Edifício Brasilar

M.C.Escher, Metamorph
São Paulo se perde em motivos para ser odiada e amada. Para se divertir da urgência dos paulistanos em cumprir seus objetivos claros, um Demiurgo desvairado brinca de caos, abandona as idéias e passa a moldar o mundo a partir de absurdos. E de absurdos em absurdos, a cidade desiste de fazer sentido e segue o tempo assim mesmo – quem quiser que more em outra. Cidade com pés de cabra, visão urbana de híbridos medievais, mapa escheriano do Vale do Anhangabaú; nela, caminhos de volta nunca voltam para o ponto de partida. De volta, só se chega caminhando à deriva – toma-se uma direita qualquer e, como um flash num espelho temporal, lá está ondulando-se de novo contra a Ipiranga a visão opressora da folha pautada de concreto do Copan. São Paulo encontra-se em motivos para ser amada, pois há muito se percebeu não adiantar odiá-la.
No Vale do Anhangabaú, eu começava mais uma busca
por apartamento. Saindo da estação de metrô, o olhar instintivo
do comprador imobiliário sem renda voltou-se imediatamente ao mais óbvio:
um prédio de mais de 50 anos, despido aparentemente há tempos
do charme decadente para gritar, do topo de seus 25 andares, a decadência
sem charme. Brasilar, seu nome. Nos anos 50, havia no térreo o Touring
Club do Brasil e, em seu topo, brilhava um neon da gasolina Gulf. Hoje, entre
outros estabelecimentos comerciais populares, há um salão de cabelereiro
de portas fechadas. Nome, Transformação.
Pombeiro vertical, monstro cinza composto por janelas quadradas idênticas
que dão a incontáveis kitchnetes vista dourada da nova prefeitura
de São Paulo, ao zum-zum, aos bi-bis e aos uós da avenida 9 de
Julho e do terminal da Praça das Bandeiras. Bem merecia seu nome o prédio
– por mérito seu, por mérito do país.
O porteiro conversava com um colega em seu cubículo de
madeira dentro do saguão. Naquele aquário, o painel de interfone,
um ventilador e o monitor das câmeras que acompanhavam a monotonia de
corredores e do elevador.
“Tem algum apartamento à venda?”, perguntei.
“Que você está procurando?”
“Um apê de um dormitório, barato.”
“Olha, tem uma moça vendendo um. Mas é kit.”
“Sabe por quanto?”
“Olha, vou interfonar pra ela. Ela tá pedindo R$20.000,00. A kit
tá novinha, acabou de reformar. Um minutinho só... oi? Tem um
rapaz aqui embaixo querendo ver o apartamento.”
Enquanto isso, olhava as paredes. Placas de mármore caídas
não foram repostas, e um painel de afresco desbotado insinuava curumins
e índias em manchas esbranquiçadas. Brasilar. Um verbo? Substantivo?
Adjetivo?
“Pode subir. É no 17° andar.”
Corri para conseguir entrar no único elevador, já
quase cheio. Um homem baixinho apoiava na parede uma larga tábua com
maços de cigarro contrabandeados de marcas parodiadas, coberta por uma
lona azul. A porta fechou-se. Comecei a ouvir uma conversa iniciada. Se sobre
o tempo ou sobre os fiscais da prefeitura, não sei. Não me lembro.
Meus pequenos prazeres bisbilhoteiros não procuram entender, não
se deixam lembrar, não me levam a lugar algum.
Já estava só no elevador quando a porta abriu no 17° andar.
Na esquerda do corredor, em frente à porta da kitchnete à venda,
antigas cadeiras vermelhas de salão de cabelereiro. Um garotinho corria.
Dei uns toc-toques e logo atendeu a proprietária, deixando sair para
o corredor um vento de incenso.
“Pode entrar”
“Com licença”
“Sinta-se à vontade. Então. O apartamento foi recém-reformado.
Troquei o piso, pintei a parede, coloquei esses armários, esse balcão...
Está tudo novo. Quem comprar vai ficar com tudo. Ah, menos com a televisão,
o DVD e o som, que são novinhos”
Era aproximadamente da minha altura, magra, de tórax largo, tão
largo que deixavam solitários os peitos grandes e irrealisticamente redondos
e firmes.
“E é tranqüila a vizinhança?”
“Depende do que te incomodar. Aqui tem muita gente sozinha. Bicha, velha
aposentada, solteiro, estudante...” Não deixava de ser bonita,
mas nem o cabelo oxigenado jogado no rosto disfarçava a dureza de seus
traços.
“Para mim, o único problema seria morar onde há famílias.
Tipo, em lugar encortiçado, com famílias inteiras morando em kitchnete,
e um monte de criança fazendo barulho.”
Já estávamos sentados, mais à vontade. Ela ligara um ventilador
que virava-se de um lado ao outro; de quando em quando, empacava em um dos lados
e eu ou ela dávamos um empurrãozinho para que voltasse a virar.
“Aqui não há problema com isso. Não tem problema
de nordestino. Isso você vai encontrar lá no Glicério. Sabe
onde fica o Glicério?”
“Não conheço o centro da cidade.”
“O Glicério fica lá para baixo da Praça da Sé.
Não, aqui não tem esse problema. Só tem esse menininho
que você viu aí na porta. Mas ele é uma graça, não
faz barulho nenhum. Fica às vezes aí, no corredor, porque não
tem lugar por aqui pra se divertir, sabe? Pra fazer essas coisas de criança.”
Levantou-se, foi até o fogão, no cômodo único do
apartamento, que se fazia de sala, cozinha e quarto, e acendeu um cigarro na
bocal, cuidando para que seu cabelo não se queimasse. De tronco inclinado
para o fogão, deixou à mostra a anca redonda, dura, tão
artificialmente esculpida quanto peitos.
