parecia Whisky, mas nao concordei. A gradacao alcoólica era 50. Servi cachaca para o tcheco, e ele disse que a brasileirinha era melhor que a tchequinha. Sinceramente a tchequinha me agradou mais. Um dia EU descubro o nome, compro e sirvo para meus amigos.
A possibilidade de encontrar um emprego aqui nao parece ser tao pequena. Como tudo aqui é centralizado (e supostamente eficiente), existe um centro de emprego para universitários num tipo de centro acadêmico/student services/DCE daqui (ainda vou descobrir o que isso realmente é. Assim que estiver com as coisas mais calmas, o curso de alemao terminado e um apartamento para morar, eu pego um bico por aí, para os finais de semana. Assim espero poder viajar para Praga nas férias de inverno. O tcheco da pinga convidou todos os brasileiros para conhecer sua cidade. Dizem que é a cidade mais bonita da Europa. Se ultrapassar Edimburgo, ficarei muito satisfeito, mesmo que me custe muitos pratos lavados, chaos esfregados e cervejas servidas.
Hoje vai rolar mais uma festa no apartamento de outra polonesa. Nao vai dar agora para fazer caipirinha, senao acabará nossa pinga e nosso dinheiro. Acho que ficaremos satisfeitos com a cerveja alema e o Apfelwein (Äffelwol, ou coisa parecida), bebida tradicional do estado de Hessen, onde fica Frankfurt. Viel Glück para mim!"