Domingo, 3 de agosto de 2003

Tive hoje um sonho muito estranho. Fui ao casamento de um parente de uma amiga evangélica minha, a Larissa. A cerimônia acontecia num teatro um pouco pequeno, com cadeiras de madeira, dessas reclináveis. Embora simples, me lembrava por dentro a linda Leeds Opera House. A decoração tentava mas não conseguia esconder que aquilo não era uma igreja (não que tudo fosse sóbrio ou espartano demais; acontece que a platéia ficava em patamares e o palco era realmente um palco - embora um altar não deixe também de ser um palco... em todos os sentidos, ao meu ver).
Para começar o casamento haveria uma peça de teatro interpretada por parentes, e em seguida, tocaria a orquestra sinfônica da família (a obra, 29ª sinfonia de Beethoven... mas Beethoven só compôs até a 9ª!)
Pois bem, procurei um assento, que ficava no corredor e na cadeira do meio (sim, como se, se cortasse a sala em meios, eu ficaria na intersecção dos cortes). "Sentei-me" atravessando meu corpo pelo vão entre o assento e o encosto da cadeira. À minha esquerda estava uma menina da minha idade, loira de cabelos muito longos e ondulados. Não sabia se eu conhecia ou não (pensando bem agora, sei que era uma menina do Santa Cruz, amiga do Napô, que passou em 2003 na FAU; ela me lembrava a Vanessa, minha melhor amiga do colegial, que se perdeu na devoção religiosa ao entrar para a seita Opus Dei).
Eu ria e a abraçava sem que houvesse qualquer motivo. Ela ria em retribuição, mas de uma forma nervosa, pouco à vontade. Eu não sabia se ela ria por não saber como reagir à minha indiscrição ou se ela realmente se divertia comigo. Ela reclamava do celular que eu tinha em mãos, dizendo que eu tinha que desligá-lo no teatro. Olhei, realmente tinha um celular branco enorme na mão. Enorme, não. Monstruoso. Uma versão mega do Nokia que todo mundo tem. Desculpei-me e o desliguei.
Nessa altura, uma mulher começou a xingar os atores. "Que merda! Que lixo!" Fique com raiva e comecei a bater na mulher... Mas logo fui prestar atenção à peça e vi que tinha razão para reclamar. Tratava-se de uma peça amadora tosquíssima. Toda a platéia começou a reclamar e os atores foram expulsos do palco. Na confusão, tudo se transforma naturalmente num coro de igreja batista (eles são puta músicos, tenho que admitir). A música, "Atirei o Pau no Gato" cantado a quatro vozes por todos que estavam no lugar. Um garoto de nove anos tocava o piano, uma tia gorda regia o coral espontâneo, luzes azul e vermelho giravam pelo teatro. Tudo era um grande musical.
Continuava rindo, abraçando a loira. Não pude me conter e cantei empolgado junto com todos. Inesperadamente, a loira virou para mim e disse:
"Estou muito fêmea"
"?"
"Você me deixa muito fêmea"
Fiquei sem resposta e, quando percebi, estava com as calças arriadas até os pés. Tentei contornar a situação, levandei as calças e sentei de cócoras na cadeira. Minha cabeça se perdia embaralhada no cabelo despenteado dela. Não conseguia ver as coisas direito, nem me mover, nem mesmo respirar, pois a atmosfera abafada com cheiro de Seda Ceramidas misturado com sebo de cabelo me sufocava.
Olhei para trás. Minha irmã estava na última fileira do teatro, sozinha. Ao lado da loira, meus amigos de São José dos Campos me davam tchauzinhos. O garoto que tocava piano tentava mostar o quão virtuosamente tocava, a mulher chata do lado gritava histérica. Tudo me oprimia. O barulho em que tudo aquilo se transformou, o cabelo sufocante, as pessoas que me olhavam, como que com alguma espectativa. Mas eu continuava rindo e abraçando a loira.
Acordei no meio da sala de casa. Já eram nove da manhã e todos estavam acordados.