Enquanto não voltava a sentar, dei uma olhada pelo apartamento. Na parede
da porta, plumas vermelhas penduradas, atrás de um abajour também
vermelho; sobre a cômoda, uma camisola preta transparente.
“Eu gosto daqui, e, olha, investi muito neste apartamento. Quando comprei,
estava acabado. O chão irregular, uma pocilga. E agora, olha que beleza!
Só vou mudar porque tenho que voltar para Salvador.”
“Sei. E vai mudar por quê?”
“Eu sou cabeleireira. Montei um salão – aquele lá embaixo,
sabe? – e só fiz benfeitorias. Comprei tudo – cadeiras, balcões,
espelhos, equipamento... E, quando fui ver, fui enganada. O antigo proprietário
me passou o lugar cheio de dívidas. Deixou milhares de reais sem pagar
IPTU. Contas e mais contas.” Sentada, de pernas cruzadas e cigarro na
ponta dos dedos, abria-se desenvolta. A voz de soprano relaxava-se e voltava
à tissitura natural de tenor.
“E agora vai pra Salvador”
Tocou seu celular. “Sim, ela mesma”, limpou a garganta; tocou levemente
o pomo de Adão com as pontas dos dedos e reacomodou a voz no registro
soprano. “Estou um pouco ocupada no momento, você pode ligar em
três minutinhos?” Desligou, balançou a cabeça e dedicou
um ou dois segundos a uma pose de enfado.
O Demiurgo desvairado paulistano fazia mais uma jogada de troca de lugares,
de colocar as coisas fora da ordem. Sussurava em risadas contidas, mais risonhas
que gargalhadas. “Objetivo? Que objetivo? Que sentido?”
“É claro que não sou só cabeleireira.
Faço outras coisas. Programa, tal. Que só de cabeleireira ninguém
sobrevive. Mesmo assim, em São Paulo dá pra ganhar muito pouco
com programa. Aqui as pessoas são muito promíscuas. Fazem sexo
assim”, plec, estalou os dedos, “de graça. Vá para
os cinemas do centro, vá para os banheiros públicos e veja os
olhares que se trocam. Vá disfarçado, como quem não quer
nada, e veja os homens ansiosos, procurando uns aos outros. Aqui o sexo é
barato – tem peep-show, tem cabine com um buraco para fazer sexo rápido
e anônimo, tem dark-room em boate, tem balada em que os homens se pegam
na pista, se chupam, dão o cu, e ninguém tem que pagar nada.”
“Pensava que em Salvador fosse mais difícil fazer dinheiro.”
“Nada. Sei como as coisas são lá. Já transei com
ladrão. Sim, com ladrão – e não ladrão desses,
de rua. Ladrão rico, tipo seqüestrador, assaltante de banco. Disse
queria ficar só comigo, quanto tempo quisesse. Me pagou quinhentos reais.
Eu tinha cobrado trezentos, mas a bicha foi lá e deu quinhentos. Disse
que tinha muito dinheiro – um bandido de verdade. Fomos para um motel
e a bicha pegou a suíte mais cara. Ele me perguntou se podia usar droga
– eu vou deixar claro que não uso nada, não bebo, não
cheiro, só fumo meu cigarro. Disse estar acostumado, que não ficava
louco, não. Então tudo bem. Mas... qual é o seu nome, mesmo?”
“Maurício.”
“Mas, Maurício, você tinha que ver quanto pó ele cherou!
E o bandido deu, ah, como deu. Tem os turistas estrangeiros também. As
bichas vão pra Bahia, arrumam uma puta ou uma travesti para as férias,
torram o dinheiro – que para eles é coisa pouca -, juram amores,
e voltam para casa, para suas mulheres, que não querem e não sabem
dar.”
Pronto. Procurando um apartamento, encontrei um relato autobiográfico.
*******************
Há três anos, quando tinha trinta e seis, ela ainda era ele. Acreditava ter vivido tudo que poderia viver com um homem, como homem. Em março de 2002, uma amiga, travesti que tomava progesterona desde os doze anos, fez-lhe uma proposta: que fizesse uma operação e fosse junto com ela à Europa ganhar dinheiro fazendo programa. Foi a um estúdio fotográfico, tirou uma foto de passaporte. Nela, um rapaz de cabelo preto enrolado bem curto, pescoço comprido e olhos lânguidos.
“Sempre fui um menino bonito. Quando criança, todos me olhavam e desejavam. Branco, sem pêlo, de pele lisa e macia, indefeso... quem não gostaria de pegar uma criança assim, que já cedo provocava com olhares? É o que as próprias mães sentem – essa necessidade de possuir o menino, de invadi-lo. Porque o que importa é a pica. É ela que tem poder, é ela que todos querem, é ela a ação no sexo. Imagine duas lésbicas. O que elas fazem não é sexo – a não ser que usem um vibrador. E é por isso que já veio tanta mulher me pagar – eu, uma travesti. Porque o importante é a pica.”
Dois dias depois, implantou seios e quadris, por R$ 8.000,00. Em um mês, estava na sala de embarque internacional do aeroporto de Guarulhos. De peruca loura e lisa. Destino, Suíça.
“Como foi a adaptação à sua nova
imagem? Porque essa foi certamente uma grande mudança de identidade.
A pessoa que você via no espelho era outra, o corpo que você tocava
no banho era outro. Seu, ahm, papel na sociedade...”
“...”
“Você se sentia mulher antes?”
“Olha”, projetou para frente o peito e me olhou nos olhos. “Eu
operei por um único motivo. Dinheiro.”
“Mas...”
“Ganhar dinheiro, nada mais.”
No controle de imigração, o motivo de viagem – turismo. Hotel reservado em Montreux, US$ 2.000,00 em cash, cartão de crédito internacional. Passaporte válido. O policial de fronteira olhou a foto no documento e olhou para ela. Os mesmos olhos lânguidos. Foi liberada e pisou em solo suíço.
