Quinta-feira, 04 de Marco de 2004

Inocência II
Há mais de uma semana assisti ao recém lançado filme alemão “was nützt die Liebe in Gedanke“ (trad., de que serve o amor no pensamento), do diretor Achim von Borries (England!, 2001), em que atuou Daniel Brühl (Goodbye, Lenin, 2001), o novo queridinho do cinema alemão. Por coincidência, havia assistido na semana anterior a’”Os Sonhadores” (2003), mais recente direção de Bernardo Bertolucci. Foi impossível não comparar as intersecções entre os dois filmes. Se a metalinguagem do cinema permeia estruturalmente “Os Sonhadores”, em “was nützt die Liebe (...) a poesia, por sua vez, de forma menos incisiva, faz o mesmo. Tem-se a impressão inicial (e logo desmentida) de que von Borries iria em direção a “Sociedade dos Poetas Mortos”, quando o protagonista Paul (Daniel Brühl), colegial poeta, e seu colega Günther (August Diehl) fazem um pacto baseado na premissa de que o amor é o único motivo por que vale a pena matar ou se suicidar: a partir do momentoem que não se pode mais sentir amor, deve-se matar a si mesmo e ao responsável por isso. E é em um poema que dedica a sua amada, a irmã de Günther, que Paul apresenta o nome do filme.

-caracterização de época e a atemporalidade
Ambos os filmes se passam em épocas em que convulsão e liberdade fundiram-se e se alimentaram – a República de Weimar e o Maio de 1968 em Paris, períodos únicos, cujas conjunturas necessariamente se refletiriam em eventos relatados ou criados. No entanto, apesar da ostensiva caracterização superficial de época, através da música de cabaré, da moda de cores cruas e lavadas e do trem com assentos de madeira, a direção de von Borries é essencialmente atemporal. O jovem que controla a vitrola numa festa em casa de campo faz ironicamente um scretch, antecipando um DJ em uma pequena rave, em que o absinto preanuncia as anfetaminas. No écran, tudo o que se vê passa em 1927 poderia ter passado em tantos outros anos. Mesmo assim, 1927 é o ano.

Assim como Bertolucci, von Borries apresenta um grupo de jovens ligados em uma teia amorosa, que procura viver outra realidade. Porém, enquanto o diretor italiano mostra a vida dentro de um apartamento onde pensamentos refletem o mundo lá fora que se sonha mudar, o alemão retrata uma fuga completa, a negação da cidade e a partida para o campo idealizado, de virginais plantações de trigo e lagos purificadores circundados por bosques, onde o grande amor como fim único da vida pode se concretizar. A cidade de que se foge - palco da polarização política e degradação econômica, matéria para crítica social nas artes e para o pathos alterofóbico estilizado em rostos vampíricos de filmes expressionistas - é o que não se explorou filmicamente, deixando apenas em potencial a energia de “was nützt die Liebe(...)”. De que adianta uma fuga cuja causa o espectador cria só no pensamento? Não montando um ambiente de época contextualizado, rico em tensões, medos, frustrações e incertezas, von Borries se bastou em caracterizar a cidade como a entediante urbanidade, onde regras de civilidade, incorporadas pela escola, não permitem a vida intensa e sem compromissos a que seus personagens se proproem.


-fotografia do cinema e fotografia no cinema
Von Borries apresentou a natureza como espaço de liberdade em que seus personagens poderiam realizar seus ideais – e quando os ideais são tão poéticos e emocionais, eis uma oportunidade para abusar da fotografia em clichés do romantismo, com suas luas cheias, espelhos de lagos, campos de trigo, borboletas, em tons de cor quente, de sol alaranjado, de fogueira à noite. O maior problema que se apresenta na repetição de clichés como foi trabalhada em “was nützt die Liebe(...)” não se trata do esvaziamento de efeito e do tropeço para o “mau gosto” de foto de calendário, mas sim da transposição da imagem estática para o meio de imagem em movimento.

Longos planos em que não há movimento deixam de explorar a relação dinâmica entre os elementos enquadrados, atribuindo à linguagem cinematográfica a da fotografia estática e ralentando seu rítmo desnecessariamente. Mais uma vez, o filme disperdiça potencial, enquanto necessita desenvolver seus personagens e contextualizar a trama.

Mesmo assim, falando-se de percepção, trata-se de um filme cativante, que, se não apaixona nem faz o espectador tê-lo como sua própria memória, como ocorre com “Os Sonhadores”, traz de fato certa identidade com os personagens. Faz-nos pensar de que adianta o amor no pensamento deles, e talvez um pouco no nosso. E, se tivermos um fígado forte, faz até esquecermos das borboletas voadoras.