Terça-feira, 04 de março de 2004
Quando meu caro colega Napoleão esteve de visita aqui em Frankfurt, discutimos se seria possível alguma forma de aproximação acadêmica na América Latina de forma próxima do que há aqui na Europa com os programas Erasmus e Sócrates, que oferecem aos estudantes universitários europeus bolsas para cursarem um ou dois semestres em universidades de outros países do continente. Imaginem, portanto, se se transformasse em costume que em sua classe de aula houvesse um estudante mexicano, outro boliviano assim como que um ou outro saísse de sua turma para passar um semestre no Chile ou, seguindo os sonhos de um terço dos meus colegas cejotaeanos, em Cuba.
Pois é, esse tempo vivido com so Erasmus (como chamamos os intercambistas por aqui) tem-me feito pensar bastante nisso. É evidente a existência de uma identidade latinoamericana – e basta morar no exterior para comprovar como os “latinos”, por mais que os brasileiros nao tragam essa camisa aberta nem esse bigode aparado, tendem a se agrupar. Foi o que aconteceu quando morei na Inglaterra e é o que acontece com a minha ex-colega Ilka no Japão. Não é esse pan-latinismo que eu defendo; ao contrário, acho negativa a reafirmação de identidades, pois são limitadoras. Gosto mesmo é de uma putaria cultural. No entanto, acho que esse é o caminho mais fácil, barato e óbvio para criar uma cultura de intercâmbio que deveria se expandir a outros cantos do mundo – e esse mundo não deveria se limitar apenas a Europa, Estados Unidos e Japão.
A política externa do Brasil se direcionou com o governo Lula à aproximação dos pobres-mas-nem-tao-pobres e, de repente, Índia, África do Sul e China parecem ter se tornado grandes parceiros. Por que não concretizar os planos de aproximação com o incentivo ao intercâmbio acadêmico entre esses países? A Índia tornou-se exemplo exaustivamente citado de pólo tecnológico em países pobres e possui o maior centro produtor de cinema do mundo e nem vale a pena eu perder tempo falando da importância econômica da China. Nada me faz deixar de crer que, por exemplo, brasileiros graduandos em Audiovisual não teriam interesse de passar seis meses em Calcutá ou Mumbai nem que haja estudantes de economia ou relações internacionais que gostariam de fazer o mesmo em Pequim, mesmo que fosse para aprender a língua.
Para continuar a orgia de culturas...
Estava surfando por páginas brasileiras sobre cinema quando encontrei uma matéria dizendo que o Brasil e a Argentina lançarão um órgão do Mercosul que visa integrar as indústrias cinematográficas dos países membros e associados. E o que isso quer dizer? Que a Globo Filmes vai se expandir para a Argentina? Preciso de respostas! Respostas!!! E não adianta procurar nada no site do ministério da cultura, nem no da ANCINE, nem do argentino INCAA.
Leituras de férias
Férias... e nada para fazer. Se tivesse dinheiro, viajaria. Não o tenho. O que fazer? Ler. E comer. Como comer também gasta dinheiro, mais leio que como. Mas mesmo assim, como muito. E nada de imaginar grandes manobras intelectuais, que nem Luhmann nem Habermas vão me caçar nessas férias. Estou em hibernaçao tan-tan-tan-sófica; agora quase só leio romance. Claro que tempo não quero perder, então procuro ler na língua original para treinar um pouco idiomas. No fundo isso faz com que a gente pense menos ainda, pois não permite que se percebam nuances, subentendidos, nada.
Comecei há tempos com “A Montanha Mágica” (T. Mann), que nunca que termino (e se Hans Castorp planejava ficar em Davos por três semanas e ficou sete anos, posso dizer algo parecido sobre minha leitura...), e segui com o “Retrato de Dorian Gray” (O. Wilde), “A Peste” (A. Camus), “O amor em tempos de cólera” (G. García Márquez), e, fora da ficção, “O que é cinema” (A. Bazin), “O que falar quer dizer” (P. Bourdieu) e “A dialética do Esclarecimento” (Adorno e Horkheimer – que tenho usado mais para treinar gramática alemã do que para entender, hehe). É claro que o tempo todo só leio os romances, e, quando me canso – e não estou com fome – dou uma olhada nos teóricos. Ai, ai, ai. É ridícula a situação – ler uns sete livros ao mesmo tempo por não ter dinheiro para viajar...
quando os pais viajam...
Na semana passada, minha colega de apartamento viajou para Hamburgo – e, como quando pais viajam os filhos fazem a festa, aproveitei para assistir aos DVDs dela – uma pequena coleção que, revelando uma total falta de critério lógico, mistura Kubrik com contos dos irmãos Grimm. Metade é realmente boa, a outra, esqueça. Como dessa primeira metade já havia assistido quase tudo, tive que experimentar um pouco também da outra.
CASABLANCA (EUA, 1942) - Pro lixo. Pontos negativíssimos: o pianista que não sabia fazer de conta que tocava piano, o humor hollywood-anos-quarenta-eu-sou-esperto-quem-sabe-até-inteligente, a trilha sonora, tudo! Para o cesto de lixo, já!. Ponto positivo: tudo o dito anteriormente, se acompanhado de algum copo de substância intoxicante. Não, não bebi nenhuma gota de álcool nessa semana.
LITTLE SHOP OF HORRORS (EUA, 1986) - Definitivamente pro lixo. Não sou capaz de perdoar um filme sobre uma planta roqueira antropofágica. De qualquer forma, jogaria meus tomates em qualquer outro musical. Bom, “Dançando no Escuro” é, naturalmente, uma exceção.
O APARTAMENTO (EUA, 1960) – Shirley MacLain com Jack Lemmon, de Billy Wilder. Depois, em 1963, o diretor fez “Irma la Douce”. Os dois são basicamente o mesmo filme, um passando em Nova Iorque, outro em Paris, um com uma ascensorista, outro com uma prostituta, um com um contador, outro com um policial. Foi bom. Uma farsazinha de final de tarde faz bem para qualquer um. Não gastaria com um ingresso para assistir ao filme, mas, em casa, de graça, ah, vai é muito bem. Assisti tomando uma xícara de chá de frutas com mel. Como não tinha bolachas de gengibre para acompanhar, bastou-me uma lata de atum no óleo comestível. Com azeitonas para acompanhar, claro.
ROSSINI (Alemanha, 1997) – Não entendi nenhuma palavra do filme. Cores perfeitamente filtradas, enquadramentos milimetricamente perfeitos, edição matemática. Buuuu. Para ver um filme artificial desses é melhor assistir a propagandas. Não valeu nem um tomate.
OI! WARNING (Alemanha, 1999) – puta filme sobre skinheads e procura de identidade que passou sem deixar vestígios na Mostra de SP de 99, mas que acendeu uma série de discussão por aqui na Alemanha por uma suposta apologia a movimentos jovens de extrema direita. Não vou comentar por pura preguiça. Assisti tomando chá preto com leite. Sem açúcar. Agora quero assistir ao filme no cinema. Só não sei onde encontrar...