“Comecei a fazer ousadia aos sete anos com um vizinho
de doze. Nessa época, a gente não fazia nada de mais – e
toda criança começava mesmo a fazer ousadia. Era só coisa
de mão, não tinha o troca-troca. Com essa idade, a pica ainda
era pequena e tal. Depois fiz ousadia com um tio que tinha minha idade. Minha
família, sabe como são as famílias por lá; na minha
família, primo casa com prima, tio é primo e primo é irmão,
sabe?”
O celular tocou.
“Com licença. Sim? Ela mesma. Sim. Sou loura, alta, jovem, magra.
59 quilos, nada de gordura, nem de estria, nem de celulite. Tenho peitos fartos,
bumbum também. Sim. Minha pica é grande – tem 20 centímetros.
É grossa também – seis de diâmetro e funciona direitinho.
Sim, aqui no meu apartamento mesmo. Tenho DVD, a gente pode assistir um filminho,
tomar uma cerveja, relaxar, do jeito que você gostar. Custa R$50,00. A
cama é boa, bem resistente. Você quer o quê? Que eu te vista
de menina? Qual é o seu tamanho? Sim, dá, sim. Veste bem. Te visto,
sim. Primeira vez? Não tem problema, a gente faz como você quiser.
Fica aqui, logo na saída do metrô Anhangabaú. Quando chegar,
dá uma telefonada.”
Enquanto falava, olhava para cima, com cara de tédio; volta e meia demonstrava
irritação. Ao longo da visita, recebeu cerca de cinco telefonemas.
Em três, repetiu basicamente o mesmo texto.
Trabalhou cerca de sete meses na Suíça francesa, cada
mês em uma cidade. Lausanne, Montreux, Bienne, Genebra... Nunca ficava
mais tempo, pois os clientes sempre queriam algo novo. “Você não
procura trocar sempre de namorada, Maurício? Você não quer
sempre um corpo novo?”
Por programa, cobrava CHF 100,00. Se o cliente pedisse algo mais – que
ejaculasse, que urinasse, que realizasse qualquer fantasia não prevista
pelo programa básico – o preço dobrava. Os ganhos eram altos,
mas altos também eram os gastos. Como sua situação era
ilegal, vivia em um quarto sublocado por CHF 100,00 diários. Anunciava
seu trabalho em jornais locais por CHF 130,00. Junto aos gastos com alimentação,
material de trabalho, higiene e vestuário, tinha um gasto fixo de aproximadamente
CHF 300,00 por dia – ou seja, três programas para sobreviver. Assim,
chegou a fazer um máximo de vinte programas em um só dia.
“Quando eu tinha onze anos, meu pai comprou um terreno
no interior da Bahia, de 45 hectares. Foram morar junto quatro famílias
de parentes. Como eu era o único a ter estudado, dava aula para meus
primos. A gente tinha aquela vida de roça – saía pra caçar
passarinhos, tomava banho de bica... Sabe o que é bica? Era um cano que
levava água de uma montanha e derramava numas rochas.
“Um dia, fui com um primo tomar banho antes da hora de costume. Ele tinha
quatorze anos e era o mais novo de três irmãos. Enquanto eu estava
me lavando, entrou sabão no meu olho. Fique cego na hora e tive medo
de escorregar nas rochas molhadas. Chamei o primo pra ajudar a voltar pra bica.
Ele me levou assim, abraçado. Quando senti os corpos ensaboados se tocarem,
fiquei excitado. Debaixo da bica, tirei o sabão dos olhos. Já
podia enxergar, mas não tinha coragem de abrir, porque estava de pau
duro. Morria de vergonha. Quando consegui, vi que meu primo também estava
excitado. Começamos a transar lá mesmo.
“Desde então, a gente ia sempre tomar banho mais cedo. Ficamos
viciados nisso, até que meu primo do meio, de dezesseis anos, descobriu
a gente. Mandou o irmão pra correr, falando que ia contar pra todos,
e falou que, se eu não desse para ele, contaria pros meus pais. Fiz de
difícil, disse que não e que não, mas cedi. Mais tarde,
o irmão mais velho também ficou sabendo, e acabamos transando.
Sempre vinha visita – trabalhador da roça, tio, amigo de família.
Olhavam para mim, me queriam – e transavam comigo.
“Uma vez estava com vontade e não tinha com quem. Vi uma galinha
da minha mãe. Pensei, ‘se cabe tanto ovo aqui dentro, deve caber
um pinto’. Segurei as asas dela, as patas dela, assim, e enfiei na galinha.
Quando terminei, ela caiu no chão. Começou a andar tonta, assim,
caindo de um lado, caindo de outro. As outras vieram cacarejando, cacarejando,
para socorrer a colega - porque galinha sabe quando tem algo de errado com uma
colega. Foi galo também foi pro curral ver o que acontecia – e
olhou assim, feio, de cima. E a galinha andava tonta, tonta. Minha mãe
ficou assustada e levou ela prum terreiro. A mãe-de-santo disse que a
galinha estava com uma doença muito séria, e que teria que ser
queimada. Que não se comessem as outras galinhas, que perigavam de também
terem contraído a doença. Ficamos um bom tempo sem comer galinha
– e eu, horrorizado, sentindo culpa.”
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Em julho aconteceria em Montreux o mais famoso festival de Jazz
da Europa. De seu apartamento se ouviam ao fundo os shows. Era uma ótima
temporada para fazer programas. Sol, calor, clientes do mundo inteiro dispostos
a gastar. Como desde criança era apaixonada por Blues e Jazz, deu-se
liberdade de sair um pouco da rotina do seu quarto – faz escova, veste
cinta-liga, soutien falso e plumas, atende cliente, faz sexo, tira o esperma
com lenço úmido, vai ao banheiro, põe o dinheiro na latinha,
atende o telefone, faz escova, veste-se e atende o próximo cliente.
