Quinta-feira, 04 de dezembro de 2003

Um post dedicado a coisas feias e desprezíveis
Nao esperem nenhum texto estiloso agora. Estou exausto. Acabei de terminar um seminário sobre as primeiras páginas e os editoriais dos jornais britanicos no dia em que Tony Blair ganhou a votacao do parlamento para a entrada do Reino Unido na guerra do Iraque. Exausto. Exausto porque ontem tive que terminar um ensaio para uma matéria sobre identidade, língua e interacao e preparar o meu seminário. Exausto porque, de tanto que tive que fazer, fiquei com uma dor de cabeca terrível, enquanto que tinha que ler onze jornais diferentes para o dia seguinte. Exausto porque, de tanta dor de cabeca, tive que dormir às nove da noite e acordar às quatro da manha para voltar a preparar o meu seminário. Tao exausto que nao consigo pensar o suficiente para escrever de forma decentemente linear nem para evitar repeticoes, discordancias, acentuacao. Isso que tudo foi feito em ingles. Nao quero imaginar quando tiver que escrever em alemao. No momento gostaria de fazer agora uma piada anti-intelectual de mal gosto sobre Hitler e livros queimados em eventos públicos, mas estou num país politicamente correto. Pelo menos em relacao a Hitler. Pelo menos em relacao a judeus. Pelo menos em relacao às mulheres, aos turcos, aos negros, aos deficientes físicos e mentais, aos epiléticos. Acho que a mim também.
A Alemanha é politicamente correta demais. Tanta correcao precisa de uma válvula de escape. Os góticos? Os sadomasoquistas? Também, mas nesse final de semana encontrei um novo. Vou comecar a escrever com os acentos. Estou menos exausto agora. Fui com a Romy, minha colega de apartamento, para um mercado de pulgas de CDs, discos, vitas de video e DVDs, pois ela estava sentindo-se vazia e precisava comprar alguns CDs que a preenchesse – ou que a fizesse parar de ouvir músicas que a lembrasem de seu ex. Mas, primeiro, demos uma olhada nos vídeos.
A seção era proibida para menores de 18 anos. Dava para imaginar a quantidade de vídeo de putaria que havia lá. Mas tudo bem, nada que nunca se tenha visto antes. Ei, retifico-me. Não quero dizer que tenha visto filmes dessa natureza – como todos sabem, sou um garoto puro cuja integridade não seria vendida pelo gozo dos outros, ó, céus. Vejam só que ato falho, acabei de escrever "ó, cús" ao invés de "ó, céus" – e o pior, com acento! É verdade que me incomodava um tanto andar por entre velhinhos que escolhiam diante de qual xoxota mastubar-se-iam – mesoclisadamente – ao chegar em casa, mas, como não tinha nada mesmo para fazer, lá fui eu.
Não, não vou comentar os filmes de putaria, pois, como já disse, não são a minha preferência audiovisual. Estava falando sobre as compensações do país politicamente correto. Bastou ver as primeiras prateleiras para notar que havia mais filme de terror do que de putaria. Bom, melhor dizendo, havia quase só filme de terror. Fui procurar algum título desseses a que bicho chato do Espaço Unibanco assiste (eu? como assim?). Uns Kurosawa no meio de Jack Chen e uma infinidade de pérolas de Hong Kong. Era o que havia de mais "étnico" por lá. Fora isso, Faces da Morte, Sexta-Feira 13 I (célebre vencedor de dois prêmios Framboesa de Ouro), II, III (proibido na Alemanha), IV (idem), V (cuja versão alemã teve quase todas as cenas de violência cortadas), VI (idem), VII, VIII e e outros clássicos dos anos 80. E as pessoas compravam.
Então comecei a pensar quais foram os filmes alemães a que assisti. Para começar, o que não assisti, mas deveria assistir – o Nosferatu, a primeira filmagem da história do Conde Drácula. Mas essa não vale, que foi feita antes do nazismo. Bem antes. Vamos então só aos recentes. Anatomia, terror/suspense. Funny Games, terror/suspense. Die Apothekerin (não sei a tradução para o português), bom, humor negro. Não, não é muito, eu sei, mas também não foram muitos os filmes alemães que assisti. De qualquer forma (já estou vendo a minha tese se desmanchar), lá no mercado de pulgas havia praticamente só filme de terror, e o pior, dos blockbusters. Da mesma forma que um país puritano como os EUA são os campeões da indústria pornô (infelizmente não conferi a porcentagem de produções do país do sr. Bush lá), os alemães, cujas campanhas antiviolência tomam conta das estações de metrô, são consumidores vorazes de filmes de terror (ou de, digamos, maldade, que deveria ser um gênero cinematográfico à parte por aqui). Não digo de violência. Terror, mesmo. (Espero que nenhum alemão tenha lido isso, pois, na verdade, não passa da impressão que tive num "Flohmarkt" e não de um estudo socio-psicológico.)
Vou parar de falar besteira sem base que já não estou mais na idade de escrever irresponsavelmente. Falando mais sobre cinema.
Anteontem fui com os intercambistas assistir ao filme L’Auberge Espagnole. Comédia romântica boba, mas, mais do que esse, não me identificaria com nenhum outro filme. Xavier, um estudante parisiense de economia vai estudar na Espanha por um ano como intercambista do Erasmus (o programa de intercâmbio acadêmico entre países europeus que trouxe esse monte de estrangeiros divertidos e sem dinheiro com quem eu estudo e faço festas aqui em Frankfurt). Depois de passar maus bocados para conseguir encontrar uma república, passa a morar com mais cinco estudantes de diferentes países europeus. Basicamente o filme é uma formulinha boba para terminar dizer que eles não franceses, nem alemães, nem ingleses, nem belgas, nem espanhóis, nem italianos, mas simplesmente europeus, caoticamente europeus. Eu não sou europeu, portanto nisso fiquei de fora da panelinha, sozinho no canto da sala, chupando dedo. Mas, mesmo assim, identifiquei-me muito com cada situação dos estudantes – com a exceção de que o espanhol é um tanto mais simples do que o alemão e o clima de Barcelona um tantinho de nada melhor do que Frankfurt (ai, vida, ai, inverno...). A figura do francês perdido na cidade, tentando falar em espanhol no orelhão com algum mal-humorado qualquer para arranjar um apartamento para o qual já há uma fila de vinte interessados me pareceu bastante familiar.