Interrompeu o vazio da vida na cama, seu realismo desconcertante e deu uma brecha
para reviver as circunstâncias em que conheceu seu único amor.
Um dia de folga no festival.
“Com quinze anos, mudei com minha família para
Itabuna, próximo a Ilhéus. Estudava à noite em um colégio
particular e trabalhava de dia na relojoaria do meu pai. Era a primeira vez
que morava em cidade grande, com tantos homens à disposição.
Foi a época em que o Cazuza estourou, quando a Aids ainda não
estava aí.
“Um dia, quando tinha quase dezesseis anos, fui pra uma festa com banda
ao vivo no BNH. Uma das musicas era “Menina Veneno”, que estava
estourando na época. Conhece ela? Então, ela tem um solo de saxofone,
certo? O saxofonista – alto, forte, louro... sabe jeito de saxofonista,
sabe? Ele tinha aquele jeito de saxofonista. Então, foi começar
o solo de sax que fiquei paralizado. O toque dele era diferente da música
original. Era quente, aveludado. Quando começou a improvisar, fiquei
louco. Fui à frente do palco, subi numa cadeira e fixei o olhar nele.
Ele olhou também e, como se não tivesse mais ninguém no
show, passou a tocar só para mim. Terminando o solo, abandonou o palco.
Corri atrás dele e nos encontramos em um canto. Eu tinha 16 anos e ele,
36. Fomos pra casa dele e, pela primeira vez na minha vida, dormi fora.
“Meu pai era muito rigoroso. Passou a noite em claro. Nunca tinha batido
em mim, mas eu tinha medo de que essa fosse a primeira vez. O saxofonista –
como ele tinha lábia! – falou que resolveria tudo e me levou para
casa. Disse ao meu pai que eu tinha passado mal no show, perdido a consciência,
que não conseguia dizer onde morava. Teve que me levar a sua casa e me
deixar lá até que estivesse em estado para dar o endereço
e voltar. Como minha família tem histórico de epilepsia, meu pai
acreditou na história e agradeceu ao saxofonista pelos cuidados. Acabou
me levando pro hospital fazer uma bateria de exames, mas não havia nada
de errado comigo – e dava graças a Deus por isso.
“O saxofonista foi convidado pra voltar sempre em casa e, em pouco tempo,
ele e meu pai viraram grandes amigos. Ia em casa tocar pra meu pai e dormia
de hóspede no meu quarto. Eu deitava na minha cama, ele, num colchonete
no chão - onde eu sempre acabava acordando. Meu pai sabia o que acontecia,
mas não dizia nada. Para ele era melhor assim do que se eu entrasse num
grupo de teatro.
“Uma noite, eu estava transando com o saxofonista, e percebi que a porta
do quarto tinha abrido e fechado. Era meu pai. De manhã, não fez
nenhum comentário de manhã – tudo estava igual. À
noite, depois de assistir à televisão, disse que, se fosse Presidente
da República, exterminaria todos os gays. Então me subiu um ódio
e respondi que, se isso acontecesse, teria que matar muita gente. E talvez a
ele mesmo. Não reagiu. Desde então desconfio de algo do meu pai.
“Eu e o saxofonista ficamos assim por um ano, até que veio com
a notícia de que ia mudar pro interior de Minas Gerais. Estava apaixonado
por ele, incapaz de abandoná-lo. Só tinha uma coisa a fazer –
fugir de casa com ele. Deixei um bilhete pro meu pai, peguei meus discos e minhas
roupas e fui embora com o saxofonista.
“Vivemos quase dois anos juntos na casa dele. Sabia que bebia, mas não
imaginava que isso fosse virar problema. Só morando junto que descobri
que, quando estava bêbado, ficava muito louco, agressivo. Comecei a desconfiar
que ele se drogava. Muito depois, quando já tínhamos separado,
concluí que era cocaína.
“Como eu era um rapaz bonito, muitos homens se interessavam por mim. O
saxofonista era ciumento e, quando sabia que alguém tinha dado em cima
de mim, ficava louco, bebia e se drogava. Chegou um momento em que começou
a me trancar no quarto quando saía. Eu não agüentava mais
a situação. Amava o saxofonista, como nunca deixei de amar, mas
tinha perdido minha liberdade. Vivia com medo.
“Isso continuou assim até que um dia saí sem avisar. Quando
voltei, as luzes de casa estavam acesas. Não esperava que ele já
tivesse voltado. Entrei. O saxofonista estava afundado no sofá. Queria
saber aonde eu tinha ido, quem fui ver. Começou a se descontrolar. Gritava
que eu só seria seu, nem que tivesse que me matar. Respondi que me matasse
então. No que saiu da sala para pegar alguma arma, fugi.
“Estava só de calça de moletom, camiseta e chinelos Havaianas.
Não tinha dinheiro nem documentos. Corri desesperado o equivalente de
aqui até a Sé, indo, voltando e indo de novo. Claro que as Havaianas
soltaram as tiras, e em pouco tempo já estava correndo descalço.
Tinha que fazer um caminho que me despistasse, pois sabia que o saxofonista
entraria em contato com a polícia para fazer busca. Ele tocava numa banda
de fanfarra da polícia e tinha amizades na corporação.
“Cheguei num telefone e liguei desesperado pro meu pai, mas não
havia o que ele pudesse fazer por mim. Como estava sem documentos, não
adiantava meu pai me enviar dinheiro pro banco, que não teria como eu
sacar. Comecei a chorar. Uma mulher me viu e perguntou se poderia ajudar. Contei
a história toda. Ela propôs que meu pai enviasse dinheiro pra conta
dela e compraria um bilhete de ônibus no nome dela pra Bom Jesus da Lapa,
pra de lá ir a Itabuna, pra que não me procurassem entre os passageiros
que fossem direto pra lá. Descendo do ônibus na rodoviária
de Itabuna, um fiscal perguntou meu nome. Respondi sem pensar, “Antônio
Roberto”. Fiz que ía pegar minha identidade, mas o fiscal disse
que não precisava. Estava livre.
“Sabia que, mesmo estando na casa de meus pais, o saxofonista voltaria
algum dia para me pegar, mas continuei saindo normalmente nas ruas, trabalhando
na relojoaria do meu pai. Fui uma vez até a padaria próxima de
casa. Olhei para a esquina do outro lado da rua e levei um susto – era
o saxofonista. Voltei correndo para casa e contei para meu pai. ‘Estou
com medo; preciso de uma arma, senão ele me mata. Ele já me ameaçou
uma vez, e pode fazer dessa. E meu pai comprou um revólver
– um 38.
“Senti que o saxofonista estava me perseguindo; não foram poucas
as vezes que nos vimos pela rua, mas em nenhuma ele se aproximou. Até
o dia em que nos demos de cara a cara. Ele me pediu pra voltar, disse que me
amava. Eu não conseguia agüentar aquilo, porque também não
tinha parado de amá-lo. Pedi pra parar, que se afastasse. Não
poderia voltar pra viver de novo aquele cativeiro, a agressividade, a solidão.
Segurou meus ombros. Nisso, pus a mão no revólver, que estava
na minha cintura. ‘Me larga, por favor’. Ele insistiu. Peguei a
arma e apontei para ele – como nesses filmes americanos, mesmo, sabe?
Gritei, ‘vá embora, me deixe em paz!’. O saxofonista ainda
insistiu, dizendo como me amava. Mas mostrei que estava pra atirar mesmo. Acabou
indo embora e fiquei sozinho segurando o revolver.
“Dez anos depois, meu pai comprou um sítio em Bom Jesus da Lapa,
cidade de romaria às margens do São Francisco, onde eu fiz a baldeação
pra Itabuna quando fugi de Montes Claros. Nesse tempo, saí de casa, trabalhei
em diversas relojoarias em São Paulo. Meu pai telefonou pra mim, perguntando
se eu poderia administrar o sítio de Bom Jesus da Lapa. Como estava cansado
da correria da cidade, acabei aceitando.
“Chegando lá, vi uma faixa anunciando um show. Entre os músicos,
estava o meu saxofonista. Em momento algum nestes anos, e até hoje, deixei
de pensar nele. Decidi ir ao show. Estava bem cheio. Me misturei à platéia,
que não parava de dançar. Olhava para o saxofonista, mas ele não
podia me ver na multidão. No momento em que começou o solo dele,
fui à primeira fileira com uma menina. Ela ficou de costas para o palco;
eu, de frente para ela, dançava olhando diretamente para o saxofonista.
Em um momento, ele esbarrou uma nota e o sax engasgou. Nós estávamos
nos olhando. Parou de tocar e abandonou o palco. O pianista assumiu imediatamente
seu solo, e nos encontramos para ter nossa última noite juntos.”
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Na Suíça, nunca foi explorada por uma cafetina ou cafetão. Supondo que num dia de muito serviço, em que ganhasse CHF 1200,00, teria, como autônoma, CHF 900,00 líquidos para guardar na latinha. Em pouco tempo poderia comprar um casamento com alguma suíça por CHF 40.000,00, entrar em legalidade, pagar impostos para a previdência social e alugar um apartamento por cerca de CHF 500,00 mensais. Cafetinada, sobrariam somente CHF 600,00, o dinheiro não chegaria diretamente às suas mãos e perderia a liberdade para escolher clientes. Mas também não chegaria à situação de pessoas traficadas pela máfia internacional da prostituição, que têm seus passaportes presos pelos cafetões, são obrigadas a beber e se drogar, que não vêem o dinheiro em suas mãos nem têm liberdade de sair nas ruas para conhecer o país por que trocaram seus de origem.
Nesse tempo, esteve no corpo de homens de toda etnia – marroquinos mirrados de sexo eqüestre, indianos cheirando a cominho, de traços grosseiros e medíocre erótica; orientais passivos, negros, ciganos, bandidos loiros iuguslavos, alemães, italianos, espanhóis, franceses, luxemburgueses.
“O europeu do norte acha as latinas muito quentes. É porque as alemãs não querem dar. Elas não se tratam, não querem sexo, e os alemães ficam todos assim, querendo foder, coitados. Telefonam aqui; por CHF 30,00 a mais, dizem como devo estar vestida. Pedem cinta-liga, salto alto, corpete, uma puta mesmo. A gente se produz um pouco mais, veste umas plumas vermelhas, faz uma escova, dança um sambinha. Eles ficam impressionados, porque fizemos mais do que o pedido, e dão CHF 150,00, ao invés de CHF 130,00. Fodem rapidinho e vão embora. Tudo porque a mulher, lá na casa, não quer saber de dar. Mas tem que ver. Cada ombro largo, cada corpo... Claro, tem que aproveitar enquanto são jovens, porque, depois, tomam cerveja demais e ficam todos barrigudos.”
Com seu francês mínimo, podia pouco mais que se apresentar no telefone – je suis blonde, maigre, douce, avec des gros seins, de belle poitrin; mon apartment, c’est derrière la gare. Conhecia também o vocabulário sexual - oral, anal, gozar, ativo, passivo, chupar, foder. Mais que isso, não precisava. Tinha ido à Europa para ganhar dinheiro, não para conhecer o príncipe encantado.
“Tem aquelas que vão lá esperando realizar seus sonhos. Esse é o espírito burro da mulher. Conhece um cliente, vira exclusivo por um tempo e, quando vê, o homem foi embora e ela deixou de ganhar dinheiro. Isso quando não fazem o cliente se apaixonar, montam em cima dele, roubam e acabam denunciadas pra polícia. Não. Sou realista e tenho meus objetivos.”
Mas não precisou que nenhum cliente a denunciasse para ser pega pela imigração. Decidiu mudar para Luxemburgo, onde começou a trabalhar em um bordel. Embora a prostituição fosse legalizada, a cafetinagem era considerada crime. A polícia luxemburguesa organizou uma grande operação para encontrar cafetões e organizadores do mercado de prostituição. Entrou em contato com todos os anúncios da seção schöne Stunden/ belles heures do semanário de classificados Luxbazar e localizou onde trabalhavam os profissionais do sexo. Os agentes foram em peso nas zonas de prostituição de forma a não dar tempo para as prostitutas e travestis avisarem umas às outras da ação. Não apenas conseguiram prender cafetões e sublocadores de apartamentos para prostituição como também identificaram as prostitutas estrangeiras em situação ilegal. A travesti não tinha ilusão alguma para deixar ao sair da Europa. Forçada, voltou ao Brasil com €60.000,00 em bolso.
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“Mas você não chegou a se envolver com nenhum
homem lá? Não digo necessariamente com os clientes, mas... tantos
meses sem conhecer ninguém? Tão próxima de tantos e, mesmo
assim, sem ter qualquer afeto? Quando você estava sozinha no quarto, sem
cliente, e não tinha o que fazer, e sentia a pressão de um tédio
inacabável, e nada, nada acontecia... e você queria sair, e talvez
até saísse, mas a rua continuaria a seguir sem te ver, e ninguém
seria nada pra você, assim como você seria nada pra ninguém,
porque aqueles que andavam pela rua seriam sempre o mesmo, o mesmo, o mesmo
cliente potencial qualquer? Nada mais além do cliente que, depois de
gozar, limparia a própria culpa com duas notas de CHF 50,00?” Eu
não conseguia entender quem era a pessoa com quem conversava –
alguém com um papel sexual tão ambíguo, que mudara sua
imagem não para refletir no corpo sua identidade, mas sim para tê-la
como instrumento de trabalho. Se não sei lidar com questões emocionais,
deparar com alguém para quem essas questões simplesmente não
existem é ainda mais incompreensível. Poderia entender a camélia
da novela da Globo, menina do sonho kitsch de conto de fadas. Mas o que eu via
era realidade demais.
“Amor eu só tive um. E vivi nele tudo que poderia viver de um amor.
Não há uma semana em que não pense naquele maldito saxofonista.
Hoje, ele tem sessenta anos, e nem sei se ainda está vivo. Não
fui pra Europa pra me enganar e viver um conto de fadas. Fui pra ganhar dinheiro.”
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Voltando para São Paulo, comprou a kitchnete onde conversávamos. Fez uma reforma, revestiu o piso com azulejos marmorizados brancos, passou massa-corrida nas paredes e as pintou de branco; comprou armários de cozinha, fogão, microondas e máquina de lavar brancos, uma televisão de tela plana, aparelho de DVD e um sistema para home theater Dolby Surround. Um incenso sempre purificava o ar, as toalhas e lençóis sempre estavam limpos. Sempre poderiam assistir a um filme, tomar uma cervejinha. A cama sempre seria resistente.
“Quando meus clientes vêm aqui, ficam impressionados. Dizem, ‘como você é chique. Deve ganhar muito dinheiro...’ Porque estão acostumados com uma cama ruim, uma televisão velha, um quarto úmido e escuro. Porque estão acostumados a pegar travesti na rua, a ir a bordel, e pegar chato em lençol sujo. E ficam deslumbrados aqui. É disso que gostam os clientes brasileiros. Do chique, do bom gosto – da camisola transparente, da calcinha de outra cor. Do luxo. Porque é isso que eles não têm em casa.”
Montou um salão de cabelereiro no térreo do mesmo prédio, o Brasilar, e fez um cartaz que, de largura, atravessava toda a fachada do salão. Nele, se lia “Transformação”. Como cabeleireira e como prostituta, a travesti recomeçou a vida em São Paulo.
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Mas o Demiurgo paulistano não deixaria a vida parar no
mesmo lugar. Da mesma forma com que traz pessoas para seu mundo, logo as expulsa.
Desvairado, não lhe importa o sentido das coisas, mas sim que continuem
a se mover. Que nada faça sentido, que surja uma dívida –
“mais de R$ 10.000,00 de IPTU, o filho da puta me enganou” –
e, quando mais um macho se sentir demais oprimido pela monogamia e quiser pagar
por um pouco de liberdade sem culpas, que volte ao edifício Brasilar
e encontre um estudante deitado na cama, escrevendo melodrama ruim.
“Não, senhor, ela não mora mais aqui. Casou com uma espanhola
em Salvador e voltou pra Europa”.
Lar brasileiro. Onde um Demiurgo desvairado – paulistano e desesperadamente
brasilar – planeja os papéis de mulheres, homens e mutantes. Prisão
concreta que fazem de lar onde se escondem e encontram suas funções;
onde se transfiguram até que percebam não ser esse mais seu lar.
Que decidam desbrasilar-se para se brasilarem em outro lugar, e façam
de seus corpos lares brasileiros, que dão, fodem, chupam e gozam. Que
na busca de um lar, o demiurgo paulistano ponha o desavisado de cara com o Brasil.


Há muito tempo nao tenho sido um garoto tao de família. Três semanas seguidas voltei para Sao José dos Campos. Se deixei de gostar de Sao Paulo? De forma alguma. Decepcao do jornalismo? A princípio sim, mas agora sinto até que posso gostar da profissao. Nao sei o que acontece. Estou simplesmente em um momento família.
Re(des)ligando
Dia desses recebi no e-group da minha turma do colegial um foreward religioso. Mais precisamente, recebi uma mensagem contestando uma mensagem religiosa que nem cheguei a ler. Esses quatro anos longe de São José dos Campos me fizeram esquecer do re-ligar pela crença irracional de deus. É verdade que, ao morar na Inglaterra e na Alemanha, ultrapassei a disputa besta entre quase-iguais pentecostais e carismáticos e pude presenciar um mínimo da convivência forçada entre fundamentalistas e sociedades laicas, tanto no pré-11 de setembro, do gueto incendiado em Bradford, quanto no pós, do medo em aeroportos, do mau-olhar nos trens, do desespero diante de uma mala abandonada. Mas isso era realidade demais para mim, e com o olhar sem raízes do visto temporário e da cidadania brasileira, via-a como em páginas de papel. Entre parênteses, ser estrangeiro para mim foi mais o desprendimento do próximo que tentativa de entendê-lo.
Mas lá estava a provocação. Uma crítica pelo distanciamento de deus no dia-a-dia. A tentativa de re-ligar dos tempos colegiais voltou em forma de spam-terror. Não resisti. Tive que responder, mesmo com toda minha grosseira ignorância teórica:
"Parece-me claro. As coisas são entendidas a partir de pares opositores - bem e mal, escuro e claro, feio e belo, luz e sombra, e assim por diante. Determinando esses pares opositores há um centro - o centro definidor do que são esses parâmetros opostos entre si, que, por sua vez, definem as coisas. Para você [a menina que enviou o e-mail], esse centro é deus. Esse centro (ou deus) seria determinante e indeterminado por definição (se ele fosse determinado, não seria o centro que define as oposições, e seria necessário buscar um novo definidor)."
"O problema é que não há um centro absoluto. Esses centros determinados historicamente. Seu pensamento, medieval, perpetuado ou pela ignorância ou pela irracionalidade da fé, já foi ultrapassado pelo iluminismo (em que esse centro seria a razão, o que em si não se basta, pois o uso da razão é determinado por motivos da esfera moral, oposta – ou complementar? – a ela), pelo pensamento romântico (em que o centro é o Eu, que nega a razão e atribui ao Gênio, ao Eu, a capacidade de criar a partir do escuro nada - um pensamento irracional marcadamente alemão que encontrou no fiasco humano da nossa sangrenta história recente sua maior expressão), e por outras tantas estruturas de pensamento que não cabem ser citadas aqui. Deus, o homem, a razão, a natureza, o inconsciente, o caos... Tantos são os centros, e todos são tão questionáveis, que levam necessariamente a uma pergunta - essa, sim, central: o que é que cria esses centros supostamente indetermináveis e onipotentemente determinantes?"
"Digamos que seja a História, o desenrolar do poder de uns homens sobre outros. A mudança dos cidadãos com sua assembléia na ágora sobre seus escravos e suas mulheres para o senhor feudal com a igreja sobre seus servos, para a aristocracia com a igreja e o estado moderno sobre seus súditos, para burgueses com a imprensa e o estado burocrático sobre o proletariado, para o "mercado" com o FMI, OMC, OIT, e outras instituições internacionais sobre os povos nacionais. Todos os períodos históricos possuem seu centro. Num momento, a Razão. Noutro, Deus. Depois, o Indivíduo. E o que permanece é a ignorância de o que determina os parâmetros de pensamento. Perdoem-me imprecisões e simplificações, mas acredito que as coisas sejam mais ou menos assim mesmo."
"O amor de deus é, isso sim, o amor que o homem tem de se impor sobre seu próximo através do terror de um inferno imaginário (bastaria já citar essa forma mais sutil de coerção; seria muita indelicadeza para com meus caros colegas lembrar das cruzadas - medievais ou as atuais, do senhor Bush -, da inquisição, do extermínio de povos autóctones nas colônias e das guerrilhas religiosas na Irlanda - isso para me conter à barbárie cristã e não citar a, pasmem, judaica nem a, pasmem, islâmica). É o amor ao controle pelo medo, pela culpa, pela penitência antes da concretização do pecado."
"Mas fiquemos tranqüilos. A criação de deus não é o único mal desse mundo. Embora a paz entre as nações do suposto fim da história (afe!) balance aparentemente por alguns loucos movidos por seu próprio deus, vendendo sua vida pela redenção na inexistência após a explosão de seus corpos, há males maiores. Deus é menor que um Estado e menor ainda que um sistema econômico. Enquanto pessoas babam assistindo ao padre Marcelo ou telefonam para "fala que eu te escuto", o mundo parece ainda um lugar seguro de se viver."
Bom, assim eu terminei o meu e-mail. Um dia depois, fui assistir à televisão. Reportagem sobre estratégia de eleição em estados com maior número de votantes “independentes” às vésperas do debate entre Kerry e Bush. Na voz afetada de telejornalista (por que a intonação padrão do telejornalismo brasileiro é esse de professora pré-primária?), a fruta cristalizada da reportagem: jovens são um grupo expressivo dentre o eleitorado republicano. Motivo? Filhos de famílias religiosas. Citando uma entrevistada, loira e feia, “a maioria da ‘América’ é cristã. Voto em Bush porque ele representa a América”.
Nesse momento, arrependi-me profundamente da ironia barata do final daquele e-mail. Deus não é necessariamente menor que o Estado. Deus confunde-se com o Estado.
Stravinsky
Por que demorou tanto para eu me apaixonar por Stravinsky?
Os motivos para nao se acreditar mais na humanidade se montoam; mesmo assim, nao cansamos de nos surpreender como nós nao gostamos de nossos colegas "nós mesmos". Nao quero desvendar desverdades nas profundezas da falta de sentido de nossas vidas, mas apenas prosar uma passagem de pé de ouvido nas calmas - e acidentadas - calcadas da rua Cayowaa.
"Menina", continuava a senhora uma conversa irrelevante, enquanto andava com seu cachorrinho marrom, "esse bichinho me dá um trabalho..."
"É, deve dar..."
"Ah, mas pelo menos é melhor do que gente, né?"
"Ah, sim..."
Na verdade nao há dúvida de que os cachorros sejam melhores do que os homens - pastores alemaes nao têm o costume de colocar dálmatas em câmaras de gás. Mas, além de cruéis, esperava que os humanos fossem menos sinceros.

Pronto. Minha veeelha república (a 91C, que ainda nao se deu o trabalho de se dar um nome) tem agora um fotoblog: a Casa dos 4 Encalhados. Achei de mau gosto o nome, mas as meninas tentaram me convencer da verdade que ele carregava. Bom, de qualquer forma, visitem. Ainda quase nao há fotos pois as pessoas aqui nao se encontram. Mas tudo bem.
Clareira
Desde que cheguei a São Paulo - cidade que ainda procuro acreditar ser minha predileta -, uma rinite me ataca sem trégua. O pior acreditei ter sido no tempo em que passei na casa de meus pais, em São José dos Campos - roça também conhecida como pólo tecnológico, que une montagem de aviões à queimada. Cercado pela seca de inverno, as chaminés da Monsanto e o cheiro acre do mato incendiado, encarcerei-me em meu quarto. Joguei baldes d'água no chão, amarrei ao rosto uma toalha úmida e esperei que o tempo para voltar a São Paulo chegasse.
O tempo chegou assim que o Pássaro Marron atravessava Guarulhos e a cortina amarela de seu céu de enxofre me recebia com pompa. São Paulo dava-me um abraço de concreto e me imergia no vai-e-vem da anonimidade. De volta ao meu apartamento, deitei em meu canto ao chão e comecei a espirrar. Com minha respiração via a poeira fugir rente ao corre-pé e juntar-se a alguns fios de cabelo.
Domingo recebi um sagrado resfriado que me acompanha até agora na minha reestréia de faculdade. Segunda-feira acordei atrasado e corri para chegar em uma aula cujo professor faltou. Meu corpo tendia a cair para frente pelo peso de meu nariz repleto de ranho, e de tempos em tempos um espirro parecia me limpar a alma para logo encher-se de novo de secreções.
E terça, glorioso dia em que o caos negou-se a criar, acordo de novo atrasado. Corro de novo tentando equilibrar minha cabeça ranhenta, sem ter tido tempo nem para o café-da-manhã, nem para o banho. O trânsito da Praça Panamericana faz desse segundo dia já rotina - e a rotina se confirma ao saber que a professora dessa aula também faltara. Meu colega Napoleão diz a mim - desde junho de 2003 não tenho aula nesta faculdade.
Decido gastar meu tempo na fila do bandejão para matar uma saudade que não sentia. O guichê em que não se vê a pessoa do outro lado. A coletora de tíquetes (seu comentário de hoje - eu sou insubstituível). A carne moída. Os cachorros com olhar doce e preguiçoso.
Sinto-me mal. Todos os sintomas do resfriado se reforçam com o calor do meio-dia. O nariz escorre, perco o controle dos meus espirros e me torno pequeno diante das pessoas que não precisam se esconder atrás de um lenço de papel. Suo muito. A calça cola-se à pele e, em suas dobras, a pele cola-se a si mesma. Preciso de um banho. Volto de calça para casa – banho tomado – e volto de bermuda para a faculdade. Aula. Mas onde?
O nome da minha professora não se encontra na lista de salas de aula. Peço informações na secretaria de graduação. Não se sabe, que eu pergunte em outro lugar. Pergunto. Que eu vá a uma outra faculdade. Vou. Não encontro informação de onde seria minha aula. Secretaria de Graduação fechada. Volto à primeira unidade e decido assistir a qualquer professor que dê a mesma disciplina. Entro na sala de número correspondente ao informado no quadro de avisos. Aula errada na sala certa. Ao invés de Política IV, Antropologia IV. Meus ânimos não estão para Dumont nem Sahlins nem Geertz. Saio derrotado.
Volto para a ECA e, logo depois, vou ao ponto de ônibus. Ele demora. Quando pego, sento-me ao lado de dois politécnicos que dissertam ao longo de toda a viagem sobre sua dedicação a certo game de Playstation. Espirro e meu nariz começa a sangrar. Decido que meu dia termine antecipadamente e às cinco encerro minhas atividades até que o despertador toque amanhã às seis e meia.
Em A Insustentável Leveza do Ser, Kundera comenta o início do relacionamento de Tomas e Teresa como sobreposição de coincidências. O acaso – desde um passar durante uma viagem pelo lugar por onde o outro trabalha até certa música tocar em certo momento – cria nós entre linhas de vida independentes que encaixam expectativas de tal forma a parecerem, em retrospectiva, predestinadas. Meu dia hoje foi o oposto disso. Acontecimentos se afastaram uns dos outros. Linhas de vida que, por norma, deveriam se encontrar, foram assopradas pelo acaso e eu acabei encontrando-me num clarão, como se meus espirros afastassem para além do meu alcance aquilo que deveria estar onde eu estivesse.
(Devo, no entanto, deixar como em pé de página que suprimi todos os ótimos acontecimentos desses últimos dias, que, na verdade, foram muito mais que suficientes para deixar esses meus queixumes acima absolutamente irrelevantes. Afinal, coisas boas não se escrevem. Vivem-se.)
PS: Vale lembrar que estou com fotos novas. As da Rússia estão em peso. Dêem uma olhada no menu da direita, principalmente em "Moscou" e "São Petersburgo".